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Conseguem produzir, pela primeira vez, embriões de lince-ibérico em laboratório

22.12.2025
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Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

Investigadores e veterinários espanhóis conseguiram mostrar, pela primeira vez, que é possível gerar embriões desta espécie ameaçada em laboratório. O feito foi agora publicado na revista Theriogenology Wild.

O estudo foi liderado pelo Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN) do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e pela Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madrid (UCM).

A equipa de especialistas – que recorreu a tecnologias reprodutivas para contribuir para a sobrevivência do lince-ibérico (Lynx pardinus) – conseguiu gerar embriões desta espécie após a fecundação in vitro de células reprodutoras de fêmeas falecidas em acidentes com espermatozoides criopreservados no biobanco da espécie.

O lince-ibérico é uma espécie endémica da Península Ibérica. Em 2002, o censo de menos de 100 exemplares em liberdade levou a que fosse considerado o felino mais ameaçado do planeta pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

No entanto, em 2024, a espécie contava com mais de 2.000 animais em liberdade. Em apenas duas décadas, os programas de conservação, reprodução em cativeiro e reintrodução, juntamente com estudos genéticos, reprodutivos e sanitários, permitiram que esta espécie passasse de criticamente ameaçada para a categoria Vulnerável na Lista Vermelha da UICN.

Apesar desta história de recuperação, o lince-ibérico enfrenta hoje riscos que ameaçam a sua sobrevivência, nomeadamente a perda de diversidade genética. Uma menor variabilidade genética provoca depressão endogâmica, o que reduz as probabilidades de sobrevivência e favorece o aparecimento de doenças, bem como uma menor capacidade reprodutiva.

A equipa de investigação salienta que as técnicas de reprodução assistida podem reduzir a prevalência destas complicações através da gestão reprodutiva das populações em cativeiro e em liberdade.

“A nossa investigação traz novas opções ao programa de conservação do lince, pois torna possível a reprodução de animais que não tiveram essa oportunidade, por exemplo, porque morreram prematuramente ou porque apresentam problemas comportamentais e não se reproduzem”, comentou, em comunicado, Eduardo Roldán, investigador do CSIC no MNCN e co-autor do estudo.

Manter a variabilidade genética da espécie

O material reprodutivo dos machos foi obtido graças à colaboração dos Centros de Reprodução em Cativeiro do lince-ibérico em Espanha e Portugal, que permitiram a recolha e criopreservação do esperma para armazenamento no Banco de Germoplasma e Tecidos de Espécies Silvestres do MNCN, que funciona como biobanco da espécie.

O material reprodutivo das fêmeas foi obtido através dos Centros de Recuperação de Fauna Selvagem, que apoiam o programa de conservação do lince na natureza.

A investigação teve início com ovócitos resgatados, que foram transportados refrigerados para o laboratório, onde se procedeu à sua maturação em condições controladas.

Estes ovócitos foram fecundados com sucesso, originando embriões que foram criopreservados por vitrificação e que se encontram atualmente armazenados no biobanco do lince-ibérico.

“Agora precisamos de desenvolver métodos para transferir estes embriões para fêmeas receptoras, o que contribuirá, sem dúvida, para reforçar a diversidade genética da espécie”, acrescentou Ana Muñoz Maceda, investigadora doutoranda da UCM e autora principal do trabalho.

Outro aspeto relevante do estudo prende-se com as diferenças associadas à época do ano em que os ovários foram resgatados. “Verificámos que a época do ano teve um efeito importante na obtenção de embriões. Obtivemos maior sucesso quando os ovários eram recuperados no outono e no inverno, que correspondem à época reprodutiva dos linces”, salienta María Jesús Sánchez Calabuig, professora da UCM e co-autora da investigação.

No entanto, lembra, “o sucesso alcançado está longe de ser ideal, uma vez que é inferior ao que obtemos com gatos domésticos, a espécie que utilizamos como modelo”.

Entre os fatores que influenciam os resultados, os autores destacam o papel crucial do tempo decorrido até à localização das fêmeas acidentadas e à recuperação dos seus ovócitos.

Para ultrapassar estas limitações, a equipa propõe recorrer a métodos alternativos. “Será necessário encontrar o método menos invasivo possível e garantir a máxima recuperação de ovócitos que possam ser utilizados na fecundação in vitro”, disse Andrea Priego González, investigadora doutoranda da UCM e autora principal do estudo.

Os investigadores e veterinários consideram que este trabalho representa “um importante avanço científico, ao demonstrar que é possível produzir embriões de lince-ibérico em laboratório a partir de ovários obtidos post mortem e de esperma criopreservado”.

“Graças ao sémen armazenado no biobanco, dispomos de um verdadeiro seguro genético”, destaca Roldán.

Estes progressos abrem a possibilidade para recuperar a diversidade genética de exemplares que morram prematuramente sem deixar descendência. Permitirão também planear cruzamentos entre indivíduos geograficamente distantes, pertencentes a diferentes populações, ou separados no tempo, isto é, de diferentes gerações, melhorando as estratégias destinadas a promover a diversidade genética da espécie e, em alguns casos, a resgatar genótipos de interesse.

“Os nossos resultados, embora ainda iniciais e passíveis de melhoria, confirmam que a biotecnologia reprodutiva se pode tornar uma ferramenta fundamental para complementar os esforços de conservação e assegurar a sustentabilidade genética do lince-ibérico a longo prazo”, comenta Sánchez Calabuig.

O projeto foi financiado pela Comunidade de Madrid, pelo MITECO, pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, pelo CSIC e pelo MNCN.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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