Em Junho, a leitora Rosário Oliveira reparou nuns caminhos deixados por formigas e ficou curiosa. Será que estes animais tão pequenos são capazes de construir “auto-estradas” no solo? Rafael Pinto responde à dúvida naturalista.
“Tenho visto muitas destas “auto-estradas” gigantes em largura em função das formigas, assim como muito extensas. Não sei se é acidente ou se, de facto, as formigas constroem estas vias. Não sei se podem ajudar mas acho muito estranho”, escreveu a leitora à Wilder.



Segundo Rafael Pinto, estudante de Biologia Aplicada da Universidade do Minho, “estas ‘autoestradas’ de formigas que a leitora observou são trilhos que são utilizados por formigas que pertencem ao género Messor. Estas formigas são típicas de ecossistemas mediterrânicos e podem ser facilmente encontradas em Portugal, onde estão representadas por cerca de oito espécies”.
Rafael Pinto explicou que todas estas espécies de Messor fazem os seus ninhos no solo e têm uma alimentação predominantemente granívora. “É comum observarmos as obreiras destas formigas enquanto procuram sementes, que transportam de volta para o formigueiro. As sementes são armazenadas no ninho em câmaras específicas, que funcionam como reservas de alimento para a colónia”.
“Embora diferentes espécies apresentem comportamentos de forrageamento distintos, com obreiras que coletam sementes individualmente ou em grupo, várias espécies de Messor podem formar trilhos longos e bem definidos entre uma entrada do ninho até a uma fonte de alimento, tal como os trilhos que podemos observar nas fotografias da leitora.”
Estes trilhos podem ser impressionantes.
“Uma das espécies mais comuns e estudadas na Península Ibérica, Messor barbarus (também conhecida como formiga-do-pão ou formiga-carrilheira), pode formar trilhos com até 30 metros de comprimento e entre 10 a 20 centímetros de largura”, lembrou Rafael Pinto.
“Além de serem impressionantes pela sua extensão, estes trilhos são ativamente construídos e mantidos pelas formigas, uma vez que as obreiras removem detritos, vegetação e outros obstáculos do trilho para facilitar o transporte das sementes.”
Rafael Pinto acrescentou que “o formato, a extensão e as ramificações dos trilhos podem variar consoante a colónia, ao longo do tempo, ou conforme a disponibilidade de recursos nas imediações do ninho e a presença de colónias vizinhas”.
“As Messor barbarus utilizam muitos destes trilhos de forma permanente, o que os torna facilmente visíveis no solo, mesmo em momentos em que as formigas não se encontram ativas, como durante o inverno.”
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