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Investigadores pela Natureza: Mónica Silva desvenda a ecologia e a cultura acústica dos cetáceos

26.05.2026
leitura de 7 minutos

Na série de entrevistas Investigadores pela Natureza, a Wilder fala com cientistas que se dedicam a tentar resolver alguns dos maiores desafios da biodiversidade e sustentabilidade em Portugal. Hoje, conheça Mónica Silva, investigadora da Universidade dos Açores, cuja carreira tem sido decisiva para transformar a investigação em cetáceos no Atlântico.

WILDER: Quem é a Mónica Silva como cientista?

Mónica Silva: Desde cedo, o meu percurso foi influenciado pelo ambiente familiar. Cresci rodeada de pessoas ligadas à biologia e, ainda em criança, tive a oportunidade de acompanhar alguns dos seus trabalhos no terreno. Esse contacto precoce despertou em mim uma sensibilidade especial para o mundo natural e acabou por moldar naturalmente o meu caminho académico e profissional.

Mónica Silva. Foto: Azores Whale Lab

Durante a faculdade, comecei a colaborar com o então Instituto da Conservação da Natureza. Foi aí que tive o primeiro contacto direto com a investigação e monitorização de cetáceos, uma área que rapidamente me fascinou. Realizei o meu estágio no Instituto da Conservação da Natureza (ICN), dedicado aos cetáceos no continente, e acabei por integrar a equipa durante alguns anos. Mais tarde, esse percurso trouxe-me até aos Açores, onde continuo a desenvolver o meu trabalho.

W: O que a fascina sobre o estudo da biodiversidade de cetáceos nos Açores?

Mónica Silva: A minha vinda para os Açores resultou de um conjunto de fatores, mas sobretudo do reconhecimento do enorme potencial da região para a investigação em cetáceos, pela grande diversidade e abundância de espécies e pela facilidade de acesso às mesmas. Havia também uma preocupação concreta com os impactos da atividade de whale watching e a consciência de que seria necessário mais conhecimento científico para gerir essa atividade na região. Hoje, graças ao trabalho do meu grupo e de vários colaboradores, os Açores estão na linha da frente no que diz respeito à investigação. A proximidade da ciência ao poder de decisão e a sensibilidade do governo regional dos Açores para a conservação marinha implicam que os Açores estejam também na linha da frente no que diz respeito à implementação de algumas medidas de conservação.

Durante muitos anos, praticamente não existiam projetos de investigação em cetáceos nas universidades do continente. O ICN era a única entidade que promovia alguns estudos nesta área. Em contraste, a Universidade dos Açores começou, já em 1996, a desenvolver os primeiros projetos dedicados a esta área, incluindo estudos pioneiros sobre os impactos do whale watching nas populações de cetáceos e o desenvolvimento de legislação específica para a sua proteção. Pouco depois, em 1998, arrancou um projeto LIFE liderado pela Universidade dos Açores, com o objetivo de identificar áreas marinhas protegidas para diversas espécies e habitats, incluindo zonas especificamente destinadas à conservação de cetáceos. Este trabalho surgiu muito antes de qualquer iniciativa semelhante no continente.

Baleia captada com recurso a drone. Foto: Azores Whale Lab

Foi precisamente para integrar este projeto que vim para os Açores. Comecei a colaborar na recolha de informação necessária à definição dessas áreas marinhas protegidas e ao desenvolvimento de medidas concretas de conservação. Paralelamente, continuámos a aprofundar o conhecimento científico que permitisse melhorar a legislação regional sobre a prática de whale watching. Perceber que existia aqui uma verdadeira vontade de avançar, de proteger as populações de cetáceos e de integrar a ciência na gestão do território foi determinante na minha decisão de fazer investigação nos Açores.

W: Que resultados trouxe esse primeiro projeto e que impacto teve na região?

Mónica Silva: O projeto teve impacto, embora não tenha sido possível alcançar todos os objetivos inicialmente definidos. As áreas marinhas protegidas foram propostas, desenhadas e, em muitos casos, implementadas pelo governo regional dos Açores, seguindo de perto as recomendações produzidas no âmbito do projeto. No entanto, nunca chegámos à fase de implementação dos planos de gestão e conservação. Infelizmente, a maioria das áreas marinhas protegidas dos Açores continua, ainda hoje, sem planos de gestão efetivamente aplicados. Por isso, o balanço é misto: houve avanços muito significativos, mas também lacunas que permanecem por resolver.

O projeto representou um esforço pioneiro e de grande escala na região. Pela primeira vez, realizou-se um levantamento abrangente da biodiversidade marinha dos Açores, envolvendo a caracterização de fundos marinhos, invertebrados, esponjas, corais, peixes, tanto de interesse comercial como não comercial, aves marinhas, cetáceos, tartarugas e muitos outros grupos. Com base nesse conhecimento, identificaram-se áreas onde a biodiversidade apresentava maior relevância ecológica e que, por isso, deveriam ser consideradas prioritárias para a criação de áreas marinhas protegidas. 

