Uma investigação sobre a biodiversidade numa zona de exploração de mineração em mar profundo, antes e depois do teste de uma máquina de mineração, concluiu que o número de animais dentro das faixas mineradas diminuiu 37%.
As expedições aconteceram em 2022 numa planície abissal na zona Este do oceano Pacífico, a uma profundidade de 4,280 metros, alvo de mineração do fundo marinho pela empresa canadiana de mineração oceânica Metals Company.

Os resultados aos impactos de uma máquina de mineração de nódulos polimetálicos foram publicados a 5 de dezembro na revista Nature Ecology and Evolution. Neste trabalho participaram 14 investigadores de várias instituições.
O estudo foi liderado por cientistas do Museu de História Natural de Londres, da Universidade de Gotemburgo e do Centro Nacional de Oceanografia.
“Trabalho há mais de 20 anos na Zona Clarion-Clipperton (zona geológica de fratura submarina do Oceano Pacífico) e este é, de longe, o maior estudo que já realizámos”, comentou, em comunicado, Thomas Dahlgren, investigador na Universidade de Gotemburgo e co-líder do projeto.
A investigação levou cinco anos a concluir, com a equipa a passar mais de 160 dias no mar, no oceano Pacífico, e três anos de trabalho de laboratório.
Para separar os impactos ambientais do teste de mineração das mudanças naturais ao longo do tempo e do espaço, a equipa recolheu amostras em locais de controlo replicados em diferentes momentos, bem como em locais espacialmente equivalentes às áreas afetadas pela perturbação da mineração.

Para garantir que as amostras eram recolhidas dentro das faixas deixadas pela máquina coletora, a equipa utilizou um veículo operado remotamente (ROV), lançado do navio de investigação a quatro quilómetros de profundidade.
No total, foram recolhidos 4.350 animais macrofaunais – organismos visíveis a olho nu (0,3 mm – 2 cm) – de sedimento ao longo de quatro expedições. Os animais encontrados foram maioritariamente vermes marinhos (anelídeos poliquetas), seguidos de crustáceos (isópodes, tanáidos, anfípodes) e moluscos como caracóis e amêijoas.
Tendo em conta as flutuações naturais – possivelmente impulsionadas por mudanças no El Niño–Oscilação Sul -, o estudo verificou que, após o teste de mineração, as densidades de macrofauna diminuíram 37% no trajeto do coletor de nódulos, enquanto nos locais de controlo aumentaram ou permaneceram inalteradas.
Os locais afetados pela pluma de sedimento (como uma nuvem submarina com grande concentração de sedimentos finos suspensos na água), a cerca de 400 metros de distância, não mostraram alterações na abundância, mas revelaram mudanças na dominância de algumas espécies.

Em termos de biodiversidade, os investigadores registaram uma diminuição de 32% na riqueza de espécies nas áreas diretamente afetadas e num aumento da dominância de algumas espécies nas zonas impactadas pela pluma de sedimentos.
No geral, as comunidades tornaram-se mais variáveis após o teste, com os cientistas a observar uma maior dispersão e heterogeneidade dos organismos — um padrão consistente com estudos de impacto em águas rasas e ambientes terrestres.
“Poder estudar estas regiões profundas e pouco conhecidas é extremamente importante, à medida que ponderamos os potenciais impactos da mineração em mar profundo”, disse, em comunicado, Eva Stewart, autora principal e estudante de doutoramento do Museu e da Universidade de Southampton. “Finalmente, temos dados sólidos sobre os impactos que uma máquina moderna de mineração comercial pode provocar.”
Além disso, acrescentou, “descobrimos também muitas espécies novas e demonstrámos como o ecossistema abissal muda naturalmente ao longo do tempo.”
“Em Gotemburgo, liderámos a identificação dos vermes poliquetas, um dos grupos mais abundantes. Como a maioria das espécies é ainda desconhecida, os dados moleculares (ADN) foram cruciais para apoiar os estudos taxonómicos e fornecer os dados essenciais para o estudo ecológico”, acrescentou Thomas Dahlgren.

Tammy Horton, investigadora do Centro Nacional de Oceanografia e co-líder do projeto, explicou que “muitas novas espécies foram descobertas durante o estudo e estão agora a ser descritas”. “Estamos a assegurar que estes dados e espécimes estarão disponíveis para investigação futura. Este novo e vasto conjunto de dados ecológicos só foi possível através da colaboração entre várias instituições com ampla experiência nos diferentes grupos de animais.”
“Graças a um enorme esforço de equipa, envolvendo 14 autores e múltiplas instituições, os novos dados e interpretações podem agora informar as discussões políticas sobre mineração em mar profundo, fornecendo dados quantitativos reais sobre os impactos ao nível das espécies”, disse Adrian Glover, cientista de mar profundo no Museu de História Natural de Londres e autor sénior. Estes resultados constituirão uma base crucial de evidência e, esperamos, estabelecerão um novo padrão para o trabalho ambiental na região, regulada pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA).”
De futuro, acrescentou, será “importante tentar prever o potencial de perda de biodiversidade causada pela mineração. Para isso, será necessário investigar e realizar trabalhos taxonómicos nas regiões colocadas sob proteção pela ISA na CCZ. Atualmente, desconhecemos em grande medida quais espécies aí vivem e, por isso, qual o risco real de perda de biodiversidade nas áreas potencialmente mineradas.”

A equipa recolheu estes dados para garantir que informações vitais sobre biodiversidade estejam disponíveis para todos os que participam nas decisões sobre a sustentabilidade da mineração em mar profundo, desde o regulador até às organizações ambientais.
O estudo foi financiado principalmente por um contratante — obrigado a encomendar investigação independente para todos os interessados —, com financiamento adicional do Governo do Reino Unido (Natural Environment Research Council) para cofinanciar uma bolsa de doutoramento. Todos os dados apresentados no artigo estão disponíveis gratuitamente para consulta.