Lince-ibérico, cria. Foto: Programa Ex-situ (arquivo)

População de lince-ibérico superou os 2 000 animais em 2023 e quebra novo recorde

O censo de lince-ibérico (Lynx pardinus) na Península Ibérica chegou aos 2021 indivíduos. Em três anos, esta espécie Em Perigo de extinção conseguiu duplicar a população, revelou hoje o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Destes 2021 linces que hoje vivem em liberdade nos campos de Portugal e Espanha – comparados com os 1000 animais registados em 2020 – , 1299 são adultos ou subadultos e 722 são crias nascidas em 2023.

A 19 de Maio de 2023 soube-se que existiam 1.668 linces-ibéricos no mundo, segundo os dados do censo anterior à espécie.

Em Portugal vivem agora 291 linces-ibéricos, distribuídos pelos concelhos de Serpa, Mértola, Castro Verde, Alcoutim e Almodôvar. Segundo contou anteriormente à Wilder Pedro Sarmento, coordenador e responsável técnico do programa in situ para o lince-ibérico, “existe um lince isolado no concelho de Castelo Branco e pelo menos dois em Ferreira do Alentejo”.

O relatório feito pelo Grupo de Trabalho do Lince-Ibérico – composto por representantes das comunidades autónomas espanholas e do ICNF – refere que do total de 2021 linces recenseados, 85,6% estão em Espanha, correspondendo a 1730 animais. As comunidades autónomas espanholas que albergam populações estáveis da espécie são quatro: Andaluzia acolhe 755 exemplares, o que representa 43,6% da população espanhola, enquanto em Castela-La Mancha registaram-se 715 linces (41,3%). Na Extremadura recensearam-se 253 exemplares e na Região de Múrcia sete.

Dos linces adultos ou subadultos, 602 são machos e 611 são fêmeas (animais cujo sexo pôde ser identificado).

“O número de fêmeas reprodutoras ou territoriais em 2023 ascende a 406, que são mais 80 do que em 2022, e que se aproximam paulatinamente das 750 fêmeas reprodutoras que se considera preliminarmente como um dos objetivos demográficos a alcançar para considerar que o lince se encontrará num estado de conservação favorável”, explica o ICNF.

O número de crias nascidas em 2023 também aumentou até aos 722, com uma taxa de fecundidade de 1,77 calculada como o número de crias nascidas entre o número de fêmeas territoriais.

Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

A população de lince continua em expansão e já são 14 as áreas geográficas distintas onde a espécie se reproduz. Há novas áreas de presença estável na Região de Murcia e nas províncias de Albacete, Badajoz, Toledo e Ciudad Real, em Espanha, e na província do Algarve, em Portugal.

“A tendência da população é positiva e assim prossegue desde 2015, o que permite mantermo-nos otimistas devido à diminuição do risco de extinção do lince-ibérico que daí decorre.”

Em cerca de 20 anos, a população passou de menos de 100 exemplares contabilizados em 2002 a mais de 2000 em 2023. “E nos últimos anos o incremento é ainda mais evidente, dado que em 2020 a população total era de 1 111 linces e apenas três anos decorridos adicionaram-se quase 900 indivíduos à população ibérica.”

A reprodução em cativeiro, conservação ex-situ, permitiu a libertação de 372 linces nascidos em cativeiro desde 2011 até 2023, em áreas de reintrodução aprovadas pelo Grupo de Trabalho, que se espera se ampliem em Espanha para novas comunidades autónomas como Aragão, Castela e Leão e Madrid e uma nova área em Portugal, ainda em avaliação.

O programa de conservação ex situ “foi uma peça chave para a recuperação do lince”, graças aos centros de reprodução: Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) em Silves, Centro de La Olivilla (Jaén), Centro de Zarza de Granadilla (Cáceres) e Centro de El Acebuche (Huelva).

Desde que em 2011 começaram em Espanha, e em 2015 em Portugal, as primeiras libertações no meio natural de indivíduos nascidos em cativeiro, até 2023 foram reintroduzidos 372 exemplares.

Solta de lince-ibérico no Vale do Guadiana, em Fevereiro de 2019. Foto: ICNF

Às áreas de reintrodução inicialmente selecionadas para a libertação de linces – que foram Vale do Guadiana em Portugal, Guarrizas e Guadalmellato na Andaluzia, Montes de Toledo e Sierra Morena Oriental em Castilla- La Mancha, e Matachel na Extremadura – foram incorporadas as mais recentes novas zonas de reintrodução aprovadas pelo grupo de trabalho do lince-ibérico ao verificar-se o cumprimento dos requisitos ecológicos e sociais para abordar a reintrodução.

Assim, os núcleos de Sierra Arana na Andaluzia, Valdecañas-Ibores e Ortiga na Extremadura, Tierras Altas de Lorca na Região de Murcia e Campos de Hellín em Castilla-La Mancha já contam com exemplares libertados e estabilizados de lince-ibérico.

Outras zonas de conexão também acolhem linces de maneira estável, seja através de libertações de exemplares nascidos em cativeiro seja através de fixação natural de exemplares silvestres, nas províncias de Sevilha, Toledo ou no Parque Nacional de Cabañeros.

O ICNF acredita que “o número de áreas selecionadas para efetuar a reintrodução aumente nos próximos meses e anos, devido ao interesse de várias comunidades autónomas para avaliar a adequabilidade da recuperação do lince nos seus territórios. Estas avaliações estão sendo ultimadas para o caso de várias áreas com condições muito favoráveis para o lince em Aragão, Castilla e León e Madrid, embora se encontrem ainda a aguardar pela sua apresentação e aceitação consensualizada perante o grupo de trabalho do lince-ibérico em Espanha e em Portugal”.

Fêmea e crias no CNRLI. Foto: Joana Bourgard/Wilder (arquivo)

“A recuperação da população de lince-ibérico em Espanha e em Portugal constitui um dos melhores exemplos de ações de conservação de espécies ameaçadas no mundo e foi possível graças aos esforços coordenados realizados tanto pelas administrações públicas competentes como por entidades setoriais interessadas, proprietários e gestores de herdades privadas e pela sociedade em geral”, salienta o ICNF. “A contribuição financeira das administrações espanholas e portuguesas e da União Europeia, através do programa LIFE, constituíram condições chave para a execução dos trabalhos de seguimento e investigação e para a melhoria das taxas de sobrevivência, reprodução e reabilitação do habitat.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.