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Conservação

WWF Espanha alerta que alterações no CNRLI podem ter “efeito dominó” na conservação ibérica

20.05.2026
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Fresa no Centro de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder (arquivo)

A organização está a seguir “com enorme preocupação” as alterações anunciadas na gestão do CNRLI e alerta que estas podem ter um “efeito dominó” em todo o programa ibérico de conservação do lince. Avisa que uma mudança em qualquer um dos quatro centros de cria deve ser articulada entre Portugal e Espanha.

A WWF Espanha disse hoje à Wilder que está a acompanhar “com enorme preocupação” a anunciada internalização do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves, pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

CNRLI em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder (arquivo)

“O Centro de Silves e a sua equipa técnica têm desempenhado um papel chave num dos maiores êxitos internacionais de conservação”, disse Ramón Pérez de Ayala, coordenador dos projectos dos grandes carnívoros da WWF Espanha. “Substituir de forma abrupta uma equipa altamente especializada, sem uma transição planificada e em plena temporada reprodutiva, implica um risco muito grave para o funcionamento do centro e para todo o programa”.

Ramón Pérez de Ayala sublinha que existe um risco real de se perderem as oito crias que nasceram este ano no CNRLI.

A organização espanhola, que há anos acompanha e participa no esforço de conservação do lince-ibérico, considera “imprescindível garantir a continuidade técnica e operacional do centro”.

“Estamos num momento decisivo para consolidar a recuperação do lince-ibérico e qualquer retrocesso agora teria consequências durante anos.”

O contrato com a empresa privada que gere operacionalmente o CNRLI desde que este abriu portas termina a 31 de maio. Da nova equipa que a irá substituir conhece-se um nome, o da sua coordenadora: Alexandra Pereira, veterinária e diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia no ICNF entre 2021 e 2025.

“A gestão do lince-ibérico em cativeiro exige conhecimentos acumulados durante anos e experiência específica sobre cada exemplar”, continua Ramón Pérez de Ayala. “Um processo mal gerido pode provocar stress, problemas sanitários, rejeição de crias e até a morte de animais reprodutores e de crias.”

Cria de lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

Mas os impactos destas mudanças podem ser sentidos fora das portas do CNRLI, na Herdade das Santinhas, em Silves. Rodrigo Serra, médico veterinário especializado em felinos selvagens, além de ser o diretor técnico do Centro é também o coordenador do Programa ibérico de Conservação Ex-Situ desta espécie.

A WWF Espanha recorda que “qualquer alteração na direcção técnica do programa ex-situ ou no funcionamento de qualquer um dos centros de reprodução deve ser tratada de forma coordenada entre Espanha e Portugal, uma vez que todo o sistema funciona como uma única rede de conservação”.

Em entrevista à Wilder, Ramón Pérez de Ayala admite que o impacto destas alterações poderá ser “muito grave” e “afetar o programa ibérico no seu conjunto”. “Estamos a falar de uma espécie que continua a estar dependente de uma gestão altamente especializada para garantir a sua recuperação e preservar a sua diversidade genética”.

A verdade é que durante mais de 50 anos, as populações de lince-ibérico (Lynx pardinus) não conheceram outra coisa se não o declínio. A perseguição humana e a escassez de coelho-bravo ditaram esta descida que levou a espécie à beira da extinção.

Nos últimos 20 anos, Portugal e Espanha uniram-se e avançaram em várias frentes no derradeiro esforço de salvar este felino. Em 23 anos, a população passou de menos de 100 exemplares contabilizados em 2002 para 2401 em 2024, segundo os dados do mais recente censo à espécie. Em Portugal foram registados 354 linces.

Neste momento, o lince-ibérico continua numa das três categorias de ameaça definidas pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), ainda que esteja na mais baixa, Vulnerável.

Agora, a WWF Espanha “receia que decisões precipitadas possam pôr em risco décadas de trabalho científico e técnico que permitiram retirar o lince-ibérico da quase extinção”.

Reintroduções em novas áreas em Espanha poderão estar em risco

O responsável de espécies da WWF Espanha, receia que uma interrupção ou deterioração do funcionamento do CNRLI durante esta época de reprodução possa comprometer a reprodução deste ano.

