Preocupadas com o impacto que a gripe aviária está a ter nestas aves marinhas, conjugada com outras ameaças, as autoridades locais rejeitaram este ano o pedido de licença que receberam dos Men of Ness.
Uma das mais remotas ilhas do Reino Unido, a ilha inabitada de Sula Sgeir costuma ser palco de uma caçada aos juvenis de ganso-patola (Morus bassanus) que ali nascem todos os anos, uma tradição cujo início é atribuído ao tempo dos vikings e que é atualmente realizada pelos Men of Ness. Praticamente todos os anos, esta equipa de 10 caçadores tradicionais desembarca em Sula Sgeir para retirar aos ninhos centenas ou milhares de crias. Foi assim que aconteceu em 2025, quando ali foram mortas 485 juvenis de ganso-patola, depois de uma suspensão temporária da caça em 2023 e 2024, devido à gripe aviária.
Este ano, todavia, não se vão novamente caçar gansos-patolas nesta pequena ilha rochosa, graças à decisão da NatureScot. A entidade que na Escócia regula a emissão de licenças de caça decidiu rejeitar os dois pedidos de licença que recebeu dos Men of Ness, relativos a 2026: um que pedia permissão para a caça de 2000 juvenis desta espécie, outro que limitava a 500 o número de aves a capturar.

O ganso-patola, também conhecido como alcatraz, é a maior ave marinha que podemos observar em águas portuguesas e uma das mais comuns, embora não nidifique em Portugal. Reproduz-se mais a norte, juntando-se em grandes colónias tanto no Atlântico Norte como no Canadá, normalmente em ilhas rochosas da Escócia e de outros países, como Sula Sgeir, ou em falésias costeiras escarpadas.
“Usámos a mais recente informação disponível e recorremos a um modelo populacional atualizado, para nos ajudar a prever o efeito da caça de ‘gugas’ [termo escocês que designa os juvenis da espécie] na população de gansos-patolas”, afirma a NatureScot, numa nota publicada online há poucos dias, a 5 de agosto. “Como resultado, concluímos que é possível haver um impacto adverso”, acrescenta, concluindo que por esse motivo os dois pedidos foram recusados.
Ainda assim, o grupo dos Men of Ness, responsável por esta tradição que se considera ter começado na época dos vikings, poderá pedir mais licenças em 2027 e nos anos seguintes, refere a mesma entidade.
Gripe aviária
A decisão deste ano deve-se não só aos impactos da gripe aviária e da caça, mas também a outras ameaças que afetam esta ave marinha, como os parques eólicos offshore (no mar) e as capturas acidentais por pescadores. Ainda assim, segundo o novo modelo populacional que foi este ano produzido, a gripe aviária é o problema que mais afeta esta ave marinha na Escócia.
De acordo com a NatureScot, desde o inverno de 2020/2021 que o vírua da gripe aviária circula de forma generalizada entre as populações de aves selvagens, de forma nunca antes registada e causando “perdas devastadoras” em muitas aves marinhas da Escócia e do resto da Europa.
Em 2022, a doença atingiu as colónias de reprodução desta espécie e causou uma quebra de 22% na população escocesa desta espécie, com declínios ainda maiores nas principais colónias da região. “A doença continua a ter um impacto a longo prazo em algumas populações de aves marinhas e na sua recuperação e estamos a trabalhar para perceber melhor a extensão de tudo isto”, acrescentam as autoridades escocesas.
Uma das principais questões é o efeito da gripe na reprodução local desta espécie, uma vez que os gansos-patolas recém-nascidos demoram cinco anos até se tornarem adultos. Assim, será necessário aguardar até à recolha e análise das contagens que se realizarem na ilha de Sula Sgeir em 2027 para a tomada de uma decisão, o que só vai acontecer no ano seguinte.
Saiba mais.
Em Portugal, estudos já realizados permitiram concluir que o ganso-patola é uma das aves marinhas mais observada em arrojamentos nas praias.