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Secas e falta de presas levam lince-ibérico a predar crias de aves de rapina

22.10.2026
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Lince-ibérico e milhafre-preto. Fotos: Fabrizio Sergio

Uma interação inédita entre linces e milhafres-pretos foi identificada no Parque Nacional de Doñana, na Andaluzia, por uma equipa de investigadores. O estudo, publicado ontem na revista Nature, revela que, num só ano, morreram quase metade das crias desta ave de rapina.

No Parque Nacional de Doñana, o lince-ibérico (Lynx pardinus) começou a predar as crias de uma ave de rapina, o milhafre-preto (Milvus migrans), ao ponto de, em 2018, ter eliminado quase metade das crias da população na área estudada.

“Não se trata de uma mudança de comportamento arbitrária: a escassez das suas presas habituais e a seca levaram esta espécie protegida a procurar novas fontes de alimento”, explicam os investigadores do Conselho Superior Espanhol de Investigações Científicas (CSIC) em comunicado. “Este nível de predação não tem precedentes nas três décadas em que os investigadores estudaram ambas as espécies numa área de 10 quilómetros quadrados do Parque Nacional. Até então, tinham coexistido, alimentando-se de coelhos.”

Isto é o que revela um novo estudo da Estação Biológica de Doñana (EBD), do CSIC, publicado na revista Nature, que analisa 1624 ninhos de milhafre entre 1993 e 2023. “Entre 1993 e 2012, os linces tinham predado apenas cerca de 1% dos ninhos de milhafre”, salientou Fabrizio Sergio, investigador da EBD-CSIC e primeiro autor do estudo.

Segundo a equipa científica, este conflito repentino entre os dois predadores resulta da combinação de dois fenómenos. Por um lado, a propagação de uma doença infeciosa provocou o colapso das populações de coelho-bravo em Doñana. Por outro, os longos períodos de seca limitaram a disponibilidade de presas alternativas para o lince, como os patos que vivem nos sapais.

Uma nova relação entre linces e milhafres

Historicamente, os coelhos-bravos eram abundantes em Doñana e tanto os linces como os milhafres coexistiram pacificamente durante décadas. Mas desde que a doença hemorrágica do coelho causou o declínio da sua população, em 2013, os linces começaram a predar intensamente as crias de milhafre-preto, embora só em períodos de falta de água.

“Durante os anos de seca, as principais presas alternativas do lince, como os patos, também são muito escassas, e os linces veem-se obrigados a alimentar-se de tudo o que encontram, mesmo quando isso implica trepar 12 metros para alcançar um ninho de milhafre e predar as crias”, acrescentou Fabrizio Sergio.

Além disso, a equipa observou que os linces predavam com maior frequência os ninhos de milhafre sob os quais se encontravam restos de coelho, o que aponta para uma possível motivação adicional: eliminar concorrentes.

“Em termos humanos, poderíamos dizer que os milhafres que se atreviam a tirar o alimento aos linces acabavam por pagar um preço muito elevado”, afirmou Sergio. “Os linces foram capazes de eliminar quase metade do total de crias de milhafre que chegaram a voar.”

Em resposta, os milhafres adultos cujos ninhos tinham sido alvo de predação por linces apresentaram maior probabilidade de mudar de território e migrar para outros locais. Esta resposta sugere uma espécie de confronto entre as duas espécies: o lince elimina um concorrente pelo alimento, enquanto o milhafre tenta escapar-lhe mudando de território.

A alteração desta relação entre predadores teve também consequências para outras espécies, lembram os investigadores. Por exemplo, a diminuição dos milhafres beneficiou uma pequena coruja insetívora, o mocho-galego (Athene noctua), que é predado por estas aves de rapina e cuja população aumentou.

A combinação de ameaças e os efeitos em cascata

Os autores deste estudo alertam que as alterações climáticas estão a modificar as interações entre espécies e, quando combinadas com outras ameaças, podem desencadear consequências inesperadas e amplificar os seus efeitos. “Estes efeitos em cascata, que podem desenvolver-se silenciosamente ao longo de anos, demonstram a necessidade de abordar em conjunto as diferentes pressões que afetam os ecossistemas, uma vez que umas podem amplificar o impacto das outras”, comentou Fabrizio Sergio.

Além disso, devido à sua posição e influência na cadeia alimentar, os superpredadores podem amplificar os efeitos das alterações globais sobre outras espécies. Em Doñana, a sua conservação exige, segundo a equipa científica, a recuperação das populações de coelho-bravo e a garantia de um regime de inundação adequado nos sapais do Guadalquivir, de modo a manter a disponibilidade de presas e a reduzir a vulnerabilidade destas espécies à seca.

Apesar de tudo, as espécies estudadas mostraram ter estratégias de resiliência para enfrentar as alterações climáticas. Os linces modificaram os seus hábitos alimentares, os milhafres responderam à predação deslocando-se para outros territórios e os mochos-galegos ocuparam o espaço deixado pelos milhafres. “Estas respostas demonstram que a fauna pode apresentar alguma capacidade de adaptação a novas condições”, segundo os autores.

Estes lembram que “a deteção desta interação inédita”, que teria sido difícil de detectar através de estudos pontuais, “foi possível graças ao acompanhamento científico de longo prazo realizado em Doñana”.

“Sem décadas de trabalho por parte dos investigadores, teria sido impossível identificar esta interação. Cada vez há menos apoio a este tipo de estudos de longo prazo, o que acabará por enfraquecer seriamente o progresso científico nesta área”, alertou Fabrizio Sergio.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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