Foto: Jorge Costa

Jorge Costa e a marta e o medronheiro que lhe trouxeram o prémio de Fotógrafo de Natureza do Ano

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O fotógrafo de 41 anos contou à Wilder como começou a dedicar-se à fotoarmadilhagem e como captou a imagem que foi a grande vencedora do concurso TotalEnergies, no âmbito do festival Insitu que terminou este domingo, em Vouzela.

Como é que começou a fazer fotografia de natureza? 

Quando tinha cerca de 23 anos comecei a fazer muitas caminhadas pela serra, cruzando-me muitas vezes com animais selvagens. Isto despertou-me o interesse em começar a registar estes encontros. Mais tarde, acabei por perceber que outra parte da fauna tinha hábitos noturnos. Em 2014, comecei então a utilizar ‘trailcams’, que são câmaras que se ativam com o movimento, que gravam vídeo e tiram fotografias.

Com estas câmaras, consegui fazer o registo de várias espécies da nossa fauna, algumas raras, e comecei a fornecer estes registos ao CIBIO, um centro de investigação da Universidade do Porto. No entanto, como faltava qualidade às imagens, tive vontade de melhorar estes registos. Em 2016, comecei a explorar a armadilhagem fotográfica com um sistema mais profissional, que consistia em colocar uma máquina fotográfica com dois flashes e um sensor de movimento num local específico, nesta altura já com licença do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas!

Quando tirou a fotografia do concurso e porque escolheu aquele enquadramento?

Foi tirada em outubro de 2025, na Serra do Gerês. Quis englobar duas espécies de fauna e flora que tivessem alguma raridade. Neste caso, um magnífico medronheiro (Arbutus unedo) com um respeitoso porte – ainda é possível encontrar medronheiros que igualam e superam este da imagem nalgumas zonas do Parque Nacional da Peneda-Gerês – e uma marta (Martes martes). Esta última espécie habita sobretudo o norte do país, em áreas do interior minhoto e mais a norte em Trás-os-Montes, mas a falta de dados não nos permite classificar o seu estado de conservação. Tento assim mostrar a importância de ambos e de alguma forma alertar para a necessidade de os preservarmos.

A que técnicas e materiais recorreu?

Utilizei o material mais comum para armadilhagem fotográfica profissional, nomeadamente uma máquina fotográfica “DSLR”, flashes e sensor de movimento. No entanto, fui eu que desenvolvi muito do material que utilizo, o que me dá mais interesse por este tipo de técnica. Os sensores são totalmente criados por mim, por exemplo, tal como a melhoria da autonomia e o ‘housing’ de todo o material.

O que gosta mais de fotografar?

Gosto mais de fotografar fauna e flora juntos, de tentar combinar habitat e animal e de encontrar espécies que são menos comuns, tanto flora como fauna, procurando mostrar a importância da relação entre ambos. Mas sobretudo, gosto de mostrar o nosso valor natural, que está cada vez mais desvalorizado e a ser constantemente substituído por espécies de crescimento rápido sem ordenamento, ou então por espécies invasoras, acabando assim por empobrecer o nosso território, tanto em termos de fauna como de flora.

Espécies chave e raras em Portugal são talvez as que mais sofrem com isto (lobo, toirão, gato bravo), mas também nós sofremos, devido ao empobrecimento paisagístico e aos problemas com a qualidade da água, por exemplo.

Um gato-bravo (Felis silvestris), espécie rara e ameaçada em Portugal, que valeu a Jorge Costa uma menção honrosa na XIV edição do Concurso TotalEnergies – Fotógrafo de Natureza do Ano. Foto: Jorge Costa

Quais têm sido os seus maiores desafios?

Os maiores desafios são sempre a falta de tempo e os custos das viagens e do equipamento. Antes de qualquer abordagem, é sempre preciso fazer um estudo sobre o local e haver uma recolha dados com as pequenas ‘trailcams’. É necessário haver uma procura de indícios de fauna e uma abordagem no terreno, para preparar o enquadramento da fotografia. Tudo isso requer bastante tempo.

Como não consigo ter disponibilidade devido ao meu trabalho profissional numa fábrica de componentes para pneus, que me ocupa seis dias de trabalho com dois de descanso, com troca de turnos de seis em seis dias, esse desgaste por vezes desmotiva-me. Mas mesmo assim, a custo, fazem-se as viagens e algum do estudo acabo por fazer em casa. 

O material é também um problema. Falamos em material caro que é colocado em campo com a possibilidade de ser roubado, de sofrer danos por causas naturais ou de tornar-se necessária uma troca de baterias para funcionar.

Mas nada disto me faz recuar. Sempre que posso, tento desta maneira mostrar o que de melhor temos, para que as pessoas de alguma forma desfrutem disso e sintam necessidade de preservar a natureza!


Saiba mais.

Pode seguir o trabalho fotográfico de Jorge Costa no Instagram, aqui.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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