A Wilder foi acompanhar uma ação do projeto LIFE Predator, dedicado ao estudo e controlo do maior peixe predador que anda hoje pelo Tejo, que terminou com capturas muito acima do esperado. Fique a saber o que aconteceu.
“O predador.” É assim que André Lopes se refere a este peixe invasor que foi avistado pela primeira vez no Tejo em 2006, anos depois de ter sido introduzido no lado espanhol devido ao interesse que tinha para a pesca desportiva. Antes da chegada do siluro, diz, o rio era outro.
A alcunha assenta bem ao maior peixe de água doce da Europa, nativo dos lagos da Chéquia e de outros países próximos, que pode ultrapassar dois metros de comprimento e anda a devorar peixes no Tejo. E não se fica pelas presas mais pequenas: por vezes, um siluro dos grandes lá engole mais um pombo ou pato selvagem que dele se abeirou distraído.

A meio de uma manhã quente de finais de maio, estamos na zona da barragem de Belver, distrito de Santarém, a acompanhar uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente), no âmbito do projeto internacional LIFE Predator (2022-2028). O terreno junto à praia fluvial da Ortiga, próxima da barragem, é o centro de uma operação bem montada que soma cerca de 70 pessoas, e que para uma pequena parte começou já no dia anterior. Além dos cientistas, estão envolvidos meia dezena de pescadores profissionais de água doce, e também bombeiros, representantes de autarquias, agentes da Polícia Marítima e da GNR, e dezenas de técnicos e vigilantes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
O objetivo é capturar o maior número possível de siluros, recorrendo principalmente a redes de pesca profissional – quase 40 no total – mas também a pesca elétrica e palangre. Desta forma, os investigadores querem avaliar como está a evoluir a espécie nesta parte do Tejo, a meia centena de quilómetros da fronteira espanhola, e comparar quais são as técnicas de captura mais eficazes.

Apesar da experiência acumulada nas monitorizações que aqui se realizam desde 2016, os resultados desta operação, revelados entretanto, surpreenderam os cientistas ligados ao projeto: foram apanhados em Belver 254 siluros com um peso total estimado de cerca de 2,3 toneladas, ou seja, mais do triplo que os 700 quilos que a equipa previa obter, segundo Filipe Ribeiro, professor e investigador na FCUL e no MARE. A maior parte desses peixes foram capturados pelas redes dos pescadores profissionais envolvidos nesta ação, colocadas nas águas do rio desde a tarde do dia anterior.
Mas apesar da surpresa, essa é apenas uma pequena parte do que anda escondido no Tejo. As contas entretanto feitas pelos investigadores, a partir dos dados obtidos em Belver, indicam que haverá uma densidade de quase 300 siluros por quilómetro quadrado na zona desta albufeira situada no concelho de Mação. Mais. A mesma equipa estima que haverá cerca de um milhão de siluros nas albufeiras de Belver e Fratel e no Tejo Internacional.
No meio do rio
Ao longo da manhã, muito antes de se contarem os números finais, o pequeno ancoradouro da Ortiga é palco de uma atividade intensa. Quase não há descanso, à medida que são descarregados mais siluros provenientes das redes que estão a ser recolhidas por três embarcações de pesca, numa extensão total de 4,5 quilómetros de rio. É preciso pesar e medir muitos dos peixes e apontar os quilos, avaliar a frescura de cada um e decidir o seu destino. Uma parte serão doados a populares para alimentação, ou transformados em conservas de peixe de rio, mas a maioria vai ser utilizado como isco, nas armadilhas para o lagostim.

Dentro de uma das embarcações, André e Rosita, também ela pescadora de água doce, andam a recolher as duas dezenas de redes que tinham armado na véspera, ao longo do rio. A cada paragem do motor, debruçam-se na proa e puxam mais uma rede a quatro mãos, que traz presos ao nylon esverdeado mais peixes de pele escura e brilhante, olhos pequenos e boca grande. A par dos siluros apanham também algumas carpas, uma espécie igualmente invasora mas menos agressiva.
Grande ou pequeno, cada siluro retirado das redes é medido a fita métrica por dois vigilantes da natureza do ICNF, que nesta manhã seguem no mesmo barco, e depois colocado numa das caixas de plástico que cobrem o chão. Aqui, é ponto assente que nenhum peixe invasor vai regressar ao rio.
O comprimento de cada exemplar é também apontado por uma bióloga que passa a manhã dentro do barco, Tatiana Catarrinho, para mais tarde se fazerem as contas à captura total. Alguns dos siluros destacam-se, com mais de um metro de comprimento. Ainda assim, devido ao tamanho das malhas das redes que André e Rosita estão a testar, os dois já desconfiam que não será o seu barco a apanhar os siluros maiores.

De facto, o maior siluro que será trazido para terra nesta manhã, por uma outra embarcação, mede quase o dobro daqueles, com 2,15 metros de comprimento e mais de 100 quilos, quase a bater o recorde de 2,33 metros registado até agora em Portugal.
Demasiado pequenos para as redes
A pesca desta manhã em Belver não capturou peixes nativos, mas isso não significa que tenham todos desaparecido desta parte do rio – pelo menos por enquanto. A ausência deve-se ao tamanho das malhas das redes escolhidas para esta operação: por serem destinadas ao siluro, e por isso com buracos maiores, esses pequenos peixes passam facilmente entre os fios de nylon.
Ainda assim, os pescadores lamentam que várias das espécies que antes eram muito comuns estejam a escassear cada vez mais. “Agora ponho 10 redes e apanhamos três barbos. Dantes, há uns 20 anos, punha 10 redes e apanhava 100 ou 200 quilos de barbos”, compara André Lopes, enquanto avançamos de barco a motor pelas águas da albufeira. Aqui, fica um dos troços do Tejo português onde a presença do siluro é mais intensa.
À força de conviver há tanto tempo com estes peixes invasores, André já lhes conhece bem as manhas. “Nesta fase do ano é a altura da desova do barbo, eles vão atrás deles. Vão-se concentrar na zona de desova e vão atacá-los. Os barbos desovam nas zonas mais baixas do rio e por vezes não podemos lá chegar porque somos impedidos pela lei, e não acho mal, mas o predador chega lá”, comenta preocupado.

Carlos Serras, sócio de André e Rosita, aponta o dedo também ao lucioperca, outra espécie invasora presente no Tejo, introduzida em várias barragens portuguesas entre os finais da década de 1990 e os primeiros anos deste século.
Devido ao lucioperca e ao siluro, os barbos, que há 20 anos “havia às carradas”, quase desapareceram das redes; as bogas, “que antes eram uma coisa louca, praticamente já não há”; as enguias, “também diminuímos”; quanto às lampreias, “nos últimos dois anos praticamente não houve”, enumera Carlos Serras, que admite que as cheias de fevereiro ajudaram essa última espécie, mas não se apanhou “nada de especial”.
Além das bogas, barbos, lampreias e enguias-europeias, também os sáveis, robalos, tainhas, ou mesmo os corvos-marinhos-de-faces-brancas, são outros habitantes do Tejo consumidos pelo siluro, concluiu um estudo científico liderado por investigadores do MARE e da FCUL, publicado em agosto de 2025, que identificou 34 espécies-presa diferentes que são predadas por esta espécie invasora e generalista.
Apesar de tudo, por enquanto vai dando para se fazer vida com a pesca no Tejo – em parte graças à captura e venda de outro invasor, o lagostim-vermelho-do-lousiana, e em parte porque estes profissionais não se limitam apenas a esta bacia hidrográfica.
Nas águas salobras
É ponto assente que não vai ser possível eliminar o siluro do Tejo, mas há que continuar a retirar a maior quantidade possível destes peixes ao rio, travando a sua expansão, sublinham investigadores e pescadores profissionais de água doce.
Um dos receios que têm são relativos a alguns dos pescadores desportivos que aqui pescam, que consideram o siluro um peixe troféu devido ao seu tamanho gigantesco – o que até poderia atrair turistas ligados a esta modalidade – mas que podem ser tentados a levar a espécie para outras bacias hidrográficas. Sabe-se, por exemplo, que o siluro está presente também no Douro desde há vários anos, tendo sido introduzido no lado espanhol.
Outro problema é que alguns pescadores desportivos insistem em manter os siluros vivos e devolvê-los ao Tejo depois de os pescarem, apesar de isso ser proibido em Portugal em relação a esse e a outros peixes invasores.

Entretanto, vinte anos depois dos primeiros avistamentos, há suspeitas de que o siluro já estará a chegar às águas salobras do estuário, ainda para mais porque estudos recentes indicam que terá mais resistência à salinidade da água do que se pensava. Entre os presentes na praia da Ortiga, aliás, comenta-se que já terá sido observado um siluro debaixo da ponte de Vila Franca de Xira, embora não exista ainda qualquer confirmação científica.
“Isto vai-se dissipar pelo Tejo abaixo que é uma coisa de loucos. Vai acabar tudo, o rio vai ficar cheio disto, vai ter grandes problemas lá em baixo com esta praga”, avisa Carlos Serras, pessimista face ao que tem visto acontecer nestes últimos anos. “As fataças, as enguias, todo aquele peixe de arribação, vão comer muitos. Quando entrarem naquelas águas, não saem de lá”, sublinha.
Vai uma caldeirada?
O aumento cada vez maior do número de siluros, que ainda para mais têm uma forte capacidade de reprodução, afeta também a gastronomia local. Iguarias como as sopas de barbo, que fazem parte da cultura de concelhos como Mação, Constância e Vila Velha de Ródão, muito ligados ao Tejo, podem ter os dias contados, lamentam os pescadores profissionais, preocupados com os impactos da diminuição desse e de outros peixes nativos.
Em contrapartida, um dos grandes culpados pela situação pode transformar-se numa oportunidade de negócio, desde que as aparências não o impeçam. “Como é um peixe feio, as pessoas ficam logo a achar que sabe mal, sem sequer provarem, mas na verdade faz lembrar o tamboril, é muito versátil”, garante Carlos Serras. A procura atual é ainda muito reduzida, mas poderia aumentar com a introdução da espécie em escolas e cantinas, incentivando assim os pescadores a tirarem mais deste peixe ao rio e a controlar o seu avanço, defende.
Na região, aliás, já estão a ser feitas experiências gastronómicas, como é o caso das conservas artesanais Bem Amanhado e do restaurante Ó Balcão, localizado em Santarém, que aproveitam esta e outras espécies invasoras para inovarem nas receitas de peixe do rio.
Chegada a hora do almoço, está na altura de um pequeno teste: a oferta de caldeirada de siluro a todos os que participaram nesta saída, confecionada pelo restaurante O Castelo (Belver), outra casa local que trabalha com esta espécie. Sabe bem e come-se bem, apesar do calor.
Nota: às 12h do dia 6 de junho, foi acrescentado ao texto o destino dos siluros pescados.
Às 14h de 17 de junho, foi acrescentada a identificação do restaurante que confecionou a caldeirada de siluro, oferecida no final do evento.