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Sete coisas a saber sobre as florestas nativas de Portugal

22.08.2025
leitura de 7 minutos
Cascatas da Mata da Margaraça. Foto: Carla Marques da Silva/WikiCommons

Este ano já ardeu 2,35% do território português. Dados recentes mostram que Portugal é o país da União Europeia onde arde a maior percentagem do seu território. Perante esta situação, importa mais do que nunca olhar para a floresta nativa. Carine Azevedo ajuda-nos a saber o que é, o que a distingue das demais e por que é tão importante.

O que gostaria de saber sobre as florestas nativas de Portugal? Envie as suas sugestões para o email [email protected] e tentaremos responder.

WILDER: Fala-se muito de florestas nativas, em especial em época de incêndios. Mas o que é uma floresta nativa? O que a distingue das demais?

Carine Azevedo: Uma floresta nativa é um ecossistema formado por espécies autóctones, ou seja, árvores e arbustos que evoluíram naturalmente no território português ao longo de milhares de anos, muito antes da introdução de espécies exóticas ou da prática de plantações.

Exemplos de espécies autóctones:

Estas espécies, adaptadas ao nosso clima, estão profundamente integradas nos ciclos naturais: alimentam a fauna local, contribuem para a fertilidade do solo e regulam o ciclo da água.

Mata do Vilar, Lousada. Foto: Wilder/arquivo

W: O que as distingue das demais florestas?

Carine Azevedo: O que realmente distingue uma floresta nativa é a sua diversidade e complexidade. Ao contrário das plantações artificiais – compostas geralmente por uma única espécie, todas da mesma idade e dispostas em linhas regulares -, as florestas nativas apresentam árvores de várias espécies e idades, misturadas com arbustos, herbáceas, fungos e animais associados. A sua estrutura é irregular e rica: há árvores jovens e centenárias, madeira morta que alimenta insetos e fungos, húmus que retém água e nutrientes, clareiras naturais que permitem o crescimento de novas plantas e microclimas que regulam a humidade e a propagação do fogo.

W: Como sabemos que estamos perante uma floresta nativa?

Carine Azevedo: Sabemos que estamos perante uma floresta nativa quando encontramos este mosaico de vida, em que a regeneração natural acontece de forma espontânea, com pequenas árvores a nascerem no sub-bosque, sementes dispersas por aves e mamíferos e uma continuidade natural que não depende de cortes, limpezas ou plantação intensiva. É, no fundo, um ecossistema vivo, autorregulado e profundamente enraizado no território, em contraste com as plantações de eucalipto ou pinheiro que, apesar da sua utilidade económica, são muito mais pobres em biodiversidade e vulneráveis a incêndios.

W: Por exemplo, um pinhal é uma floresta nativa? 

Carine Azevedo: Os pinhais, especialmente os de pinheiro-bravo (Pinus pinaster), fazem parte da paisagem, da história e da identidade florestal de Portugal. Muitas plantações foram feitas desde a Idade Média e, de forma mais sistemática, nos séculos XIX e XX, com um papel fundamental na fixação de solos, na proteção das dunas e no fornecimento de madeira à economia nacional. Por isso, embora a maioria dos pinhais não corresponda a florestas nativas em termos de diversidade e estrutura ecológica, têm um enorme valor cultural, económico e ambiental. 

O pinheiro-bravo também ocorre naturalmente em algumas regiões, sobretudo em solos pobres e arenosos, integrando-se em ecossistemas autóctones. Além disso, com uma gestão que promova a regeneração natural, a diversidade de espécies e a criação de diferentes estratos no sub-bosque, os pinhais podem tornar-se mais biodiversos, mais resilientes ao fogo e contribuir para paisagens florestais sustentáveis. 

Em vez de haver uma oposição entre pinhais e florestas nativas, o desafio passa por integrar e gerir ambos de forma complementar, valorizando o seu potencial ecológico e económico.

W: Qual a área que a floresta nativa ocupa no nosso país?

Carine Azevedo: Infelizmente, a área de floresta nativa em Portugal é hoje muito reduzida quando comparada com o território total. De acordo com os dados mais recentes do Global Forest Watch, em 2020 existiam cerca de 1,44 milhões de hectares de floresta natural, o que corresponde a aproximadamente 16% do país. Entre 2020 e 2024 perderam-se cerca de 32 mil hectares, o que equivale a quase nove milhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas para a atmosfera.

No entanto, é importante distinguir entre floresta nativa e floresta natural intocada. Em Portugal praticamente não existem florestas virgens, sem qualquer intervenção humana. O que resta são fragmentos e mosaicos de floresta nativa, em diferentes estados de conservação, muitas vezes misturados com áreas agrícolas ou de plantações. Segundo o 6.º Inventário Florestal Nacional, publicado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas em 2019, a floresta no seu conjunto cobria, à data da publicação, cerca de 3,2 milhões de hectares, mas este número inclui as plantações de pinheiro e eucalipto.

