O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) terá mostrado abertura para a realização de uma reunião de trabalho com a equipa técnica do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI). O encontro deverá acontecer esta quinta-feira, 21 de maio.
À Wilder, o actual coordenador técnico e diretor científico do centro, Rodrigo Serra, adiantou que “existiu abertura por parte do ICNF para a realização de uma reunião de trabalho” que deverá realizar-se esta quinta-feira, dia 21 de maio.
O responsável valoriza a iniciativa “para discutir uma transição responsável e devidamente estruturada”, que terá acontecido na sequência da posição manifestada pela ministra do Ambiente e da Energia. Maria da Graça Carvalho terá remetido ontem ao conselho diretivo do ICNF um despacho interno urgente a recomendar que se tenha em atenção o bem maior dos linces-ibéricos, independente de qualquer transição.
Ainda assim, mostra-se cauteloso. “Vamos aguardar. Neste momento não há nada de concreto nem foi feita qualquer proposta” sobre o futuro operacional do Centro ou da atual equipa técnico-científica.
Em comunicado enviado à Wilder, a equipa técnica do CNRLI salienta que o Centro “é uma estrutura altamente especializada, com procedimentos críticos permanentes nas áreas de reprodução, biossegurança, videovigilância, maneio sanitário e resposta a emergências, cujo funcionamento contínuo assenta em conhecimento técnico acumulado ao longo de muitos anos”.
E recorda também que, “além da salvaguarda do bem-estar animal e da estabilidade operacional do Centro, existe igualmente uma equipa de 14 profissionais altamente especializados, muitos deles dedicados há mais de uma década ao programa de conservação do lince-ibérico, cujas condições de transição laboral devem ser tratadas com responsabilidade, legalidade e respeito humano, técnico e profissional”.
“Mantemo-nos disponíveis para colaborar de forma séria e construtiva, sempre com o foco na salvaguarda do bem-estar dos animais, da estabilidade operacional do Centro e dos direitos dos profissionais envolvidos.”
Até ver, o processo de internalização do CNRLI no ICNF parece continuar. A 11 de maio, o ICNF disse à Wilder que a ideia era enviar a nova coordenadora do programa ex-situ e médica veterinária, Alexandra Pereira, para o Centro cerca de uma semana antes da transição, “para que a transição seja suave, para ela entrar nos processos.”
Segundo Rodrigo Serra, a técnica do ICNF e três vigilantes da natureza estiveram no CNRLI na manhã de dia 18 de maio. “Estiveram sentados na mesa da sala de reuniões até à hora de almoço, saíram e nunca mais voltaram”, contou.
A ausência de uma planificação da transição é uma das maiores críticas a este processo. Anteriormente, Rodrigo Serra tinha referido que a sua equipa nunca recebeu qualquer comunicação formal nem detalhes sobre as alterações. “Nunca fomos informados formalmente”, afirma. Segundo Rodrigo Serra, houve apenas “uma reunião informal no ICNF no fim de fevereiro”, onde foi apresentada “uma intenção de fazer uma internalização”. “Desde aí nunca recebemos qualquer contacto formal do ICNF para tratar dessa transição”, acrescenta.
Desde que a Wilder tornou pública a intenção do ICNF em colocar em técnicos seus a gestão diária do Centro, têm sido várias as vozes que mostram grande preocupação em relação ao bem-estar dos linces que vivem em Silves e ao futuro deste programa de conservação.
Três grupos parlamentares – Livre, Bloco de Esquerda e PAN – já enviaram perguntas à ministra do Ambiente e da Energia e as organizações não governamentais Liga para a Protecção da Natureza (LPN), WWF Portugal, FAPAS, Quercus e SOS Animal vieram a público manifestar a sua preocupação.
Além disso, está a decorrer uma petição pública que reúne, até hoje, 4805 assinaturas.
Dado que este é um programa ibérico, como a especialista em lince-ibérico Astrid Vargas relembrou à Wilder, o Governo espanhol pediu há mais de um mês uma reunião ao ICNF sobre o programa ex-situ mas ficou sem resposta.
Além disso, o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha (MITECO) revelou hoje à Wilder que o tema da anunciada transição “não foi tratado nem comunicado até ao momento” nos órgãos de cooperação administrativa entre Portugal e Espanha dedicados ao lince-ibérico.
O programa de conservação ex-situ desta espécie funciona a nível ibérico e todas as decisões relativas aos quatro centros que fazem a reprodução de lince-ibérico são decididas em conjunto, entre Portugal e Espanha. Entre essas decisões estão a troca de linces entre centros, para garantir a maior variabilidade genética na população, qual o número de linces e quais se irão reproduzir em cada temporada, e ainda a escolha dos animais que se vão reintroduzir na natureza e em que locais isso será feito.
Esta colaboração ibérica foi formalizada há quase 20 anos, com o acordo de cedência de linces firmado entre Espanha a Portugal, em 2008.
“Não foi recebida comunicação formal por parte do ICNF relativamente às questões refletidas no vosso meio de comunicação”, refere o ministério espanhol.