PUB

Ministra diz que gestão do CNRLI é uma questão interna do ICNF, na qual não interferiu

13.05.2026
leitura de 3 minutos
CNRLI em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder

A anunciada internalização do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) é uma questão interna do Instituto de Conservação da Natureza (ICNF), disse esta quarta-feira a ministra do Ambiente e da Energia. Maria da Graça Carvalho diz que não teve qualquer interferência na decisão.

Em declarações aos jornalistas à margem de uma iniciativa para reposição de areias nas praias da Costa da Caparica, a ministra disse ainda, citada pela agência Lusa, que “o ICNF tem autonomia e eu respeito muito, num regime democrático, as autonomias das instituições”.

Maria da Graça Carvalho acrescentou que aquele Instituto “tomou essa decisão e informou-me de que o ia fazer. Portanto, é uma gestão interna”. Na sua opinião, percebe que o ICNF queira gerir o CNRLI, até agora entregue a uma empresa privada especializada em veterinária de animais selvagens e, salientou que “tem capacidade para isso”.

Os deputados do Partido Livre já questionaram a ministra sobre o motivo para o afastamento da equipa actual do CNRLI e como é que o Ministério vai garantir que a mudança “não compromete o sucesso do programa de reintrodução do lince-ibérico”.

BE questiona ministra sobre competências da futura equipa

Também o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda (BE) dirigiu esta semana um requerimento à ministra do Ambiente e Energia, no qual levanta várias questões sobre as mudanças decididas pelo ICNF, incluindo as competências da nova coordenadora e o plano de transição técnico-científica.

“Quais as competências específicas, comprovadas por experiência curricular, em felinos selvagens, reprodução ex situ, gestão genética de pequenas populações e coordenação de programas internacionais de conservação que sustentaram a nomeação da Dra Alexandra Maria Silveira Pinto Pereira como coordenadora do CNRLI e do Programa Ex Situ a nível nacional?”, pergunta o requerimento do grupo parlamentar do BE, assinado pelo deputado Fabian Figueiredo, referindo-se à futura coordenadora do Centro de Silves e do programa que envolve a reprodução em cativeiro do lince-ibérico.

O requerimento dirigido a Maria da Graça Carvalho questiona também de que forma será mantida a qualidade técnica da representação portuguesa no Comité de Cria em Cativeiro do Lince-Ibérico e nos grupos assessores ibéricos. Esse papel tem sido desempenhado pelo atual coordenador técnico e coordenador científico do CNRLI, desde o início do projeto, mas a manter-se a decisão do ICNF, Rodrigo Serra estará de saída no final de maio.

Entre outras questões, o BE pergunta ainda qual o plano de transição técnico-científica que está previsto para a nova equipa que deverá assumir a gestão direta do CNRLI no âmbito do ICNF, “para assegurar a transmissão do conhecimento acumulado durante quase 17 anos,
incluindo protocolos veterinários, registos clínicos, dados etológicos e bancos de recursos biológicos”. É questionado também o cronograma para a constituição da nova equipa e a fundamentação técnica, tendo em conta que o contrato com a empresa de Rodrigo Serra termina já a 31 de maio.

O grupo parlamentar lembra ainda que existe uma meta ibérica de 700 fêmeas reprodutoras e 3500 linces até 2035, colocando em dúvida se este e outros compromissos assumidos perante Bruxelas poderão ficar em risco.

SOS Animal aponta decisão como “extremamente preocupante”

Reagindo à decisão anunciada pelo ICNF, a SOS Animal Portugal considerou por sua vez que é “extremamente preocupante que uma equipa com formação específica, experiência acumulada e conhecimento técnico altamente especializado nesta espécie possa ser afastada de forma abrupta, sem que tenham sido apresentados ao sector, à comunidade científica ou à sociedade civil fundamentos técnicos claros, transparentes e sustentados para esta decisão”.

Num comunicado enviado à Wilder, a associação nota que está previsto que “a coordenação passará para Alexandra Pereira, antiga diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia do ICNF”, acrescentando que “o currículo conhecido publicamente não evidencia experiência específica em conservação de felinos selvagens, programas de reprodução Ex-Situ, gestão de espécies ameaçadas ou coordenação técnica de programas internacionais de conservação desta natureza”. 

A associação olha também com apreensão para o facto de estas alterações acontecerem “numa fase particularmente sensível para o futuro da conservação do lince-ibérico, quando ainda decorrem esforços internacionais para consolidar o estatuto favorável de conservação da espécie até 2035”, e acrescenta que vai contactar os partidos parlamentares e o Ministério do Ambiente e Energia.

“Em democracia, decisões desta dimensão têm de ser técnica e institucionalmente sustentadas e devidamente legitimadas”, acrescenta Sandra Duarte Cardoso, presidente desta organização não governamental ambiental, citada no comunicado.

“Não é aceitável desmantelar uma equipa altamente especializada e um projecto com reconhecimento internacional sem que sejam apresentados fundamentos claros e transparentes. Precisamos de compreender quais as motivações e a estratégia subjacente a esta decisão, porque está em causa um dos mais importantes projectos de conservação da natureza em Portugal”, conclui esta médica veterinária. 

Notícia atualizada às 18h50 de 13/5, com as reações do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda e da organização SOS Animal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca