Foto: Tânia Carvalho

Madeira: Visita ao Ecossítio Chão das Feiteiras

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Conduzidos por Tânia Carvalho, da Associação Insular de Geografia, desfrutamos da bela natureza de uma das poucas zonas aplanadas da ilha da Madeira, situada a 1200 metros de altitude no concelho de Machico. 

Ecossítio, termo inédito criado no projeto Ecos Machico, significa um local de interesse que merece ser divulgado e preservado devido à sua história e/ou aos elementos naturais e culturais que abarca. É o caso do Chão das Feiteiras, situado do concelho de Machico, a cerca de 1200 metros de altitude. 

Como o nome indica, com um termo tipicamente madeirense – “chão” – trata-se de uma zona aplanada, uma coisa rara na Madeira. Nos tempos opulentos do turismo estrangeiro na ilha, esta área era reconhecida pelos turistas como um dos raros locais para cavalgar, devido à sua planura. 

Foto: Tânia Carvalho

Aqui, recuando no tempo, haveria uma cratera da qual saía lava em direção a Nordeste, para o Vale do Ribeiro Frio. Estamos mesmo por cima deste. 

Ainda hoje, neste local encontramos os vestígios dos vazamentos de terras realizados no século XX e que, embora temporariamente legais, transformaram a paisagem das Feiteiras de forma permanente. Esse assunto é aliás um pouco controverso, já que adjacente a esta zona encontrava-se uma área protegida pela rede Natura 2000, denominada de Laurissilva da Madeira e integrada nesta rede ecológica de âmbito europeu em 1990. 

Mas na Natureza nada se impõe, nem há barreiras que, mais cedo ou mais tarde, não possam ser derrubadas, naturalmente. 

Foto: Tânia Carvalho

Chegamos ao local a meio da manhã, com as brumas típicas da despedida do Verão e a chuvinha fresca das boas vindas ao Outono. Ouvimos vozes de pequenos e graúdos, risadas e latidos de cães que, com os seus donos, vieram esticar as pernas. Em poucos minutos, alguns raios de sol começam a iluminar os espaços abertos e a tornar os contrastes mais vibrantes. 

Uma clareira chama-nos a atenção e convida-nos a entrar pelo espaço adentro. Folhas caem e brilham, e caminhamos sobre elas bem lentamente, desfrutando dos sons. Sabíamos que neste “chão” poderíamos encontrar belas criaturas que despertam nesta época, nomeadamente as do reino Fungi. E assim, os nossos olhos vão-se aprimorando na observação de um cenário de texturas complexas, para encontrarmos as primeiras que brotam. 

Caminhamos em direção a troncos mortos pois, claro está, com a humidade captada e sol a iluminar, será mais fácil encontrarmos aí estes pequenos fungos. E lá estão eles. Entre cogumelos e bolores , entretidos e focados, deixamo-nos levar por este mundo junto ao solo e eis que algo se mexe, lentamente. Balança para um lado e para outro em ângulos bem curtos, com o que parece uma trança em bico, e à medida que percorremos com o olhar umas manchas pretas, uma mancha dourada, uma casa escondida, um dorso com mais manchas e uns tentáculos, vem-nos à mente um nome: Plutonia nitida. Uma lesma endémica da Madeira, tão rara de encontrar. Ganhámos o dia! 

Fotos: Tânia Ganho

Conforme exploramos a área, passamos da zona com vegetação mais densa para a clareira. Sentimos o chão ora firme, ora frágil, e seguimos por entre montinhos e covas decorrentes dos pequenos deslizamentos do aterro. Uma vez mais deixamo-nos levar pelas dualidades: ora o que está seco e com semente, ora o que se mexe e se aproveita do que tem ao redor. Brincamos como que à apanhada, mas sem correr, com um bando de outra espécie endémica: o tentilhão-da-Madeira, Fringilla coelebs ssp. maderensis, que se desloca em grupo de arbusto em arbusto. 

Foto: Tânia Carvalho

Um bater de asas mais forte faz-nos virar, novamente, de direção. E à segunda tentativa conseguimos perceber o motivo: o pombo trocaz, o “inimigo público número 1” dos agricultores. Mas aqui é que ele está no seu habitat, significando que afinal há comida e não, não há terrenos agricultados.

Caminhando mais para norte, num monte encontramos gaivotas de patas amarelas, a mais de 1000 metros acima do nível do mar. Mais uns passos e mais sons, ou não estivéssemos num dos locais autorizados para a pastorícia. Uma mancha branca e outra negra, ao fundo já com o nevoeiro a subir.

Não fomos os únicos a contemplar esta complexidade, pois várias famílias desfrutavam da mesma experiência na Natureza. No regresso, os cedros, com os seus ramos em curva qual abraço paternal aos céus, protegiam alguns ninhos já com as crias a viver a sua liberdade. 

Em conclusão da lembrança deste panorama, podemos dizer que a Natureza acolhe, adapta-se e vive em comunhão. O Chão das Feiteiras é uma área que, embora seja Parque Natural, passa por entre os limites da Rede Natura 2000, e tem tanto para oferecer! 

Foto: Tânia Carvalho

Este é o segundo artigo de uma nova série na Wilder que nos dá a conhecer a riqueza da biodiversidade na ilha da Madeira e alguns projetos ligados à sua conservação, publicado em parceria com a Associação Insular de Geografia. Desta vez através do seu projecto Ecos Machico, ligado à sustentabilidade territorial.

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