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Fogos: Sociedade Espanhola de Ornitologia pede nova estratégia assente no restauro da natureza

14.08.2025
leitura de 3 minutos
Incêndios em Espanha. Foto: SEO/Birdlife

Perante a vaga de incêndios que só esta semana já queimaram mais de 84.000 hectares em Espanha, a SEO/Birdlife diz que o país precisa de um novo paradigma que dê prioridade à prevenção e ao restauro da natureza com critérios científicos.

Este ano, os incêndios florestais em Espanha já causaram a morte a sete pessoas e destruíram cerca de 150.000 hectares. Hoje, a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) expressou a sua “solidariedade para com todas as vítimas dos incêndios” e o seu “total apoio às pessoas que estão a trabalhar arduamente no combate às chamas”.

E pede uma estratégia diferente no que toca aos incêndios.

“Todos os verões repetimos o mesmo guião: sofrimento das pessoas, património natural devastado e custos enormes”, comentou, em comunicado, Eva Hernández, coordenadora da Área de Governação Ambiental da SEO/BirdLife. “Precisamos de uma estratégia que dê prioridade à prevenção e ao restauro da natureza com critérios científicos, e não apenas ao combate. Trata-se de uma questão de segurança, saúde pública e futuro.”

A organização citou o Tribunal de Contas Europeu (Relatório Especial 16/2025) que concluiu que, embora os gastos com a prevenção estejam a aumentar, faltam evidências de resultados duradouros. Além disso, o investimento nem sempre é direcionado para as zonas de maior risco, e é necessária melhor informação cartográfica e planeamento para que os recursos financeiros sejam eficazes.

Em comunicado, a SEO/Birdlife apresentou as suas sugestões.

A primeira medida é prevenir os incêndios através de um “modelo de gestão próximo da natureza, promovendo paisagens em mosaico com diversidade vegetal e evitando a introdução de espécies exóticas”, como os eucaliptos. “Paisagens resilientes e estruturalmente complexas, como as florestas maduras, são mais resistentes aos incêndios.”

A SEO/Birdlife defende a substituição progressiva das plantações florestais intensivas por florestas autóctones, aliando a pecuária extensiva à agricultura de baixo impacto, e uma silvicultura preventiva orientada para a redução da carga de combustível.

Além disso, “é essencial priorizar o investimento em zonas críticas, especialmente em áreas de elevado valor ecológico como a Rede Natura 2000, corredores ecológicos e cabeceiras de bacia hidrográfica”.

Na altura de responder aos incêndios, é “absolutamente necessário dotar os bombeiros florestais de formação, meios adequados e, sobretudo, de reconhecimento, traduzido em empregos estáveis, salários justos e condições de trabalho dignas”.

A organização considera “imprescindível promover uma coordenação inter-administrativa eficaz e dispor de meios e operacionais adaptados a incêndios de elevada intensidade, com especial atenção a zonas escarpadas e de difícil acesso”. Também é vital reforçar os sistemas de alerta precoce e garantir acessos seguros através de caminhos e pontos de água, sem comprometer os habitats sensíveis que se pretende proteger.

As políticas contra incêndios precisam de uma revisão urgente, considerando o atual contexto das alterações climáticas, entende a organização.

A SEO/Birdlife pede que sejam criados e comunicados “indicadores públicos que incluam o número de pessoas afetadas, hectares de elevado valor ecológico danificados, custos de prevenção versus combate, e o sucesso das ações de restauro”.

“Torna-se imprescindível avaliar a evolução do rácio de investimento em prevenção, combate e restauro por hectare.”

Os incêndios florestais são uma das principais ameaças à Rede Natura 2000, que alberga os ecossistemas e espécies mais valiosos da União Europeia. O recente relatório do Tribunal de Contas Europeu salienta que os incêndios não só destroem habitats protegidos, como também põem em risco o cumprimento dos objetivos comunitários de conservação e restauro da natureza.

“Estes espaços, que cobrem mais de 18% da superfície terrestre da UE, são essenciais para a biodiversidade e para a resiliência às alterações climáticas. Por isso, a prevenção, a preparação e o restauro pós-incêndios devem ser abordadas de forma coordenada entre todos os Estados-Membros.”

No entender desta organização, “é fundamental que as políticas de prevenção e combate aos incêndios integrem as obrigações decorrentes das Diretivas Habitats e Aves, garantindo que as medidas adoptadas contribuam efetivamente para a proteção e recuperação da biodiversidade”.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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