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Neste Censo dos Grous, contaram-se menos aves em Portugal

19.02.2026
leitura de 4 minutos
Foto: Henrique Velez

A Wilder falou com Carlos Miguel Cruz, ligado à organização das contagens, sobre a descida este ano do número de grous-comuns na região alentejana. Houve também registo de uma espécie rara de grou, nativa da Ásia.

Os resultados do Censo dos Grous, que se realizou num fim-de-semana de dezembro e noutro em janeiro, foram mais fracos do que há um ano, indicou à Wilder o coordenador destas contagens, Carlos Miguel Cruz.

A 19 e 20 de dezembro, contaram-se 4898 destas aves, pouco mais de metade dos 9296 grous que tinham sido contabilizados em dezembro de 2024. E apesar de alguma melhoria no fim-de-semana de 23 e 24 de janeiro, quando foram registados 10.147 indivíduos contra os cerca de 8000 contados um ano antes, os totais desta edição ficaram abaixo da contagem anterior.

Bando de grous-comuns (Grus grus) em voo. Foto: Henrique Velez

Os grous-comuns (Grus grus) são aves migradoras, de grande porte, que em Portugal passam a época de inverno na região do Alentejo. Começam a chegar nos últimos dias de outubro e a partida, de volta aos territórios onde se reproduzem, acontece normalmente até às duas primeiras semanas de março.

Este que é o censo mais antigo de Portugal abrangendo toda a área de distribuição de uma espécie – fez 40 anos na edição anterior – voltou a mobilizar várias dezenas de pessoas, disse Carlos Miguel Cruz. Desde há vários anos que passou também a ser conhecido como Censo Ibérico dos Grous (esta foi a 13ª edição nesses moldes), realizado em parceria com a organização espanhola Grus Extremadura. As contagens fazem-se nas mesmas datas, dos dois lados da fronteira.

Do lado português, tanto em dezembro como em janeiro, membros do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, da LPN – Liga para a Proteção da Natureza, da GEDA – Grupo de Ecologia e Desportos de Aventura e da Herdade da Contenda, entidades que organizam o censo, juntaram-se a outros voluntários que se inscreveram para ajudar nas contagens. Nos dias agendados, enfrentaram o frio e a chuva e dividiram-se por vários locais que costumam ser frequentados pelos grous, desde o Alto ao Baixo Alentejo: Campo Maior, Arronches, Juromenha/Olivença, Mourão, Moura, Évora, Alvito e Campo Branco.

Equipa que participou no Censo dos Grous em Mourão, no distrito de Évora. Foto: DR

No final, feitas as contas, os resultados apontam para uma descida nos números, mas isso não significa que a tendência seja de declínio, avisa o coordenador, que explica que nestes censos “existem sempre flutuações”. “Só é possível concluirmos sobre tendências negativas ou positivas quando estas são observadas ao longo de uma série longa de anos”, sublinha.

Mau tempo e gripe aviária

O tempo que se fez sentir terá sido uma das causas para a descida do número de aves contadas, pois o facto de ter chovido bastante no Alentejo criou mais sítios disponíveis para os grous repousarem e procurarem alimento. É que esta espécie prefere habitats aquáticos, como margens de charcas e de albufeiras.

“Criaram-se lagos temporários em sítios onde não é costume e muitos grous não tiveram necessidade de ir para os locais que costumam frequentar”, nota Carlos Miguel Cruz.

Essa mudança imprevista impediu a observação e contagem de todos os grous, aliada a uma dificuldade que tem crescido nos últimos anos: devido ao aumento de vedações e de portões elétricos que vedam o acesso a grandes propriedades privadas, tem sido cada vez mais difícil fazer o censo em locais para os quais não exista já uma combinação prévia, feita com antecedência, lamenta o mesmo responsável.

Contagem de grous na Herdade da Camoeira, região de Évora. Foto: Caetano Oliveira Soares

Mas não foi só. Os resultados desta edição refletem também o impacto da gripe das aves, tal como em Espanha. “Terão morrido pelo menos vários milhares de grous logo no início da migração, na Alemanha, em França e no norte de Espanha, onde foram registados muitos destes animais mortos ou moribundos”, adianta o coordenador do censo, que lembra que o mesmo já sucedeu noutros anos.

Ao mau tempo e à gripe das aves somam-se ainda as alterações climáticas, com invernos mais amenos na Europa Central. “Sítios que outrora eram de passagem transformaram-se hoje em locais de invernia. Em França, por exemplo, há 30 anos havia grous a passar o inverno apenas pontualmente, mas agora há dezenas de milhares. Na Alemanha, os números também cresceram.”

Em Portugal, os grous invernam no Interior Alentejano. Foto: Henrique Velez

Outra mudança sentida este ano, que poderá estar relacionada com as alterações do clima, é que os grous começaram a regressar aos locais de nidificação logo na primeira semana de fevereiro, dando início à migração pré-nupcial mais cedo do que é costume. “Milhares de grous estão agora a sair da Península Ibérica”, adianta Carlos Miguel Cruz, que lembra que nem todas as aves partem ao mesmo tempo, mas não é costume isso acontecer tão cedo.

Grou-comum (Grus grus). Foto: Tauri Parna/Wiki Commons

Registada espécie rara de grou que nidifica na Manchúria

Durante as contagens deste janeiro, além dos grous-comuns que passam habitualmente o inverno no Alentejo, houve uma surpresa: dois irmãos, Nuno e Miguel Guégués, registaram uma outra espécie de grou bem menos habitual por estas paragens.

“Numa multidão de grous dos nossos, apareceu um grou-pequeno (Grus virgo). Deve ter vindo perdido para aqui”, acredita Carlos Miguel Cruz, que explica que esta é uma espécie de grou nativa da Ásia, que se reproduz por exemplo na Manchúria, no nordeste da China.

O grou-pequeno está hoje classificado em Portugal como Regionalmente Extinto, tal como em Espanha, e tem sido muito raramente observado. Mas há mais de 100 anos, embora considerado “muito pouco comum”, podia ser visto no sul do Alentejo e no Algarve junto ao Guadiana entre abril e meados de setembro, escreveu o rei Dom Carlos no seu Livro das Aves, entre finais do século XIX e o início do século XX.

Dois grous-pequenos (Grus virgo), na Índia. Foto: Tisha Mukherjee/Wiki Commons

Os números e informações mais recentes de contagens de grous, não só na Península Ibérica mas noutras regiões do mundo, vão ser partilhados em outubro na International Crane Conference, na Hungria. Esta conferência de quatro dias é dedicada às aves da família Gruidae, composta por 15 espécies diferentes de grous, incluindo o grou-comum e o grou-pequeno.


Saiba mais.

Leia mais informações sobre os grous e sobre o censo anual desta espécie, na página Grous Portugal.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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