Todos os anos, entre meados de dezembro e o início de janeiro, milhares de pessoas saem para o campo munidas de binóculos, cadernos e paciência. O Christmas Bird Count, coordenado pela norte-americana National Audubon Society, é hoje o mais antigo programa do mundo de Ciência Cidadã dedicado às aves e uma valiosa ferramenta para compreender como a biodiversidade responde às mudanças ambientais.
Criado em 1900 nos Estados Unidos por Frank Chapman e outros 26 conservacionistas, o Christmas Bird Count (CBC) nasceu como uma alternativa a uma tradição então comum: o Christmas Hunt, uma competição natalícia de caça de aves. A iniciativa propôs trocar as armas pela observação científica, uma decisão visionária que viria a transformar a forma como se estuda a avifauna no Hemisfério Norte.
Este ano, as contagens estão a decorrer em mais de 20 países de 14 de dezembro de 2025 a 5 de janeiro de 2026.
O funcionamento do CBC é simples. Os voluntários seguem trajetos previamente definidos, contando todas as aves que encontrarem em qualquer habitat: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas ou ambientes urbanos. Cada contagem decorre numa região fixa com cerca de 24 quilómetros de diâmetro e realiza-se num único dia dentro do período oficial da campanha. Nesse dia, voluntários registam todas as aves observadas ou ouvidas.
Os coordenadores das contagens de cada região juntam os mais amadores com ornitólogos experientes.
Mais do que uma lista de espécies, os participantes anotam o número de indivíduos e o esforço de amostragem — horas passadas no terreno, condições meteorológicas e tipo de habitat —, dados essenciais para garantir a robustez científica dos resultados.
Hoje, o Christmas Bird Count envolve dezenas de milhares de participantes em mais de 20 países das Américas, do Canadá às Caraíbas, passando pela América Central e parte da América do Sul.
No ano passado, um total de 83.109 pessoas participaram neste evento ornitológico. Contaram 44.259.423 de aves de 2.503 espécies diferentes.
As cinco espécies com maior distribuição na contagem de 2024/2025 foram o estorninho-malhado (Sturnus vulgaris), o pica-pau-galego-americano (Dryobates pubescens), o pombo-rupestre-d’asa-ruiva (Petrophassa rufipennis), o pardal-comum (Passer domesticus) e o pigargo-americano (Haliaeetus leucocephalus).
Dados que contam histórias
O verdadeiro poder do CBC está na sua continuidade. Com mais de 120 anos de dados recolhidos de forma consistente, esta série histórica permite identificar tendências. Graças ao CBC, os cientistas conseguem perceber, por exemplo, como algumas espécies estão a deslocar as suas áreas de invernada para norte, um sinal claro dos efeitos das alterações climáticas.
Os dados também ajudam a detetar declínios populacionais, alterações na abundância relativa das espécies e mudanças associadas à perda de habitat ou à urbanização.
Apesar do seu valor científico, o CBC mantém uma forte componente social. Qualquer pessoa pode participar, independentemente do nível de experiência, desde que integrada numa equipa local. Para muitos, é o primeiro contacto com a ciência cidadã e uma porta de entrada para uma relação mais próxima com a natureza.
Esta combinação de envolvimento público e rigor científico tornou o Christmas Bird Count um exemplo de como a participação ativa dos cidadãos pode contribuir para responder a grandes questões ambientais. Ao mesmo tempo, promove a literacia científica e reforça a ideia de que a conservação da biodiversidade é uma responsabilidade partilhada.
No contexto de crise global da biodiversidade, iniciativas como o Christmas Bird Count mostram que a recolha sistemática de dados ao longo do tempo é fundamental para orientar políticas de conservação eficazes. Cada ave contada representa mais do que um número: é um fragmento de uma história maior sobre a saúde dos ecossistemas e o futuro da vida selvagem.