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Milhares de palancas-negras em propriedades privadas preservam só duas das cinco ancestralidades selvagens

01.10.2026
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Palanca-negra (Hippotragus niger) numa propriedade privada na África do Sul. Foto: Tina de Jager

Ter milhares de animais de uma espécie em propriedades privadas não significa necessariamente estar a preservar a sua diversidade genética. É o que mostra um estudo internacional sobre a palanca-negra (Hippotragus niger), um dos grandes mamíferos mais icónicos de África e o símbolo de Angola.

Os investigadores descobriram que as milhares de palancas-negras mantidas em propriedades privadas na África do Sul representam apenas uma pequena parte da diversidade genética conhecida na natureza.

A palanca-negra, que vive em savanas arborizadas e zonas de pastagens em África, está classificada como “Pouco Preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). No entanto, várias das suas populações selvagens têm registado declínios preocupantes, como o que acontece em Angola.

Palanca-negra (Hippotragus niger) numa propriedade privada na África do Sul. Foto: Tina de Jager

Ao mesmo tempo, o número de palancas-negras mantidas em propriedades privadas sul-africanas aumentou nas últimas décadas, impulsionado pelo forte interesse comercial na espécie.

Para avaliar o potencial contributo destas populações para a conservação, uma equipa internacional, coordenada por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-BIOPOLIS), da Universidade do Porto, analisou e comparou os perfis genéticos de 7271 animais provenientes de 358 propriedades privadas existentes na África do Sul com os cinco grupos genéticos selvagens conhecidos.

Os resultados, publicados agora num artigo na revista iScience, mostram que apenas duas das cinco ancestralidades selvagens conhecidas – a zambiana e a do Sul – estão representadas entre os animais mantidos em propriedades privadas.

Cerca de 75% dos animais analisados têm uma mistura genética entre estas duas ancestralidades. Entre os animais sem sinais dessa mistura, 22% do total analisado apresentam exclusivamente ancestralidade zambiana. Apenas cerca de 3% revelaram ter ancestralidade exclusivamente do Sul, precisamente o grupo que ocorre naturalmente na África do Sul.

“O resultado mais surpreendente foi percebermos que uma população tão numerosa representa apenas duas das cinco ancestralidades genéticas que conhecemos na natureza”, comentou, em comunicado, Mariana Meneses-Ribeiro, primeira autora do estudo e aluna do Programa Doutoral em Biodiversidade, Genética e Evolução da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde desenvolve trabalho no CIBIO-BIOPOLIS.

Palanca-negra (Hippotragus niger) numa propriedade privada na África do Sul. Foto: Tina de Jager

“É particularmente preocupante que apenas cerca de 3% dos animais analisados apresentem exclusivamente ancestralidade do Sul, precisamente o grupo que ocorre naturalmente na África do Sul e no qual têm sido documentados importantes declínios populacionais”, acrescentou.

Perante estas conclusões, os autores defendem que os dados genéticos devem ser integrados nas avaliações do potencial de conservação destas populações.

“Ter milhares de animais em propriedades privadas, geridos para fins distintos da conservação, não garante, por si só, a conservação de uma espécie”, sublinhou Raquel Godinho, investigadora do CIBIO-BIOPOLIS e autora sénior do estudo.

“Estas populações podem representar uma oportunidade importante para ações de conservação, mas é essencial conhecer a diversidade genética que preservam e avaliar se a ancestralidade dos indivíduos é adequada à população que se pretende conservar”, acrescentou.

Assim, os autores desta investigação defendem que é necessário integrar informação sobre a diversidade genética de uma espécie quando se está a avaliar o seu estado de conservação. Por vezes, os números, por si só, não são suficientes.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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