Na costa continental portuguesa têm arrojado centenas de aves marinhas, na sua grande maioria papagaios-do-mar. Algumas, encontradas vivas, estão a ser acolhidas em centros de reabilitação de fauna selvagem. Saiba como ajudar.
Afonso Castanheira, coordenador da associação Mestres do Oceano, não tem tido mãos a medir para vigiar os efeitos do mau tempo nestes últimos dias, a percorrer regularmente as praias do concelho de Peniche, para apanhar as enormes quantidades de lixo acumuladas na areia e registar as dezenas de aves que vai encontrando arrojadas, praticamente todas de uma única espécie.
Esta segunda-feira, tinha contado um total de 39 papagaios-do-mar (Fratercula arctica) ao longo da costa do município – todos já sem vida, muitos deles com ar de terem morrido poucas horas antes, descreveu à Wilder. Esta quarta-feira, o cenário com que se deparou foi bastante pior: “da Consolação ao Molhe Leste, encontrámos 79 papagaios-do-mar, duas tordas-anãs (Alle alle) e um alcatraz-do-norte (Morus bassanus)”, indicou Afonso na sua conta no Instagram, explicando que estavam todos mortos.
“Imaginem a nível nacional… Isto está muito feio”, lamentou. Nas praias do Porto, por exemplo, soube esta semana que tinham sido encontrados 35 papagaios-do-mar mortos e um vivo, entregue no Centro de Recuperação do Parque Biológico de Gaia. Já na Praia Azul de Torres Vedras, foram contabilizadas esta quarta-feira outras 36 aves sem vida, da mesma espécie. Mais a sul, em Tróia, também teve notícas de várias centenas (ou mesmo milhares) na mesma situação.

Ao todo, de acordo com a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), foram já encontrados mais de 400 papagaios-do-mar mortos nalgumas praias portuguesas monitorizadas por voluntários e organizações, mas essa é “apenas uma parte do total”.
“Tem havido registos de arrojamentos ao longo de toda a costa continental e também no arquipélago dos Açores“, confirma Hany Alonso, da SPEA, que sublinha que “o maior número de registos de papagaios-do-mar arrojados se concentra na região Norte, embora haja também várias ocorrências no Centro, nomeadamente na região de Peniche”.
Hany Alonso sublinha ainda que todas as observações de aves arrojadas nas praias, vivas ou mortas, podem ser partilhadas com a SPEA ou através da plataforma do programa ICAO (disponível em app ou online), dedicado à inspeção costeira de aves e outra fauna. “Precisamos da ajuda dos cidadãos para perceber a verdadeira dimensão da situação. Nestas plataformas é possível fazer o upload de fotografias das aves, que ajudam a confirmar a identificação e determinar a sua idade, e pode ser incluída informação sobre anilhas que as aves tenham ou outras informações adicionais.”
Nas últimas duas semanas, também têm sido observados muitos arrojamentos de papagaios-do-mar em Espanha e em França, “sobretudo na Galiza (mais de 400 registos de arrojamentos) e na costa atlântica de França (mais de 200 registos)”, refere este técnico sénior de ciência da SPEA.
“É por isso uma situação que está a ocorrer a uma escala espacial grande, que cobre sobretudo a costa norte atlântica da Península Ibérica e também a costa atlântica francesa, e que por isso poderá ter algum impacto sobre a espécie”, detalha Hany Alonso, que recorda que “no inverno de 2022/23 já tinha havido um arrojamento massivo de papagaios-do-mar na costa portuguesa, com mais de 1700 papagaios arrojados registados num período de apenas duas semanas.”
Aves “muito debilitadas” no CRASM, em Montejunto
Apesar de encontrar um grande número de aves mortas, Afonso Castanheira já entregou nos últimos dias alguns papagaios-do-mar ainda vivos no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto (CRASM), mas contam-se pelos dedos de uma mão. Sorte teve também uma gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), que Afonso deixou aos cuidados do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Mas o responsável da associação Mestres do Oceano não foi o único a recorrer ao CRASM para socorrer animais afetados pelos temporais. Segundo Beatriz Neves, médica veterinária neste centro situado na aldeia da Tojeira, no Cadaval, nos últimos dias quase todos os que ali deram entrada são vítimas do mau tempo; destes, a maioria são aves marinhas, nomeadamente papagaios-do-mar, gaivotas-de-patas-amarelas e gaivotas-prateadas. Têm conhecimento de ocorrências em toda a costa portuguesa. Têm recebido, em média, três animais por dia, alguns já mortos, trazidos pela GNR e por particulares.
Actualmente, este centro gerido pela Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, e onde trabalham a tempo inteiro três pessoas (duas médicas veterinárias e uma bióloga), tem cerca de 40 animais nas suas instalações.
“As aves estão a ser empurradas pelo vento, pela ondulação do mar muito forte e pela chuva”, contou Beatriz Neves à Wilder. “Chegam muito debilitadas, depois de dias a lutar constantemente contra a tempestade. As aves marinhas, perante este cenário de mau tempo, podem perder a impermeabilização das suas penas e ficarem encharcadas, tornando-se assim muito pesadas e podendo mesmo afogar-se.”
Muitas aves morrem em alto mar e arrojam já sem vida.

Nestes últimos tempos, este centro não tem recebido muitas aves terrestres, até porque o período das crias ainda não começou e as pessoas não têm estado tão atentas. Ainda assim, deu entrada uma cria de coruja-do-mato, depois de o seu ninho no centro da cidade de Leiria não ter resistido às fortes tempestades, uma cegonha-branca vítima de electrocussão e uma outra coruja-do-mato com traumatismo craniano.
Papagaios-do-mar em fase de muda
Mais a norte, no Centro de Reabilitação de Animais Marinhos (CRAM) do ECOMARE, na Gafanha da Nazaré, concelho de Ílhavo, foram acolhidas 35 aves desde 22 de janeiro, quando começou o mau tempo – a grande maioria (83%) afetadas pelos temporais, quase exclusivamente papagaios-do-mar, indica Catarina Eira, coordenadora deste centro ligado à Universidade de Aveiro, onde é professora.
Alguns das aves chegaram ali vindas de Lisboa, do centro de recuperação de animais selvagens LxCRAS, mas têm recebido também alertas de toda a área até Esposende, ao Norte, tanto de animais vivos como mortos. No CRAM, aliás, estavam vivas apenas 52% das aves recebidas nas últimas semanas, mas Catarina Eira ressalva que esta percentagem não é representativa que se estará a passar por todo o litoral, uma vez que souberam de “muitos papagaios mortos em toda a costa que não têm sido contabilizados”.

Quanto às aves com vida, têm estado a ser encaminhadas para o CRAM, para o CRASM e para outros centros de recuperação. “A maioria chega em estado já muito crítico e são necessários cuidados especializados para aumentar as hipóteses de sobrevivência. Mesmo assim, a percentagem de sobrevivência não é muito animadora”, lamenta a coordenadora.
As causas desta situação serão semelhantes ao que sucedeu há três anos, quando inúmeros papagaios-do-mar arrojaram nas praias portuguesas. “Estas aves têm um comportamento gregário formando grupos muito grandes. Muitos deles estão em fase de muda, o que nesta espécie significa que a capacidade de voo é muito reduzida”, explicou nessa altura esta bióloga, explicando que tanto “as condições climatéricas adversas durante um período prolongado” como a dificuldade de se alimentarem nestas condições podem ajudar a explicar o sucedido.
Nascidos na Irlanda e na parte ocidental do Reino Unido
Paulo Catry, professor e investigador do MARE – Centro de Ciências Marinhas e Ambientais e do ISPA – Instituto Universitário, explicou à Wilder, em 2023, que os papagaios-do-mar não se reproduzem em Portugal e são raramente avistados a partir de terra, até porque são aves de alto mar. Ainda assim, em águas portuguesas “não parecem ser raros no outono e inverno”, sendo que por aqui são observados sobretudo papagaios-do-mar que se reproduzem na Irlanda e na parte ocidental do Reino Unido.
Por estes dias, muitos papagaios-do-mar nascidos na Irlanda, que costumam migrar em direção ao continente americano, estão em migração, de regresso às costas europeias, acrescentou este investigador, acrescentando que “outros invernam no Mediterrâneo e podem estar agora a regressar mais para norte.”
Como pode ajudar
O que devemos fazer, se encontrarmos uma ave destas arrojada? “O mais importante para a sobrevivência destes animais é que eles consigam chegar aos centros de reabilitação. As pessoas que encontram aves arrojadas devem contactar as autoridades ou os vigilantes da natureza, consoante a área do país onde se encontrarem”, responde Catarina Eira. “Nas regiões onde existem centros de reabilitação, podem ainda contactá-los e perceber qual será a melhor maneira de proceder em cada caso. É essencial não esquecermos que são animais selvagens particularmente sensíveis e o contacto humano deve ser o mais reduzido possível.”
Contactar o SEPNA (GNR) ou o ICNF é outra opção importante, pois poderão recolher e transportar a ave para um centro de recuperação, nota Hany Alonso, da SPEA. “Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto (usando luvas ou uma peça de roupa), colocando a ave numa caixa de cartão, e transportando-a o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, aconselha também.

Centro de recuperação afetado pelas tempestades
Mas também alguns dos centros de recuperação têm sido afetados pelo mau tempo, como aconteceu com o CRASM, na região de Montejunto. Além da queda de braçadas de uma árvore que impediu o acesso a um túnel de voo, entretanto resolvida com ajuda da junta de freguesia, também estiveram sem água nem luz, o que tornou difícil o trabalho. “Por exemplo, não conseguíamos aquecer os animais com as botijas que costumamos usar. Mas resolveu-se o problema com mantas e com calor corporal. Depois de dois a três dias, a luz voltou”, descreveu Beatriz Neves.
“As pessoas podem ajudar estando atentas a estas situações, passando a mensagem de que o CRASM existe e se encontrarem um animal podem ligar-nos”, acrescenta esta médica veterinária do centro. Outras formas de ajuda pessam pelo programa de voluntariado, pelo apadrinhamento de animais e recolha de donativos, incluindo equipamentos e produtos que fazem falta.
Neste momento, informou, devido a infiltrações provocadas pela chuva, este centro gerido pela Quercus necessita de uma máquina de lavar roupa, que “pode ser em segunda mão”. “Trata-se de um eletrodoméstico de utilização diária, essencial para garantir a limpeza e desinfeção de toalhas, mantas e almofadas, usadas sobretudo por animais em estado crítico”, refere Beatriz Silva.
Outros produtos benvindos são patés de cão e gato, por exemplo, e ainda outros materiais como por exemplo papel de cozinha, detergente e esponjas de loiça, detergente e amaciador de roupa, resguardos, sisal, máscaras cirúrgicas e transportadoras.
Nota: Artigo atualizado no dia 12/2, pelas 14h, com dados novos da SPEA sobre a contabilização de papagaios-do-mar encontrados mortos nalgumas praias portuguesas e sobre o uso da plataforma ICAO.
Agora é a sua vez.
Se tiver disponibilidade para ajudar a apanhar lixo e vigiar as praias, e viver na zona de Peniche, pode contactar com Afonso Castanheira (Mestres do Oceano), no Instagram.
Caso encontre alguma ave ou outro animal em situação crítica, poderá utilizar estes contactos. Pode ainda ler este artigo publicado em parceria com a SPEA, em 2022.