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Mais de mil cetáceos deram à costa no Algarve em 46 anos

20.02.2026
leitura de 3 minutos
Golfinhos-comuns (Delphinus delphis) ao largo de Sagres. Foto: Charles J. Sharp/WikiCommons

Estudo publicado esta semana na revista científica Marine Mammal Science revela quais as espécies mais afectadas, os hotspots dos arrojamentos e a principal causa de morte.

Entre 1978 e 2023 foram registados 1231 arrojamentos de cetáceos de 19 espécies diferentes ao longo da costa algarvia. Em 901 casos (correspondendo a 73,2%) foi possível identificar a espécie.

Os dados foram compilados a partir da análise a 46 anos de registos da Rede Nacional de Arrojamentos, coordenada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Segundo o estudo – coordenado por Jan Hofman, investigador do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR/CIMAR), da Universidade do Algarve -, as cinco espécies mais frequentemente encontradas na costa foram o golfinho-comum (Delphinus delphis), que representou 39% dos casos, seguido do golfinho-riscado (Stenella coeruleoalba, 8,9%), da baleia-anã (Balaenoptera acutorostrata, 8%), do roaz-corvineiro (Tursiops truncatus, 8%) e do boto (Phocoena phocoena, 4,3%).

Os locais com maior probabilidade de arrojamentos foram o Cabo de Santa Maria (entre Faro e Olhão), a zona Lagos–Portimão e o Cabo de São Vicente, apontou o artigo publicado a 16 de fevereiro na revista Marine Mammal Science. Os autores lembram que estas são áreas de intensa atividade pesqueira e onde se localizam alguns dos principais portos de pesca da região.

Captura acidental representa 40% das mortes

Em 75,6% dos arrojamentos foi possível determinar a causa de morte dos animais. A captura acidental em redes de pesca foi responsável por 40,9% dos casos com causa identificada, tornando-se o principal fator de mortalidade. Seguiram-se colisões e traumatismos (15,7%).

Para a maioria das espécies analisadas — especialmente o golfinho-comum e o roaz-corvineiro — a captura acidental foi a causa mais frequente. Traumatismos, doenças, colisões com embarcações, interações com outras espécies e ataques de tubarões ocorreram com menor incidência, segundo esta investigação.

Este problema já há muito chamou a atenção. Por exemplo, em 2023, a Comissão Europeia abriu um processo de infração contra Portugal por não estar a evitar as capturas acessórias de cetáceos por navios de pesca.

Registos aumentaram com rede de monitorização dedicada

Ao longo das quatro décadas e meia analisadas, os autores identificaram um aumento progressivo dos registos de arrojamentos, com crescimento particularmente evidente após a criação de uma rede dedicada.

Entre 1980 e 1984 registaram-se os valores mais baixos. O pico ocorreu em 2013, com 105 arrojamentos num único ano. Durante os períodos com monitorização ativa, a média anual foi de 63 arrojamentos, um número cerca de seis vezes superior aos períodos sem acompanhamento sistemático.

Antes de 2010, os números eram mais baixos e irregulares, ainda que com aumento gradual e picos ocasionais entre 1990 e 2010.

Região-chave para cetáceos

Um arrojamento ocorre quando um animal marinho dá à costa, morto ou vivo, sem conseguir regressar ao mar sem ajuda. Isto pode acontecer por causas naturais, como doenças, ou por fatores de origem humana, incluindo poluição, colisões com embarcações e, sobretudo, interações com artes de pesca — a principal causa de mortalidade de cetáceos a nível global.

Os autores sublinham que os arrojamentos não refletem apenas a abundância populacional. São também influenciados por condições oceanográficas e meteorológicas — como temperatura da superfície do mar, padrões de vento e tempestades — bem como pela distância à costa no momento da morte.

Apesar de a costa portuguesa ser habitat crucial para, pelo menos, 28 espécies de cetáceos, os dados sistematizados continuam a ser escassos.

No Algarve estão registadas pelo menos 14 espécies de cetáceos. Esta região funciona como área de reprodução para o golfinho-comum e o roaz-corvineiro e como corredor migratório para a baleia-comum (Balaenoptera physalus).

Monitorização deve ser prioridade

Além de revelarem padrões de mortalidade, os arrojamentos fornecem informação valiosa sobre biologia, ecologia e uso do habitat por parte dos cetáceos na região algarvia.

Por isso, os autores defendem que a monitorização constante e padronizada dos arrojamentos no Algarve deveria deveria ser uma prioridade.

Para os investigadores, um acompanhamento consistente é essencial para compreender melhor a ecologia destes animais e apoiar medidas de conservação numa região de elevada produtividade marinha e biodiversidade.


Agora é a sua vez

Descubra neste guia ilustrado as espécies de cetáceos de Portugal.

Saiba aqui o que fazer se encontrar um cetáceo arrojado na costa portuguesa, incluindo quem deve contactar.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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