É, provavelmente, a melhor e a maior mancha de carvalhal do Portugal atlântico, a floresta nativa do noroeste peninsular. A Mata de Albergaria situada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês é um dos maiores tesouros naturais do nosso país.
Este artigo faz parte da nova série da Wilder “Florestas Nativas”. Uma rede de profundos conhecedores das nossas florestas vão mostrar-lhe o quão fascinantes são estes hotspots de biodiversidade.
O carvalho-alvarinho é a espécie dominante. Mas um carvalhal, contrariamente ao que o nome faz supor, não são só carvalhos. Longe disso.


Azevinhos, padreiros, aveleiras, cerejeiras, vidoeiros, salgueiros, freixos, sorveiras, prunos, pilriteiros, medronheiros, loureiros, acompanham-nos numa distribuição bela e harmoniosa como só as manchas florestais selvagens exibem. A faia voltou e naturalizou-se.




Nas próximas semanas irão ganhar notoriedade com a mudança de cor da sua folhagem. O outono é a estação que mais revela a esplendorosa policromia de um bosque nativo maduro como este.
Padreiros, sanguinhos-de-água, freixos, todos ficarão dourados.


Nos redutos onde o fogo não tem chegado há já bastante tempo, é onde a Mata mais impressiona e se distingue, atestando uma biodiversidade que não se mede apenas pelo número das espécies que aí ocorrem. A maneira como se associam e a forma como convivem, merece muita atenção.




Num tempo de fogos devastadores em que se defende, e bem, o regresso das espécies autóctones, importa evidenciar que numa floresta nativa antiga, há arvores a nascer, há árvores jovens, há árvores adultas de pequeno e maior porte, há árvores velhas e muito velhas e há árvores mortas. Todas são importantes, todas cumprem um papel fundamental. Se ocorrem em manchas extensas, também formam bosquetes, raros ou muito densos, juntos ou separados por importantes clareiras que propiciam.
Em Albergaria, compreendemos a complexidade e a cumplicidade que existem entre árvores, arbustos, plantas herbáceas, trepadeiras, musgos e líquenes.


Nesta mata singular, uma mesma espécie pode, num determinado espaço, ser dominante no coberto arbóreo para noutro mais adiante exibir um porte arbustivo, mantendo-se abrigada sob a copa de arvoredo maior. Azevinhos e medronheiros são excelentes exemplos.
Aqui subsistem outras espécies, raras, algumas são verdadeiras relíquias de um passado já distante. Azereiros, teixos e até pinheiros-silvestres, tornam este bosque ainda mais apaixonante.


Outras atestam o valor e o seu estado de conservação. As manchas de gilbardeira são referenciais. Entre as pequenas plantas, fascinam as pinguículas, a anémona-trifólia, o martagão, o hipericão-do-Gerês, o feto-do-Gerês, o trovisco-do-Gerês e os tapetes de uva-do-monte na proximidade das árvores mais antigas, os anciãos de um mundo que neste canto de Portugal devia ser regra mas é exceção.
No chão do bosque reside um tesouro. A manta morta é o que lhe dá mais vida.


A fauna que se abriga em Albergaria confirma a excecionalidade deste reduto. A que se vê facilmente, a que se descobre com calma e alguma sorte, a que se ouve e a que se pressente pelos sinais, mais ou menos discretos, que deixa nas suas deambulações, na luta diária pela sobrevivência, nas marcas com que os protagonistas avisam que o território também é seu.
A presença de raridades como o gato-montês, a marta, a toupeira-de-água, a salamandra-lusitânica é explicada pela riqueza do seu coberto vegetal. Mas não só.
Albergaria estende-se por ambas as margens do troço inicial do rio Homem e expande-se pela base das corgas de onde se despenham os seus afluentes de montanha.


A presença da água que emana das escarpas que a envolvem, explica a existência da Mata. A Mata explica a presença abundante da água. Um ciclo que aqui continua a funcionar e que se perdeu em grande parte do território português. O que por sua vez ajuda a explicar outro ciclo, negro, que nesta crónica, não quero abordar.
Caminhar pela Mata de Albergaria, embrenhando-nos num cenário agigantado pelos fabulosos e dominadores penhascos das serras do Gerês e Amarela, é um privilégio. Conhecê-la, compreendê-la, preservá-la, é um dever.

Se o cumprirmos, fácil será entender que a luta pela defesa da sua replicação noutros cantos do noroeste português, dentro e fora das áreas protegidas, é uma obrigação. E uma causa, que cada vez mais se afigura inevitável.
Miguel Dantas da Gama, membro do Conselho Estratégico do Parque Nacional da Peneda-Gerês
Agora é a sua vez. Conhece alguma floresta ou bosque em Portugal que o inspire? Ponha-o no mapa desta série. Envie o seu testemunho para [email protected]. Ficamos à sua espera.