Baleia captada com recurso a drone. Foto: Azores Whale Lab

W: Quais são os principais obstáculos à implementação de medidas de conservação eficazes?

Mónica Silva: Apesar de o conhecimento científico ter melhorado muito ao longo dos anos, continua frequentemente a faltar-nos informação verdadeiramente robusta, sobretudo séries temporais longas que permitam fundamentar com segurança determinadas recomendações. Este é um dos maiores entraves à gestão. Muitos programas de monitorização são esporádicos e dependem de financiamentos irregulares. Há anos em que se investe na recolha de dados, mas depois seguem-se longos períodos sem qualquer apoio público. Quando a monitorização só é retomada uma década depois, a informação perde consistência.

A isto junta-se, por vezes, a falta de vontade política. Mesmo quando existe informação sólida, a implementação de medidas pode implicar decisões impopulares ou exigir compensações para determinados setores. Em alguns casos, é necessário promover atividades alternativas ou planear períodos de transição, o que exige coragem política e visão a longo prazo. Setores como as pescas, o transporte marítimo, ou até o whale watching podem ver estas medidas como restritivas, o que torna o processo ainda mais complexo.

W: Além desse projeto inicial, que outros trabalhos marcaram a sua carreira científica?

Mónica Silva: Ao longo da minha carreira, tenho trabalhado em várias frentes, desde investigação fundamental até estudos aplicados que apoiam diretamente a tomada de decisão e a implementação de políticas públicas de conservação dos oceanos. Grande parte do nosso trabalho tem precisamente esse objetivo: contribuir para a proteção dos cetáceos, dos seus habitats e dos ecossistemas que os sustentam.

Um dos temas que mais nos ocupou durante vários anos foi o estudo das migrações das baleias de barbas no Atlântico. Existia, durante muito tempo, um paradigma amplamente aceite na ecologia destas espécies que defendia que os animais se alimentavam exclusivamente em zonas polares e que, durante a migração para águas mais quentes, deixavam de se alimentar, dedicando-se apenas à reprodução. Esta visão implicava que os ecossistemas temperados, tropicais e subtropicais tinham pouca relevância para a conservação destas populações, por serem considerados meras zonas de passagem.

Foto: Azores Whale Lab

Os nossos estudos vieram desafiar esse paradigma. Utilizando telemetria por satélite, fomos os primeiros a demonstrar, no Atlântico, que os Açores e outras regiões semelhantes são importantes áreas de alimentação para várias espécies de baleias de barbas durante a primavera. Mais tarde, através da análise de isótopos estáveis, confirmámos que estes animais já tinham estado a alimentar-se durante o inverno noutros habitats, o que reforçou a ideia de que a alimentação ocorre ao longo de todo o ciclo migratório. Ao demonstrar que estes ecossistemas são essenciais ao longo de todo o ciclo anual das baleias, contribuímos para uma mudança significativa na forma como se pensa a gestão e a proteção destas espécies a nível internacional.

Nos últimos anos, temos também aprofundado a investigação sobre a comunicação acústica destes animais. A acústica é um sentido fundamental para os cetáceos, utilizam-na para se orientarem, procurarem alimento, detetarem predadores e ameaças humanas, e para comunicarem entre si. Desde 2002, instalámos hidrofones em vários pontos do mar dos Açores e do continente para estudar a forma como estes animais comunicam.

Recentemente, liderámos um estudo internacional que reuniu dados acústicos de hidrofones distribuídos por todo o Atlântico Nordeste e Central, com o objetivo de compreender como as baleias comuns alteram as suas canções ao longo do tempo. Os resultados mostram que estas mudanças podem estar associadas à transmissão cultural: os animais aprendem vocalizações de outros indivíduos e populações, incorporam-nas no seu repertório e difundem-nas. Trata-se de uma forma de cultura, não transmitida de mãe para filho, mas entre indivíduos não aparentados, algo que até há pouco tempo se julgava exclusivo dos seres humanos. Este conceito de cultura tem implicações profundas para a conservação. Se as vocalizações e os comportamentos associados constituem património cultural, então a proteção destes animais não pode limitar-se apenas à genética ou à distribuição geográfica, é necessário considerar também a preservação da sua cultura.

W: Que conselhos daria aos jovens investigadores em início de carreira?

Mónica Silva: Acima de tudo, diria que é fundamental ter perseverança. A carreira científica continua marcada por instabilidade e precariedade, e por isso é preciso determinação para continuar. É importante manter a vontade de lutar por melhores condições, tanto de trabalho como de financiamento, porque só reivindicando e insistindo conseguiremos construir um futuro mais sólido para a ciência. 

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