Um novo estudo liderado pela Universidade de Oxford concluiu que 30% das espécies de répteis confinadas em ilhas estão hoje ameaçadas, mas estes animais recebem muito menos atenção dos cientistas do que os seus congéneres continentais.
Das cerca de 12.000 espécies de répteis que são hoje conhecidas para a ciência, desde serpentes a lagartos e tartarugas, cerca de 30% estão restritas a ilhas, ou seja, são endémicas desses espaços, não existindo de forma natural noutros locais do planeta. E no entanto, as ilhas representam uma percentagem muito menor da superfície terrestre, que não chega a 7% do total.
“Estes ecossistemas isolados atuam como laboratórios naturais da evolução, onde as espécies se adaptam e diversificam em ambientes únicos”, nota um comunicado divulgado pela Universidade de Oxford, que liderou um estudo publicado esta quinta-feira na revista Conservation Science and Practice. Além do mais, os répteis possuem características que os ajudam a adaptar-se de forma excepcional aos ecossistemas insulares, como a pele impermeável e o facto de conseguirem sobreviver por longos períodos sem comida ou bebida.

No entanto, esse isolamento que torna estes animais tão únicos e diferentes faz também com que sejam mais vulneráveis: 30% dos répteis que ocorrem apenas em ilhas estão ameaçados de extinção, mais do dobro dos 12,1% que se encontram nesta situação por todo o mundo, notam os autores do estudo. Em causa está o facto de muitos desses animais terem evoluído em locais sem mamíferos que os perseguiam, pelo que ao longo do tempo não desenvolveram defesas contra predadores.
Mas apesar desse maior risco de extinção, ao analisarem os estudos científicos dedicados a répteis desde os anos 1960, os investigadores concluíram que apenas 6,7% do total se tinham focado em espécies insulares.
A lagartixa-da-Madeira
Isto, apesar de os répteis serem fundamentais para muitos ecossistemas em ilhas por todo o mundo. “A lagartixa da Madeira, por exemplo, foi registada como uma das espécies visitantes das flores de Echium candicans, uma planta que é endémica do arquipélago da Madeira, contribuindo para o transporte de pólen e consequente polinização”, indicou à Wilder a primeira autora deste estudo, Sara Nunes, que está ligada ao CIBIO-InBIO (Universidade do Porto).

Outro exemplo importante apontado pela investigadora são as iguanas terrestres nas ilhas Galápagos, que “desempenham papéis importantes de ‘engenheiros de ecossistema'”. “Estes animais são herbívoros e podem alterar substancialmente a estrutura e composição das comunidades vegetais, ao contribuir para a dispersão de sementes a longas distâncias. Estas alterações vão ter impacto noutros vertebrados terrestres, porque com a alteração da vegetação vai haver uma mudança na estrutura do habitat”, descreve Sara Nunes, que explica o que se passa por exemplo com os leões-marinhos nas Galápagos. “A densidade de plantas lenhosas pode dificultar o movimento dos leões marinhos quando procuram sítios para se aquecer, e as zonas com vegetação mais esparsa, consumida pelas iguanas, tornam-se um habitat mais adequado.”
A equipa comparou o volume de estudos científicos publicados entre 1960 e 2021, tanto aqueles dedicados aos répteis de ilhas como os que se focaram em répteis continentais, analisando vários fatores: tamanho da espécie, as áreas de distribuição, a geografia e a influência do contexto socioeconómico sobre o foco de cada pesquisa. Concluíram que as espécies maiores e com maior distribuição global recebem mais atenção, enquanto que répteis mais pequenos, que tenham sido descritos mais recentemente ou circunscritos a ilhas de grandes altitudes continuam em grande parte por estudar.
“Muitos dos répteis mais únicos do mundo – aqueles que evoluíram de forma isolada em ilhas – são os menos conhecidos”, nota a mesma responsável. “Esta lacuna no conhecimento é especialmente preocupante porque essas espécies muitas vezes têm pequenas áreas de distribuição e enfrentam pressões humanas intensas”, afirma.

As causas dessa disparidade incluem a dificuldade de chegar a muitos territórios insulares, mas também uma inclinação maior dos cientistas para estudarem répteis mais carismáticos ou importantes para a medicina e a falta de recursos financeiros de muitos governos insulares. E mesmo quando estas nações têm poder económico – indica a equipa – esse dinheiro tende a ser aplicado no setor do turismo e não em investigação dedicada à biodiversidade.
Prevenir perdas irreversíveis
O problema é que a investigação científica é importante para o desenho de medidas e estratégias de conservação para essas espécies, avisam estes investigadores. “À medida que cresce a crise da biodiversidade, compreender e proteger os répteis das ilhas nunca foi tão urgente”, sublinha Ricardo Rocha, que coordenou este estudo e é professor de ciência da conservação na Universidade de Oxford. “Focarmos os esforços científicos e de conservação onde são mais necessários – por exemplo em ilhas e nas suas espécies de répteis que são únicas – é essencial para prevenir perdas irreversíveis. Imaginem o que seria visitar a ilha de Komodo e não ver os seus dragões. Não seria a mesma coisa, pois não?”, questiona o investigador madeirense.
Sobre a importância de protegermos esses répteis que muitas vezes são os únicos do seu grupo (filo), Sara Nunes lembra que “estas espécies com elevada singularidade taxonómica são frequentemente invulgares na sua aparência, modo de vida e comportamento, bem como na sua estrutura genética”.

“Representam uma parte única e insubstituível do património natural mundial, e se forem negligenciadas, sem o desenvolvimento de investigação que sirva de base para estratégias de conservação, existirá uma grande perda para a biodiversidade. A perda dessas espécies apaga segmentos únicos da história evolutiva”, alerta a investigadora, que dá como exemplo as tuataras – a última espécie sobrevivente da ordem Rhynchocephalia, cuja extinção “significaria a perda de toda uma linhagem, o que seria uma enorme redução na diversidade filogenética.”
Os autores do estudo recomendam quatro medidas que podem ser tomadas, para contrabalançar o atual desequilíbrio no estudo dos répteis: dar prioridade à investigação focada em répteis endémicos de ilhas, em especial os que correm mais risco de extinção ou com pouca informação; incentivar colaborações entre instituições nacionais e comunidades insulares, de forma a construir capacidade local; incorporar conhecimento proveniente de outras fontes para além de estudos científicos, como relatórios de ONGs, de agências governamentais e instituições locais; por fim, traduzir e integrar estudos escritos em línguas que não o inglês, para se conseguir uma imagem mais real da pesquisa dedicada a estes animais, a nível mundial.