Perante a vaga de incêndios que só esta semana já queimaram mais de 84.000 hectares em Espanha, a SEO/Birdlife diz que o país precisa de um novo paradigma que dê prioridade à prevenção e ao restauro da natureza com critérios científicos.
Este ano, os incêndios florestais em Espanha já causaram a morte a sete pessoas e destruíram cerca de 150.000 hectares. Hoje, a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) expressou a sua “solidariedade para com todas as vítimas dos incêndios” e o seu “total apoio às pessoas que estão a trabalhar arduamente no combate às chamas”.
E pede uma estratégia diferente no que toca aos incêndios.
“Todos os verões repetimos o mesmo guião: sofrimento das pessoas, património natural devastado e custos enormes”, comentou, em comunicado, Eva Hernández, coordenadora da Área de Governação Ambiental da SEO/BirdLife. “Precisamos de uma estratégia que dê prioridade à prevenção e ao restauro da natureza com critérios científicos, e não apenas ao combate. Trata-se de uma questão de segurança, saúde pública e futuro.”
A organização citou o Tribunal de Contas Europeu (Relatório Especial 16/2025) que concluiu que, embora os gastos com a prevenção estejam a aumentar, faltam evidências de resultados duradouros. Além disso, o investimento nem sempre é direcionado para as zonas de maior risco, e é necessária melhor informação cartográfica e planeamento para que os recursos financeiros sejam eficazes.
Em comunicado, a SEO/Birdlife apresentou as suas sugestões.
A primeira medida é prevenir os incêndios através de um “modelo de gestão próximo da natureza, promovendo paisagens em mosaico com diversidade vegetal e evitando a introdução de espécies exóticas”, como os eucaliptos. “Paisagens resilientes e estruturalmente complexas, como as florestas maduras, são mais resistentes aos incêndios.”
A SEO/Birdlife defende a substituição progressiva das plantações florestais intensivas por florestas autóctones, aliando a pecuária extensiva à agricultura de baixo impacto, e uma silvicultura preventiva orientada para a redução da carga de combustível.
Além disso, “é essencial priorizar o investimento em zonas críticas, especialmente em áreas de elevado valor ecológico como a Rede Natura 2000, corredores ecológicos e cabeceiras de bacia hidrográfica”.
Na altura de responder aos incêndios, é “absolutamente necessário dotar os bombeiros florestais de formação, meios adequados e, sobretudo, de reconhecimento, traduzido em empregos estáveis, salários justos e condições de trabalho dignas”.
A organização considera “imprescindível promover uma coordenação inter-administrativa eficaz e dispor de meios e operacionais adaptados a incêndios de elevada intensidade, com especial atenção a zonas escarpadas e de difícil acesso”. Também é vital reforçar os sistemas de alerta precoce e garantir acessos seguros através de caminhos e pontos de água, sem comprometer os habitats sensíveis que se pretende proteger.
As políticas contra incêndios precisam de uma revisão urgente, considerando o atual contexto das alterações climáticas, entende a organização.
A SEO/Birdlife pede que sejam criados e comunicados “indicadores públicos que incluam o número de pessoas afetadas, hectares de elevado valor ecológico danificados, custos de prevenção versus combate, e o sucesso das ações de restauro”.
“Torna-se imprescindível avaliar a evolução do rácio de investimento em prevenção, combate e restauro por hectare.”
Os incêndios florestais são uma das principais ameaças à Rede Natura 2000, que alberga os ecossistemas e espécies mais valiosos da União Europeia. O recente relatório do Tribunal de Contas Europeu salienta que os incêndios não só destroem habitats protegidos, como também põem em risco o cumprimento dos objetivos comunitários de conservação e restauro da natureza.
“Estes espaços, que cobrem mais de 18% da superfície terrestre da UE, são essenciais para a biodiversidade e para a resiliência às alterações climáticas. Por isso, a prevenção, a preparação e o restauro pós-incêndios devem ser abordadas de forma coordenada entre todos os Estados-Membros.”
No entender desta organização, “é fundamental que as políticas de prevenção e combate aos incêndios integrem as obrigações decorrentes das Diretivas Habitats e Aves, garantindo que as medidas adoptadas contribuam efetivamente para a proteção e recuperação da biodiversidade”.