Dados que estão a ser compilados pela SPEA mostram que esta foi de longe a ave marinha mais afetada pelos temporais, em Portugal. Litoral Norte e Peniche são as áreas com mais arrojamentos registados.
O número de papagaios-do-mar (Fratercula arctica) encontrados mortos na costa portuguesa, afetados pelos temporais em alto mar, tem estado a crescer de forma regular e os registos já ultrapassam as 1700 aves, indicou esta sexta-feira à Wilder o responsável pela coordenação destes dados na Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Birdlife), Hany Alonso.
Em causa está uma ave marinha que nas águas portuguesas é considerada invernante e também migradora de passagem, mas por ser uma espécie de alto mar é muito raramente observada a partir da costa e mesmo com o auxílio de embarcações é difícil de monitorizar. Costuma ser encontrada em arrojamentos nesta época do ano, mas não em números tão elevados.
Os dados recolhidos pela SPEA, recebidos através da plataforma ICAO – Inspeção Costeira de Aves e outra Fauna (online e app) e também por email, mostram que a maioria das aves está a ser encontrada nas praias do concelho de Peniche e também no Litoral Norte, em especial em Esposende, mas também na Póvoa de Varzim. Aveiro é outra das regiões com mais registos, incluindo as praias de Mira, Murtosa e Vagos.
No entanto, essa informação mostra só uma parte da realidade, alerta Hany Alonso, que sublinha que o número real de vítimas será bastante superior, pois não são contabilizados papagaios-do-mar que nunca chegaram a terra ou aqueles que arrojaram em locais não visitados. Para já, os números não incluem também aves encontradas ainda vivas e enviadas para centros de recuperação de fauna selvagem.
Pior do que há três anos
Os primeiros alertas começaram a surgir no final de janeiro, com dezenas de aves, mortas ou debilitadas, encontradas à beira-mar – a grande maioria papagaios-do-mar, enquanto que nos Açores houve notícias de arrojamentos de muitas dezenas de tordas-anãs. Há pouco mais de uma semana, já havia notícia de cerca de 400 papagaios-do-mar encontrados no litoral português, uma situação que está a afetar também nas costas da Galiza e de França, onde já arrojaram milhares de aves.
Mas esta não é a primeira vez que os arrojamentos desta espécie acontecem em números fora do comum – bastante superiores ao normal nesta altura do ano, em que costumam morrer muitos papagaios-do-mar ainda juvenis, durante o seu primeiro inverno, e alguns dão à costa portuguesa.
Em 2023, houve notícias de uma onda semelhante de arrojamentos, mas com números mais baixos e numa área mais circunscrita, lembra Hany Alonso.
Registos de observações ajudam a avaliar impactos
A SPEA, que se dedica ao estudo e conservação das aves em Portugal, tem apelado a que as pessoas que encontram aves arrojadas partilhem os seus registos através da plataforma ICAO ou para o email desta organização não governamental.
“Queremos compreender o impacto que esta mortalidade maciça pode ter sobre a espécie e sobre as suas populações em águas portuguesas”, afirma o técnico superior de ciência da SPEA, que explica que esses efeitos serão diferentes, dependendo da idade das aves que estão a morrer. Outra questão para a qual se procuram respostas é a confirmação das potenciais causas de mortalidade, que estarão ligadas à dificuldade de alimentação em alto mar, devido ao mau tempo, e ao cansaço extremo.
Hany Alonso acredita que os números de papagaios-do-mar encontrados nas praias vão começar a descer em breve, uma vez que a onda de tempestades acalmou entretanto. Mas para já, avisa, é possível que morram ainda mais alguns, já demasiado enfraquecidos para sobreviverem.
De acordo com a SPEA, se encontrar uma ave viva mas debilitada, deve contactar o SEPNA/GNR ou o ICNF.
Caso estas entidades não consigam dar resposta, se conseguir transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave (usando luvas ou uma peça de roupa para lhe pegar), colocá-la numa caixa de cartão, e transportá-la o mais rapidamente possível para o centro de recuperação mais próximo.
A SPEA adverte que não deve tentar alimentá-la ou dar-lhe água, pois o ideal será que seja avaliada pela equipa veterinária no centro de recuperação, para lhe prestarem os cuidados adequados.