PUB

O nosso desejo de exclusividade e o fascínio por raridades estão a empurrar a enguia para a extinção

25.09.2025
leitura de 5 minutos
Enguia juvenil (Anguilla anguilla), capturada durante o seguimento científico da espécie no rio Oria. Foto: AZTI

A enguia europeia (Anguilla anguilla) está Criticamente Em Perigo de extinção há duas décadas. A sua raridade e o nosso desejo por exclusividade estão a levar à sua extinção definitiva, alerta novo estudo.

Um estudo liderado pela Estación Biológica de Doñana do Conselho Superior espanhol de Investigações Científicas (EBD-CSIC), publicado no final de agosto na revista Conservation Letters, demonstra que a própria escassez da espécie, combinada com o desejo humano de consumir produtos exclusivos, gera uma espiral de extinção que permite que a enguia continue a ser pescada e comercializada até à sua extinção definitiva.

Muitas vezes, a exploração comercial de espécies selvagens leva ao declínio das suas populações ou à redução das suas áreas de distribuição. Nestas situações, é necessário investir mais tempo ou deslocar-se para locais mais distantes para continuar a capturar indivíduos, até que se atinge um ponto em que os custos da captura deixam de ser compensados pelos lucros obtidos com a sua venda. Dá-se então uma cessação da exploração que, por sua vez, pode permitir a recuperação das populações.

Contudo, por vezes, a escassez de uma espécie leva a um aumento do seu valor no mercado. Isto deve-se ao facto de a raridade ser valorizada como símbolo de estatuto. Quanto mais raro é o objeto de desejo, maior é o preço que alguns consumidores estão dispostos a pagar por ele.

Quando esta lógica se aplica a espécies em declínio que continuam a ser exploradas comercialmente, pode criar-se uma espiral de extinção ligada ao mercado – um processo auto-alimentado que favorece a exploração comercial até ao último indivíduo da espécie.

“Estes processos já foram descritos em diversos organismos, como rinocerontes, pangolins ou tubarões”, disse, em comunicado, Miguel Clavero, investigador da EBD-CSIC e autor principal do estudo. “Agora, o nosso trabalho demonstra que o mesmo está a acontecer com a enguia, promovendo a sua extinção.”

De prato popular a iguaria de luxo

A equipa científica centrou-se na exploração da enguia juvenil – a enguia em fase de larva, conhecida como enguia de vidro, que chega às costas europeias vinda do Mar dos Sargaços e entra nos rios e zonas húmidas.

Estas enguias são capturadas em toda a área de distribuição da enguia europeia, principalmente para abastecer a aquacultura (que depende totalmente de animais selvagens) e apoiar ações de repovoamento. Contudo, em Espanha existe também um consumo direto significativo destas formas juvenis, uma tradição culinária originária do País Basco que se espalhou por outras regiões.

Até ao final da década de 1970, a enguia de vidro era um produto abundante e um prato popular. Mas o colapso subsequente, com uma redução de cerca de 95% no recrutamento (ou seja, na chegada de enguias de vidro), transformou-a num produto de luxo.

“Achámos que esta era uma situação típica que pode desencadear uma espiral de extinção ligada ao mercado, por isso procurámos dados sobre capturas e preços que pudessem confirmar este processo”, contou Clavero.

Para o estudo, os cientistas reuniram dados de capturas comerciais de enguias de vidro em Espanha desde 1950, agrupados em nove séries temporais.

“Estes dados são parte da informação recolhida por todos os países europeus para que o grupo de especialistas em enguias do Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES, na sigla inglesa) possa avaliar anualmente o estado de conservação da espécie e fornecer recomendações de gestão à Comissão Europeia”, explicou Estíbaliz Díaz, investigadora do Centro de Investigação Marinha e Alimentar (AZTI) e co-autora do artigo.

Os dados mostram um aumento inicial das capturas, com um pico acentuado por volta de 1980, seguido de uma queda drástica que se prolonga até hoje, sem sinais de desaceleração ou recuperação.

Além disso, os autores analisaram jornais contemporâneos e históricos para recolher os preços pagos pela enguia ao longo dos últimos 100 anos (de 1925 a 2024). Após ajustarem os dados para conversões monetárias e inflação, verificaram que o preço da enguia de vidro cresceu exponencialmente: de custar menos de 5 euros por quilo em 1925, passou a rondar os 1.000 euros atualmente.

Menos capturas, preços cada vez mais altos

Antes do colapso das populações, por volta de 1980, o preço da enguia de vidro aumentava em paralelo com as capturas, provavelmente devido a um maior interesse comercial e esforço de pesca. No entanto, a partir de 1980, esta relação inverteu-se: a drástica redução das capturas foi acompanhada por uma subida acelerada dos preços.

“Este é o cenário típico de uma espiral de extinção ligada ao mercado, em que as pessoas estão dispostas a pagar mais por produtos mais raros, que não estão ao alcance da maioria”, explicou Clavero.

De facto, a equipa demonstrou que, desde 1990, o valor total das capturas espanholas de enguia de vidro manteve-se praticamente inalterado, apesar de as capturas terem diminuído 85% nesse mesmo período.

“O aumento constante dos preços faz com que continue a ser rentável pescar e comercializar enguias de vidro, mesmo que as capturas sejam miseráveis comparadas com as de há poucas décadas”, referiu o investigador do CSIC.

Uma característica particular desta espiral de extinção é que os custos de exploração mantêm-se baixos, mesmo com o declínio acentuado do número de indivíduos que chegam anualmente às costas.

“No caso dos rinocerontes ou pangolins, a sua escassez obriga os caçadores a investir mais tempo e correr mais riscos, sendo compensados apenas por preços mais elevados. Com as enguias, os preços sobem, mas nem sequer é preciso mais esforço para capturá-las. Basta esperar pela sua chegada anual”, explicou Clavero.

“Na realidade, os custos de captura são, em geral, baixos e pouco variam de ano para ano, sem relação direta com o número de enguias de vidro que chegam. Com os preços atuais, praticamente qualquer captura cobre os custos e gera lucro imediato”, complementou Díaz, que além de investigar no AZTI, representa Espanha no grupo de trabalho sobre enguias do ICES.

Cessar a pesca e o comércio

A relação entre o valor de mercado da enguia de vidro e a sua escassez cria incentivos perversos para continuar a sua exploração, ignorando o estado crítico da espécie.

“O ICES tem recomendado repetidamente o fim total da pesca à enguia, em qualquer habitat, momento do ciclo de vida e para qualquer fim, mas essas recomendações não se traduziram numa redução clara da mortalidade provocada pela pesca”, sublinhou Díaz.

Para Clavero, o encerramento total da pesca da enguia – incluindo as enguias de vidro – é necessário, mas não suficiente. “É essencial também uma proibição temporária do comércio de produtos de enguia, abrangendo todas as espécies do género Anguilla”, defendeu.

A enguia tem um forte valor cultural em várias regiões da Europa, estando no centro de tradições antigas. O mesmo acontece com outras espécies do género. Todas são comercializadas a nível global, tanto de forma legal como ilegal, muitas vezes de forma interligada.

Clavero acredita que outros elementos do comércio, como a aquacultura, os repovoamentos e os movimentos internacionais, também contribuem para a espiral de extinção observada em Espanha. “Na verdade, é provável que existam processos semelhantes que afetem todas as fases de vida da espécie, em toda a sua área de distribuição – e até outras espécies do género – num fenómeno de escala global. A conservação das enguias depende de quebrar as dinâmicas do mercado de luxo, estabelecendo moratórias à pesca e ao comércio destes animais”, concluiu o investigador.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca