Sónia Ferreira – entomóloga, investigadora do CIBIO-InBIO e coordenadora do projecto Polinizadores de Portugal – considera que o novo “Polinizadores em Ação” ― Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal é “um ponto de viragem” na Entomologia nacional. Um dos maiores desafios é resolver a falta de pessoas que consigam identificar as largas centenas de espécies que vivem no nosso país.
WILDER: O que vai mudar com este Plano de Ação?
Sónia Ferreira: Diria que, potencialmente, muda tudo. Na verdade, considero que este Plano de Ação é um ponto de viragem brutal na Entomologia e, até na Biologia, em Portugal, em termos de conservação. É mesmo algo extraordinário, sem dúvida. Há muitos motivos para celebrar. É um excelente ponto de partida para trabalharmos na promoção, monitorização e conservação dos polinizadores de Portugal. Efectivamente, não somos pioneiros relativamente a fazer planos – mas desta vez arrumámos muito bem a casa. Temos as prioridades muito bem identificadas. Este Plano de Ação é fruto de um trabalho aprofundado, cuidado, com a participação de muitas instituições. Foi um trabalho colaborativo extraordinário. Raras vezes temos a oportunidade de começar a trabalhar assim. A Entomologia em Portugal não é uma área muito desenvolvida, apesar de se ter vindo a desenvolver muito nos últimos anos. O próprio Plano de Ação reflecte a falta, por exemplo, de recursos humanos capazes, treinados. Temos, realmente, que aumentar o número de pessoas com capacitação para fazer uma série de tarefas para implementar este Plano de Ação, para reforçar os sistemas de monitorização que já temos.
W: A situação dos polinizadores em Portugal é mesmo preocupante, como acontece noutros países da Europa, por exemplo?
Sónia Ferreira: A situação dos polinizadores em Portugal preocupa-me especialmente porque sabemos muito pouco. Do ponto de vista científico, é muito difícil dizer que temos perdas tão grandes, maiores ou menores que outros locais simplesmente porque não temos dados que o permitam saber. Quando olhamos para os nossos jardins, urbanos ou em zonas mais rurais, temos claramente a percepção de que há menos animais. Mas, com rigor, é muito difícil dizê-lo. É extraordinário que este Plano de Ação possibilite passarmos a recolher dados de forma sistemática, são eles que nos vão permitir responder a essa questão com muito mais rigor.
W: A aposta na monitorização é, então, um dos pontos que destaca neste Plano de Ação?
Sónia Ferreira: Sim, o início de uma monitorização constante, o reforço da capacitação humana e das ferramentas que temos, nomeadamente moleculares, para monitorizar. Para conseguirmos monitorizar temos que saber quem são os polinizadores. Em Portugal, a biodiversidade destes animais é extraordinária à escala europeia mas também é extraordinário o desconhecimento que temos sobre eles. Já fizemos avanços muito consideráveis nos últimos cinco anos. Temos algumas ações que já estão a ser implementadas por algumas instituições, nomeadamente a Rede de Estações de Borboletas Noturnas e o Tagis com a rede de monitorização de borboletas diurnas. Mas é preciso continuar a trabalhar. É essencial continuar o trabalho taxonómico – ou seja, conhecer que polinizadores existem em Portugal – e desenvolver ferramentas como os códigos de barras de ADN. Era bom conseguir que estivessem todos, ou quase todos, nas bases de dados. Isso permite depois utilizar métodos de monitorização sistemática e aliviar a pressão de quadros altamente qualificados na identificação. Monitorizar em todo o país implicaria um esforço humano de identificação muito elevado e podemos usar a mais-valia dos métodos moleculares.
W: Quais os maiores desafios à implementação deste Plano de Ação?
Sónia Ferreira: Um desafio muito grande é a falta de recursos humanos. Conhecer os polinizadores e trabalhar em Entomologia exige uma formação relativamente longa e é preciso ter quem ensine. No passado houve alturas em que não tínhamos pessoas e não havia saídas profissionais. Por isso, hoje temos um Plano de Ação muito bem organizado, mas com um número muito reduzido de pessoas com competências para o implementar. Vai ser um desafio formar pessoas rapidamente e perceber como agilizar processos, mas ainda assim acho que será algo verdadeiramente atingível. Além disso, vai implicar esforços muito grandes de comunicação e de divulgação porque envolve muitas entidades e envolve todo o país. A questão dos polinizadores não é só relevante numa região, é em todo o país. Isso implica uma grande capacidade de comunicação e de transferência de conhecimentos entre instituições, entre regiões e é aí que temos muito trabalho a fazer. Vamos precisar de pessoas. Ainda assim, o assunto dos polinizadores não é totalmente novo para a sociedade. A sua importância e valor estão reconhecidos.
Saiba aqui mais sobre o Plano de Ação publicado a 31 de março em Diário da República.