PUB

Papagaios-do-mar vítimas do mau tempo, encontrados em praias portuguesas, sobem para mais de 1700

20.02.2026
leitura de 3 minutos
Papagaios-do-mar (Fratercula arctica). Foto: Henning Allmers/Wiki Commons

Dados que estão a ser compilados pela SPEA mostram que esta foi de longe a ave marinha mais afetada pelos temporais, em Portugal. Litoral Norte e Peniche são as áreas com mais arrojamentos registados.

O número de papagaios-do-mar (Fratercula arctica) encontrados mortos na costa portuguesa, afetados pelos temporais em alto mar, tem estado a crescer de forma regular e os registos já ultrapassam as 1700 aves, indicou esta sexta-feira à Wilder o responsável pela coordenação destes dados na Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Birdlife), Hany Alonso.

Em causa está uma ave marinha que nas águas portuguesas é considerada invernante e também migradora de passagem, mas por ser uma espécie de alto mar é muito raramente observada a partir da costa e mesmo com o auxílio de embarcações é difícil de monitorizar. Costuma ser encontrada em arrojamentos nesta época do ano, mas não em números tão elevados.

Os dados recolhidos pela SPEA, recebidos através da plataforma ICAO – Inspeção Costeira de Aves e outra Fauna (online e app) e também por email, mostram que a maioria das aves está a ser encontrada nas praias do concelho de Peniche e também no Litoral Norte, em especial em Esposende, mas também na Póvoa de Varzim. Aveiro é outra das regiões com mais registos, incluindo as praias de Mira, Murtosa e Vagos.

No entanto, essa informação mostra só uma parte da realidade, alerta Hany Alonso, que sublinha que o número real de vítimas será bastante superior, pois não são contabilizados papagaios-do-mar que nunca chegaram a terra ou aqueles que arrojaram em locais não visitados. Para já, os números não incluem também aves encontradas ainda vivas e enviadas para centros de recuperação de fauna selvagem.

Pior do que há três anos

Os primeiros alertas começaram a surgir no final de janeiro, com dezenas de aves, mortas ou debilitadas, encontradas à beira-mar – a grande maioria papagaios-do-mar, enquanto que nos Açores houve notícias de arrojamentos de muitas dezenas de tordas-anãs. Há pouco mais de uma semana, já havia notícia de cerca de 400 papagaios-do-mar encontrados no litoral português, uma situação que está a afetar também nas costas da Galiza e de França, onde já arrojaram milhares de aves.

Mas esta não é a primeira vez que os arrojamentos desta espécie acontecem em números fora do comum – bastante superiores ao normal nesta altura do ano, em que costumam morrer muitos papagaios-do-mar ainda juvenis, durante o seu primeiro inverno, e alguns dão à costa portuguesa.

Em 2023, houve notícias de uma onda semelhante de arrojamentos, mas com números mais baixos e numa área mais circunscrita, lembra Hany Alonso.

Registos de observações ajudam a avaliar impactos

A SPEA, que se dedica ao estudo e conservação das aves em Portugal, tem apelado a que as pessoas que encontram aves arrojadas partilhem os seus registos através da plataforma ICAO ou para o email desta organização não governamental.

“Queremos compreender o impacto que esta mortalidade maciça pode ter sobre a espécie e sobre as suas populações em águas portuguesas”, afirma o técnico superior de ciência da SPEA, que explica que esses efeitos serão diferentes, dependendo da idade das aves que estão a morrer. Outra questão para a qual se procuram respostas é a confirmação das potenciais causas de mortalidade, que estarão ligadas à dificuldade de alimentação em alto mar, devido ao mau tempo, e ao cansaço extremo.

Hany Alonso acredita que os números de papagaios-do-mar encontrados nas praias vão começar a descer em breve, uma vez que a onda de tempestades acalmou entretanto. Mas para já, avisa, é possível que morram ainda mais alguns, já demasiado enfraquecidos para sobreviverem.


De acordo com a SPEA, se encontrar uma ave viva mas debilitada, deve contactar o SEPNA/GNR ou o ICNF.

Caso estas entidades não consigam dar resposta, se conseguir transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave (usando luvas ou uma peça de roupa para lhe pegar), colocá-la numa caixa de cartão, e transportá-la o mais rapidamente possível para o centro de recuperação mais próximo.

A SPEA adverte que não deve tentar alimentá-la ou dar-lhe água, pois o ideal será que seja avaliada pela equipa veterinária no centro de recuperação, para lhe prestarem os cuidados adequados.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca