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Saiba como os nossos padrões de consumo estão a afectar a natureza noutros lugares

08.03.2019
leitura de 2 minutos
troncos de madeira empilhados
Foto: Pixabay

Os alimentos que comemos e os cosméticos que usamos têm impactos negativos sobre a biodiversidade de outras regiões do mundo, mas até que ponto? Uma equipa internacional de investigadores conseguiu agora calcular esses efeitos.

 

A equipa liderada por Henrique Pereira, investigador do CIBIO-InBIO, ligado à Universidade do Porto, decidiu analisar as mudanças no uso de solo e das trocas comerciais entre 2000 e 2011, por todo o mundo, estimando os impactos sobre a biodiversidade e os serviços de ecossistema. Os resultados foram publicados na última segunda-feira, na revista Nature Ecology & Evolution.

Para analisar os impactos na biodiversidade, os cientistas concentraram-se na riqueza de espécies de aves. Quanto aos impactos nos serviços de ecossistema, optaram por investigar o sequestro de carbono, “um serviço de ecossistema chave para mitigar as alterações climáticas”.

Conclusão? Durante os 11 anos analisados, o uso do solo até se tornou mais eficiente, mas esse ganho não chegou para compensar os efeitos do crescimento da população mundial e as mudanças dos padrões de consumo.

É verdade que tanto na Europa Ocidental como na América do Norte, o impacto da agricultura e da indústria florestal (produção de madeira e combustíveis) diminuiu entre 2000 e 2011, admitem os investigadores. Isso terá sido em parte devido à crise financeira de 2007 e 2008, pelo que essa melhoria poderá ser temporária.

Em contrapartida, aperceberam-se de que os produtos consumidos nessas regiões estão a ter cada vez mais efeitos negativos sobre a natureza em pontos distantes do planeta. “Os padrões de consumo de um cidadão médio na América do Norte, Europa Ocidental, Europa de Leste e Médio Oriente estão a conduzir a impactos na biodiversidade de outros lugares”, alertam. “O mesmo acontece com o sequestro de carbono, com excepção da Europa de Leste.”

América Central e do Sul, África e Ásia têm sido as regiões com maiores perdas de biodiversidade, “com uma parte importante da responsabilidade atribuída ao comércio internacional.” Por exemplo, em 2011, cerca de um terço  (33%) dos impactos na biodiversidade na América Central e do Sul e mais de um quarto (26%) desses impactos em África foram causados pelo consumo noutras regiões do mundo.

Os investigadores estimaram também que as actividades agrícola e florestal, entre 2000 e 2011, deverão ser responsáveis pela extinção de 121 espécies de aves no mundo. Em comparação, tendo em conta qualquer acção humana, desde o início do século XVI perderam-se 140 espécies de aves.

Houve ainda um aumento de 6% na perda de carbono sequestrado, para menos 3,4 giga-toneladas por ano, ao longo dos 11 anos analisados.

 

Gado, industria florestal e óleo de palma

Mas quais são os produtos com maior impacto? Por exemplo, a criação de gado, ligada ao aumento mundial no consumo de carne, foi identificada como a causa principal da extinção de espécies de aves. Já as actividades florestais causaram as maiores perdas no sequestro de carbono.

No entanto, a produção de óleos de sementes demonstrou ser a actividade que mais contribuiu para o crescimento dos impactos nas aves e a segunda que mais contribuiu para o aumento das perdas no sequestro de carbono.

Em causa está por exemplo o óleo de palma, usado hoje em dia em muitos alimentos, produtos cosméticos e também nos biocombustíveis. A produção agrícola deste produto é a principal causa da desflorestação nos trópicos.

A equipa espera que as conclusões do estudo ajudem a evitar a extinção de mais espécies e novos impactos sobre os serviços de ecossistema. “Para lidarem com a crise da biodiversidade, os governos deviam (…) reconhecer a sua responsabilidade remota e promover uma mudança no desenvolvimento económico para actividades com baixo impacto na biodiversidade”, avisam os autores do artigo.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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