Reintrodução na natureza de um lince-ibérico no Parque Natural do Vale do Guadiana. Foto: João Santos / ICNF

O programa ibérico de reprodução em cativeiro funciona como uma única população genética, coordinada entre Espanha e Portugal. “Se o centro de Silves deixar de operar com normalidade, poderá produzir-se um efeito dominó sobre os restantes centros de reprodução da Península Ibérica.”

O responsável recorda que os quatro centros que compõem a rede ibérica “trabalham perto da sua capacidade máxima”. Por exemplo, “uma recolocação urgente de animais iria alterar gravemente as dinâmicas de reprodução, maneio e treino para a reprodução”.

Também pode estar em causa “o número de exemplares disponíveis nos próximos anos para reforçar as populações naturais e para as novas reintroduções” actualmente em curso em várias regiões espanholas.

“O programa de reprodução em cativeiro é essencial para dispormos de exemplares destinados a novas reintroduções e para garantir a diversidade genética das populações que se estão a criar em diferentes territórios”.

Nos últimos dois anos, Espanha começou a reintroduzir linces em quatro novas regiões: duas em Castela-La Mancha, uma em Castela e Leão e outra em Aragão. “Todo esse esforço depende de que o programa de reprodução em cativeiro continue a funcionar com estabilidade e capacidade suficiente para produzir o maior número possível de exemplares por ano, bem preparados para a sua reintrodução”.

A WWF sublinha ainda que o problema não se resume ao número de linces disponíveis para libertação. “A diversidade genética da espécie continua reduzida e o programa de reprodução desempenha um papel fundamental para maximizar essa variabilidade genética”, refere. Segundo a organização, os vários centros coordenados permitem seleccionar cuidadosamente os cruzamentos e reduzir o grau de parentesco dos animais libertados, algo considerado essencial para a viabilidade futura das populações. “Se esta crise provocar uma quebra reprodutiva ou um colapso operacional do programa ex situ, poderá reduzir-se drasticamente a disponibilidade de linces para futuras libertações”, alerta a WWF. “Isso significaria atrasar ou até suspender temporariamente novas libertações”, o que poria em risco os objetivos de recuperação da espécie acordados pelos dois países.

WWF pede coordenação entre Portugal e Espanha

A WWF Espanha considera imprescindível que “o afastamento do coordenador do programa ibérico de reprodução em cativeiro ou qualquer alteração num centro de reprodução tão estratégico como o de Silves seja gerido com transparência, coordenação e planificação conjunta entre Portugal e Espanha”.

Foto: Programa de Conservação Ex-situ/Arquivo

“O programa ibérico de conservação do lince foi construído precisamente com base nessa cooperação técnica e institucional entre os dois países”, afirma Ramón Pérez de Ayala.

Hoje, o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha (MITECO) afirmou à Wilder não ter recebido qualquer comunicação formal do ICNF sobre a anunciada mudança no modelo de gestão do CNRLI. E que enviou, a 15 de Abril, uma carta ao ICNF propondo a realização de uma reunião da Comissão Bilateral Portugal-Espanha no âmbito do acordo de cooperação entre o Reino de Espanha e a República Portuguesa relativo ao programa de reprodução em cativeiro do lince-ibérico. No entanto, até ao momento, “não foi recebida resposta por parte do ICNF”.

A organização considera igualmente fundamental que as autoridades portuguesas informem “de forma clara” as autoridades espanholas e os restantes agentes envolvidos na conservação da espécie sobre as decisões e alterações que estão a ocorrer.

Segundo o responsável, “o trabalho desenvolvido por Portugal foi absolutamente fundamental para a recuperação da espécie”. “A cooperação entre Portugal e Espanha desde o começo deste século permitiu desenvolver um dos programas de conservação mais bem-sucedidos do mundo para uma espécie ameaçada”.

Na sua opinião, “o centro de Silves desempenhou um papel estratégico dentro do programa de reprodução e a equipa portuguesa liderou, durante anos, aspectos chave da coordenação ibérica do programa ex-situ“.

Graças a este trabalho conjunto, o lince-ibérico tornou-se na primeira espécie a conseguir reduzir duas categorias de ameaça na Lista Vermelha da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN) em apenas 21 anos, passando de Criticamente Em Perigo para Vulnerável.

Precisamente por isso, conclui a organização, “preocupa tanto esta situação”.

“Estamos a falar de um programa que funciona e que demonstrou resultados extraordinários. Qualquer mudança deve ser feita com enormes garantias técnicas e evitando pôr em risco o conhecimento acumulado durante anos.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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