O PACLIP 2026-2030, publicado hoje em Diário da República, aposta no reforço e expansão das populações, mas também na melhor monitorização, na redução dos atropelamentos e na recuperação do coelho-bravo. Prevê ainda um regime de compensação por danos associados ao lince-ibérico.
O novo Plano de Ação para a Conservação do Lince-ibérico (PACLIP) 2026-2030 foi hoje publicado em Diário da República, , através do Despacho n.º 12830/2026, com uma dotação de um milhão de euros por ano para reforçar as populações da espécie, que já esteve virtualmente extinta em Portugal. Ao todo, são cinco milhões de euros até 2030.

Do total anual, 650 mil euros vêm do Fundo Ambiental e 350 mil do protocolo de cooperação entre a empresa Águas do Algarve e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), destinados à componente ex situ (criação em cativeiro).
O Plano substitui o anterior, que vigorou entre 2015 e 2020. Segundo o Ministério do Ambiente e Energia, o PACLIP 2026-2030 “estabelece uma nova fase na conservação do lince-ibérico, centrada na consolidação das populações existentes, na melhoria e expansão dos habitats favoráveis e na criação de condições para que a espécie continue a recuperar em território nacional”.
Entre as principais medidas, a tutela destaca o reforço da monitorização, a redução dos fatores de mortalidade (sobretudo os atropelamentos), a recuperação das populações de coelho-bravo, a principal presa do lince, e a melhoria da conectividade ecológica entre territórios.
A execução do Plano é coordenada pelo ICNF, em articulação com entidades científicas, organizações ambientais, proprietários rurais e representantes dos setores agrícola e cinegético.
Uma das novidades é que o ICNF deverá apresentar até ao final de 2026 uma proposta de regime de apoio e de compensação por danos associados à presença do lince. O objetivo é “prevenir conflitos com proprietários, agricultores e criadores de gado e promover uma maior aceitação da espécie nos territórios onde ocorre”. A criação de mecanismos legais para esta compensação é uma das prioridades altas do Plano.
De “virtualmente extinto” a 324 linces em Portugal em 2025
Há mais de 20 anos que Portugal e Espanha tentam trazer o lince-ibérico (Lynx pardinus) do limiar da extinção. No início do século, a espécie foi dada como “virtualmente extinta” em Portugal.

Em 1996, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) considerou-o um dos felinos mais ameaçados do planeta. Em 2024, passou de Em Perigo para Vulnerável na Lista Vermelha da UICN. Em 2025, a população ibérica era de 1711 linces adultos e subadultos e 952 crias; o número para Portugal era de, pelo menos, 324 linces no país, segundo o Ministério do Ambiente e Energia.
“A recuperação do lince-ibérico é um dos melhores exemplos de que é possível inverter a perda de biodiversidade”, afirmou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em comunicado. “Uma espécie que desapareceu do nosso território está hoje a recuperar graças ao conhecimento científico, à cooperação e à continuidade do investimento. Queremos consolidar este sucesso e demonstrar que o mesmo caminho pode ser seguido na recuperação de outros ecossistemas e espécies ameaçadas.”
Os grandes objetivos até 2030
O Plano quer assegurar que as áreas de presença estável do lince têm algum tipo de proteção legal e que todas as áreas com presença atual ou histórica têm um plano de recuperação e pelo menos um mecanismo de apoio financeiro.
Até ao final de 2027, deverão ser elaborados protocolos de monitorização, incluindo a monitorização genética de cada núcleo populacional, em parceria com instituições de investigação. Pretende-se também uma amostragem anual das populações, nos planos demográfico (com foto-armadilhagem e rádio-seguimento), sanitário e genético, tanto na natureza como em cativeiro. Será testado, por exemplo, um sistema de rádio-seguimento VHF com aeronaves não tripuladas.
Quanto à melhoria do habitat para esta espécie, o Plano quer ter disponível até ao final de 2027 um protocolo de boas práticas de gestão de olivais, pomares e outras culturas permanentes. Antes, até ao final de 2026, deverá ser apresentado um relatório de avaliação das regiões Centro e de Lisboa e Vale do Tejo e da Serra da Malcata como potenciais locais de presença e reprodução do lince. O Plano quer ainda garantir uma densidade de coelho-bravo suficiente para um estado de conservação favorável da espécie.

Até 2030, o Plano quer criar e manter a ligação entre a população portuguesa e pelo menos duas populações espanholas, para favorecer a variabilidade genética. Quanto às reintroduções, pretende contribuir para a criação de oito novos núcleos populacionais na Península Ibérica, com a identificação e eventual estabelecimento de uma nova área de reintrodução em Portugal até ao final de 2028.
No capítulo da redução da mortalidade, o objetivo é que a taxa anual de mortalidade por atropelamento se mantenha abaixo dos 15%, com medidas corretoras nas vias já identificadas como problemáticas. As equipas vão também combater a perseguição ilegal (caça, armadilhagem e venenos), promover a colaboração com as populações locais e reduzir o risco de mortalidade em lagoas, poços de acumulação de água e vedações perigosas.
O programa de reprodução em cativeiro, mais concretamente no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) em Silves, continua a ser considerado crucial, porque “fornece indivíduos saudáveis para auxiliar na recuperação da espécie na natureza e ao mesmo tempo mantém uma reserva de exemplares como precaução contra uma possível extinção”. Prevê-se a libertação anual de 5 a 10 linces nascidos em cativeiro.

Parte do Plano é dedicado à melhoria do conhecimento científico sobre este felino. As prioridades incluem o estudo dos impactos ecológicos da reintrodução, dos potenciais efeitos das alterações climáticas e da dinâmica populacional e ecologia espacial das populações. Para impulsionar os trabalhos, até ao final de 2028, deverá ser criado um financiamento específico para o lince-ibérico no âmbito da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).