Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No sexto artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de João Nunes, naturalista de 26 anos que ambiciona registar e documentar todas as espécies de borboletas noturnas de Portugal Continental.
Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.
Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.
Hoje, damos-lhe a conhecer João Nunes, 26 anos e natural de Valongo, onde sempre viveu e vive. Diz ter várias “ocupações”. É co-coordenador do projeto nacional Rede de Estações de Borboletas Noturnas, vice-presidente da associação homónima, consultor ambiental responsável por vários trabalhos de inventariação e monitorização de borboletas e técnico superior numa instituição pública.
WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?
João Nunes: Lembro-me bem de uma das primeiras borboletas noturnas que observei, a Phalera bucephala. Foi também a primeira borboleta que fotografei já com uma câmara digital, pois comecei o registo de biodiversidade ainda com câmara analógicas descartáveis.

É um inseto impressionante, não só pela sua envergadura já considerável, mas também pelo extraordinário padrão que mimetiza quase na perfeição um pequeno galho de bétula partido. Foi em 2009, tinha 9 anos.
Contudo, o episódio que considero mais importante no arranque desta jornada foi quando realizei a minha primeira atividade noturna para observação de borboletas noturnas. Em 2014, consegui convencer os meus pais a levarem-me de Valongo à Serra da Malcata (250 quilómetros) para acompanhar uma atividade de observação de borboletas noturnas coordenada pelo Fernando Romão. Quando percebi que podia observar tantas espécies com o simples gesto de ligar uma luz… tudo mudou.
W: O que te incentivou ou motivou a começar?
João Nunes: O fascínio pela diversidade, neste caso biodiversidade. Inicialmente “debruçava-me” sobre todos os grupos, das plantas e fungos às borboletas e aves. Com o tempo, e em pouco tempo, o meu interesse afunilou abruptamente (por razões que apenas posso especular) nas borboletas noturnas, vulgo traças, um grupo com quase 3000 espécies (apenas em Portugal continental). Com a primeira máquina fotográfica digital, a ambição de as registar e documentar a todas liderou a minha vida desde então.

W: O que sabias antes de começar?
João Nunes: Como comecei muito novo neste tema, sabia muito pouco ou quase nada. Sabia apenas o básico: as borboletas e as lagartas são o mesmo organismo; a maior parte das lagartas alimenta-se de plantas.
W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhado?
João Nunes: Se há algo nas borboletas que me fascinará sempre é a metamorfose. A existência de uma enorme diversidade de lagartas, com especificidades muito variáveis, que resulta numa igual diversidade de borboletas, é quase como se tivéssemos na realidade o dobro da biodiversidade real deste grupo. Por curiosidade, entre 2013 e 2017 mantive um blog onde com bastante regularidade, por vezes semanal, publicava fotos do ciclo de vida das borboletas que criava em casa desde lagarta até ao estado adulto.

W: O que vês hoje que provavelmente não terias visto quando começaste?
João Nunes: Hoje tenho um olhar bastante mais seletivo para a deteção de borboletas e lagartas. Seguramente muitas passaram-me despercebidas nos meus primeiros anos de atividade.
W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?
João Nunes: Sendo um pouco provocador, posso dizer que as pessoas não reparam, normalmente, nas borboletas noturnas. São animais noturnos e, em geral, mal-amados, muito graças à fama que algumas espécies têm de roer a roupa na fase larvar. Por causa dos hábitos alimentares das lagartas de algumas (pouquíssimas) espécies, pagam todas: em português de Portugal chamamos a todas de “traças”, o termo mais popular para nos referirmos a este grupo.
W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?
João Nunes: Em pelo menos 13 anos de admiração do mundo natural, com destaque para a observação de borboletas, tenho a sorte de poder dizer que já tive vários momentos inesquecíveis. Focando no grupo ao qual me dedico, as borboletas noturnas, destaco um episódio muito recente: a primeira vez que vi a espécie Axia margarita, em março de 2025. Numa noite de amostragem para inventariação de borboletas noturnas no município de Loulé com o colega e amigo Thijs Valkenburg, onde tudo ia correr bem, à semelhança de muitas que por lá fizemos, até começar a chover… Tivemos que rapidamente improvisar umas coberturas para as três lâmpadas que tínhamos ligadas a um gerador, mas que foram de pouco uso, pois mesmo assim, graças ao vento que levantava as coberturas e projetava a chuva lateralmente, perdemos duas das três lâmpadas por choque térmico da água em contacto com as mesmas. Estávamos desolados, até chegarmos à terceira, ainda intacta (entretanto a chuva acalmou), onde estava uma grande surpresa à nossa espera. Esta foto.