Esquilo-vermelho. Foto: Jakub Hałun/Wiki Commons

Comparando com o resto da União Europeia, Portugal encontra-se abaixo da média em floresta natural intacta, que ronda os 2,4% da área florestal no conjunto europeu. Esta realidade mostra bem a urgência de proteger e restaurar o que ainda resta das nossas florestas nativas. Também é importante salientar que estes dados não refletem os impactos dos incêndios dos últimos anos, que podem ter reduzido ainda mais a área de floresta nativa.

W: A floresta nativa é mais resiliente ao fogo? Porquê?

Carine Azevedo: A maior resiliência das florestas nativas aos incêndios deve-se à sua diversidade biológica e à forma como estão estruturadas. Uma floresta com várias espécies e árvores em diferentes fases de vida não acumula combustível de forma tão homogénea como uma plantação, o que significa que o fogo encontra descontinuidades e acaba por perder intensidade. O sub-bosque denso e a camada de húmus no solo retêm humidade e tornam a propagação das chamas mais lenta. 

Além disso, muitas das espécies autóctones desenvolveram mecanismos de adaptação ao fogo. Por exemplo: o sobreiro e a azinheira possuem casca espessa que protege o tronco, o medronheiro e o castanheiro regeneram rapidamente através de rebentos, e os carvalhos beneficiam da dispersão eficiente de sementes feita por aves e mamíferos.

Pelo contrário, nas monoculturas de eucalipto ou pinheiro, onde todas as árvores têm a mesma idade e altura, a acumulação de material combustível seco é muito maior e mais contínua, o que favorece incêndios intensos e de difícil controlo. Nestes casos, a mortalidade das árvores é elevada e a recuperação natural é lenta e limitada.

Apesar da diversidade das florestas nativas aumentar a sua resistência ao fogo, Portugal continua a enfrentar incêndios graves com frequência. Isto deve-se a vários fatores combinados, como longos períodos de seca, ventos fortes, uso do fogo em atividades agrícolas e abandono de terrenos, que criam grandes quantidades de combustível seco. Por isso, a resiliência natural das florestas deve ser complementada com uma gestão cuidadosa e planeada, de modo a reduzir a frequência e intensidade dos incêndios, protegendo tanto os ecossistemas como as comunidades locais.

W: Pode dar exemplos de florestas nativas especialmente importantes em Portugal?

Carine Azevedo: Em Portugal ainda existem alguns núcleos de floresta nativa bem conservada que nos mostram a riqueza deste património:

A Mata da Margaraça, na Serra do Açor, é um dos melhores exemplos, com carvalhos, castanheiros e amieiros que formam um ecossistema húmido e fértil, capaz de se regenerar de forma natural. 

Mata da Margaraça, Serra do Açor. Foto: RuiCiencia/WikiCommons

A Mata Nacional do Buçaco é outro caso notável, onde espécies autóctones convivem com árvores introduzidas, criando um dos espaços de maior diversidade botânica do país. 

No Alentejo, os sobreirais e azinhais mediterrânicos são fundamentais não só para a biodiversidade, mas também para a prevenção da desertificação, desempenhando um papel essencial na regulação do clima e no sequestro de carbono. 

Nas zonas montanhosas, como a Serra da Estrela, os carvalhais e soutos de castanheiro guardam uma enorme riqueza ecológica e cultural, apesar das ameaças crescentes dos incêndios.

Importa ainda mencionar a Mata Nacional de Leiria, muitas vezes chamada de Pinhal de Leiria. Apesar de ser uma plantação histórica de pinheiro-bravo, desempenhou um papel importante na fixação das dunas e no desenvolvimento do país. Hoje, após o devastador incêndio de 2017, há esforços para restaurar este espaço com recurso a espécies nativas, numa tentativa de o transformar num ecossistema mais resiliente e diverso.

As florestas nativas não são apenas um património natural, mas também cultural e social. O sobreiro, árvore nacional, sustenta a economia da cortiça e mantém vivas comunidades locais; os soutos de castanheiro foram durante séculos fonte de alimento; os carvalhais abrigam uma biodiversidade invisível mas muito importante, feita de fungos, insetos, aves e mamíferos. 

Além disso, estas florestas são habitat de inúmeras espécies animais e contribuem para o bem-estar humano, oferecendo espaços de lazer, turismo e educação ambiental, ao mesmo tempo que prestam serviços fundamentais como: ajudam a regular o clima local, purificam o ar, regulam a água, previnem a erosão, mantêm os solos férteis, armazenam carbono, funcionam como barreiras naturais contra as alterações climáticas Preservar os fragmentos que restam e investir no restauro é urgente, porque defender as florestas nativas é também defender a nossa qualidade de vida e o futuro das próximas gerações.


Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no email [email protected]. E pode segui-la também no Instagram.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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