Qualquer alteração ao funcionamento do Centro Nacional de Reprodução de Lince-ibérico (CNRLI) deve ter em conta o bem maior dos animais que lá vivem, recomenda Maria da Graça Carvalho, num despacho a enviar nesta terça-feira ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
A Wilder confirmou esta tarde junto do gabinete da ministra do Ambiente e da Energia a informação inicialmente avançada pelo jornal Expresso.
O despacho interno deverá ser enviado ainda esta terça-feira, dia 19 de maio, ao conselho diretivo do ICNF, autoridade nacional para a conservação da natureza, avançou à Wilder o gabinete da ministra.
A 13 de maio, em declarações aos jornalistas à margem de uma iniciativa para reposição de areias nas praias da Costa da Caparica, a ministra disse, citada pela agência Lusa, que “o ICNF tem autonomia e eu respeito muito, num regime democrático, as autonomias das instituições”. Maria da Graça Carvalho acrescentou na altura que a internalização é uma questão interna daquele Instituto, na qual não interferiu.
Passada uma semana, o gabinete da ministra explica que Maria da Graça Carvalho tem hoje mais informação sobre o processo e sobre as suas implicações. Por isso, recomenda ao ICNF, no despacho, uma atenção especial ao bem-estar dos linces-ibéricos do Centro de Silves e que tenham isso em conta.
Foi a 11 de maio que o ICNF avançou à Wilder que iria internalizar o CNRLI e formar uma nova equipa para gerir tecnicamente o Centro. A nova coordenadora será Alexandra Maria Silveira Pinto Pereira, médica veterinária especializada em bem-estar de animais de companhia e atual técnica superior do Departamento de Conservação da Natureza e Biodiversidade do ICNF.
O contrato com a equipa atual cessa a 31 de maio. Em entrevista à Wilder, o actual coordenador técnico e diretor científico do centro, Rodrigo Serra, diz que “reconhece que o Estado tem todo o direito de definir o modelo de gestão”, mas “o problema é que não há uma transição técnica nem legal nem segura.”
Foram várias as vozes que já se mostraram preocupadas com a falta de preparação desta transição, tendo em conta a especificidade técnica do trabalho no CNRLI. Uma delas foi Astrid Vargas, veterinária que revolucionou a conservação ao conseguir reproduzir linces-ibéricos em cativeiro pela primeira vez e coordenadora espanhola do Programa de Reprodução do lince-ibérico em cativeiro, entre 2003 e 2010.
“Não faz nenhum sentido. Fiquei em choque. Isto é algo que deve acontecer fruto de um processo de sucessão cuidado, feito com tempo, construído paulatinamente, não numa semana”, contou em entrevista telefónica à Wilder. “Devia ser uma transferência gradual de equipas, com um plano tornado público de como isso aconteceria”.
Pelo menos três grupos parlamentares já enviaram à ministra pedidos de esclarecimento quanto ao futuro do CNRLI, nomeadamente o Livre, o Bloco de Esquerda e o PAN – Partido Pessoas – Animais – Natureza.
Desde há uma semana que decorre uma petição pública, lançada pela associação SOS Animal, para pedir a “salvaguarda da continuidade técnica, científica e humana deste projeto de conservação de importância nacional e europeia”. A 19 de maio reunia mais de 4500 assinaturas.