W: De que forma a tua vida mudou e é mais rica por teres aprendido a reparar neste mundo? Consegues integrar este gosto por explorar a natureza no teu dia a dia?
João Nunes: Tive pouco tempo de vida consciente anterior ao meu fascínio por borboletas, portanto, é me difícil responder à primeira pergunta. Quanto à segunda, a resposta é um sólido: Sim. Em qualquer atividade no exterior, seja ela num ambiente descontraído ou com exigência das maiores formalidades, a procura por borboletas (e lagartas) é constante. Qualquer amigo que já tenha dado uma volta comigo já teve o aborrecimento de me ouvir a referir curiosidades acerca de uma borboleta que encontrei pousada num muro, de uma lagarta que encontrei entre duas folhas unidas por seda, ou de uma planta interessante ou que nunca tinha visto. É uma procura que simplesmente não desliga.
W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?
João Nunes: Tendo oportunidade, ensinaria duas coisas: a primeira seria a observar borboletas noturnas com recurso à atração luminosa, um método fácil e muito profícuo. Com apenas uma lâmpada, e recorrendo a um fenómeno conhecido de todos – os insetos são atraídos pela luz – podemos facilmente ter acesso a uma enorme biodiversidade que sempre esteve em nosso redor, mas que normalmente não temos acesso por vivermos num turno diferente, o turno diurno. Na verdade, mesmo que estejamos ativos à noite, poucos são os que dedicam essas horas à observação da natureza. A segunda seria a criação de lagartas. Tendo o cuidado para não colher as lagartas e libertar as respetivas borboletas em locais diferentes, o exercício de acompanhar uma ou várias lagartas da fase larvar à fase adulta permite aprender imenso sobre a biologia destes animais. Além disso, ainda há muitas espécies cuja larva é desconhecida, portanto, há o potencial acrescido de fotografar e documentar pela primeira vez o ciclo de vida de determinada espécie. Esta componente foi muito importante no meu crescimento neste tema. Em jovem, criei dezenas e dezenas de espécies, documentando fotograficamente as diferentes fases da sua vida e aprendendo muito sobre as suas exigências, comportamentos e especificidades.

W: O que pode estar a dificultar uma aproximação das pessoas à natureza?
João Nunes: A resposta a esta pergunta tem de ser dividida em várias camadas. Há pessoas que sempre viveram em ambiente rural e que mesmo assim nunca foram sensibilizadas para apreciar determinadas formas de vida, principalmente as silvestres. Já fiz atividades abertas de observação de borboletas noturnas em aldeias transmontanas cujos habitantes, que sempre lá viveram, ficaram maravilhados com as borboletas noturnas que partilhavam o território com eles. Sempre coabitaram, simplesmente nunca se tinham cruzado. Foi evidente a sensibilidade que ganharam no imediato com estes animais, não só pela simples observação, mas também pela desconstrução dos mitos associados em conversa. Ou seja, acredito que uma introdução acompanhada e informada ao mundo natural é essencial para sensibilizar e aproximar as pessoas da Natureza, mesmo em comunidades rurais, onde a Natureza geralmente abunda. Contudo, para “exercitar” essa aproximação, creio que é necessário um contacto regular com a natureza, algo que é trivial no mundo rural, mas mais desafiante no meio urbano.
W: Que conselhos dás a quem quer começar? Podes dar três ou quatro exemplos do que procurar? Que material poderá ser necessário?
João Nunes: O primeiro conselho não pode deixar de ser: ir para o campo, o máximo número de vezes que conseguirmos. Sair de casa e ir para a Natureza, sozinho ou acompanhado. Observar as diferentes espécies que partilham o território connosco. Hoje em dia temos uma ferramenta poderosíssima no bolso de toda a gente, o smartphone. Tendo acesso à internet, temos toda a informação disponível em segundos. Para além disso, a generalidades dos modelos recentes já tem uma excelente câmara incluída. Portanto, observar, registar e, se houver interesse, tentar identificar, é um processo virtuoso que rapidamente gera aprendizagem. Sugiro também o uso de aplicações sobre o tema, como o iNaturalist e o ButterflyCount.
Pessoas que reparam na natureza
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