A população mundial de priolo (Pyrrhula murina) mantém-se estável, com cerca de 1000 indivíduos, segundo os resultados do Atlas do Priolo 2026, revelados esta semana.
O priolo é uma ave rechonchuda com 30 gramas e 16 centímetros de comprimento. Em todo o mundo só podemos encontrar priolos na floresta sempre verde da ilha de São Miguel, nos Açores. Mais concretamente, num cantinho montanhoso nos concelhos do Nordeste e da Povoação. Nos anos 1990 restavam menos de 400 aves e eram grandes os receios de que espécie se pudesse extinguir.
Mas duas décadas de trabalho de conservação, incluindo a recuperação da floresta Laurissilva, permitiram inverter esse cenário.
O mais recente censo à espécie, realizado em junho passado, permitiu concluir que a sua população se tem mantido estável nos 1000 indivíduos.
Mais de 70 voluntários e técnicos da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA-BirdLife) percorreram toda a área de distribuição da espécie, registando as aves em cerca de 300 pontos de contagem em simultâneo. Vindos de nove países, os voluntários receberam formação especializada para garantir a qualidade dos dados recolhidos.
“A participação dos voluntários é fundamental para conseguirmos monitorizar toda a população numa única manhã”, comentou, em comunicado, Tarso Costa, técnico da SPEA-BirdLife e coordenador do V Atlas do Priolo. “O seu empenho permite-nos recolher dados essenciais para acompanhar a evolução do priolo e orientar o nosso trabalho de conservação.”
Realizado a cada quatro anos, o Atlas permite acompanhar a população de priolo e a sua distribuição geográfica ao longo do tempo. Os resultados confirmam, por exemplo, a presença regular de priolos em Trilhos Novos, uma zona onde a Laurissilva foi restaurada em 2004, no âmbito do projeto LIFE Priolo coordenado pela SPEA-BirdLife. Atualmente, a SPEA-BirdLife continua a desenvolver ações de conservação nesta área, através do projeto LIFE IP Azores Natura, coordenado pelo Governo Regional, para preservar as condições favoráveis à espécie.
A monitorização da distribuição é essencial, uma vez que a perda de habitat é uma das principais ameaças ao priolo. “Nós sabemos que a ameaça ao habitat é a ameaça principal para esta espécie. Então se virmos que ela está perdendo área, isso será preocupante”, explicou Tarso Costa.
Embora o Atlas permita obter um retrato abrangente da população, a monitorização do priolo não se limita à semana de contagem. A SPEA utiliza também métodos complementares, como monitorizações anuais e gravadores de áudio que permitem detetar a presença das aves de forma automatizada ao longo do ano. Na edição de 2026, os voluntários do Atlas do Priolo ajudaram ainda a instalar estes equipamentos, contribuindo para dar continuidade à recolha de dados depois de regressarem a casa.
“Salvámos o priolo da extinção, mas o trabalho não terminou,” sublinhou Tarso Costa. “Continuar a proteger a Laurissilva e a monitorizar esta ave única é essencial para garantir o seu futuro, que é importante para as pessoas que aqui vivem.”
A conservação do priolo tem também benefícios para as comunidades locais. Segundo a SPEA/Birdlife, nas Terras do Priolo, o trabalho desenvolvido contribuiu para dinamizar a economia, promover o turismo sustentável e valorizar a floresta nativa, mostrando que a conservação da natureza pode ser uma oportunidade para melhorar o bem-estar das pessoas.
Este ano foi publicado o primeiro genoma de referência da espécie, o que permitirá reconstruir a sua história evolutiva, medir a perda de diversidade genética e orientar futuras medidas de conservação.
Saiba aqui onde e quando ver priolos em Portugal.