Os incêndios que este verão devastaram 367.000 hectares em Espanha tiveram um forte impacto em 171 espécies de aves, incluido os ameaçados tetraz e abutre-preto, revelou hoje a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/Birdlife).
Hoje, a SEO/Birdlife apresentou o relatório “Incêndios e Biodiversidade 2025”, onde alerta para o grande impacto dos fogos florestais que deflagraram entre 1 de julho e 1 de setembro em Espanha.

Mais de 367.000 hectares em 12 comunidades autonómicas foram devastados pelo fogo entre 1 de julho e 1 de setembro.
A organização estima que 43% da área ardida situava-se em zonas-chave para a biodiversidade. Foram afetadas 84 Áreas Importantes para a Conservação das Aves e da Biodiversidade (IBA) terrestres – com mais de 156 mil hectares ardidos – e 139 espaços da Rede Natura 2000, com outros tantos hectares.
Entre as espécies que sofreram um impacto mais severo nos seus habitats estão o abutre-preto, o tetraz, a perdiz-cinzenta e o pisco-de-peito-azul.
Mas houve muitas outras espécies afetadas, como o milhafre-real, a águia-imperial, o cortiçol-de-barriga-preta ou a cegonha-preta.
O abutre-preto foi uma das espécies mais afetadas pela vaga de incêndios na Extremadura espanhola. Os dois incêndios na Serra de San Pedro afetaram, pelo menos, 45 a 50 ninhos ocupados, o que representa 5,2% da população da Extremadura e 1,8% da população europeia desta espécie.
“Dada a biologia reprodutora do abutre-preto, é provável que muitos ninhos ainda contivessem crias nessa altura, uma vez que os primeiros voos podem acontecer até setembro”, segundo a SEO/Birdlife.

A população cantábrica de tetraz – declarada em situação crítica devido ao seu elevado grau de ameaça, com apenas 209 indivíduos – viu grande parte da sua área de distribuição devastada pelos incêndios. Nas Astúrias o fogo terá afetado 30,05% da sua área e na província de Leão, 13,15%.
A perdiz-cinzenta é a espécie cuja área de distribuição ardeu em maior proporção: 13,35% a nível nacional, com especial incidência na sua distribuição ocidental (Astúrias, Leão e Zamora).
O pisco-de-peito-azul viu 5,61% (até 8,73%) da sua área de distribuição afetada. As zonas de matos de montanha com o seu habitat preferido para a reprodução, foram particularmente danificados, especialmente em Ourense.

A SEO/BirdLife lembra que “os incêndios florestais são um problema estrutural e constituem uma das maiores ameaças à biodiversidade em Espanha”. A organização defende que os fogos não podem ser enfrentados apenas com medidas de combate e prevenção. “É preciso uma abordagem integrada que combine restauro ecológico, prevenção baseada no conhecimento e gestão do território, educação e sensibilização das pessoas, planeamento coordenado e coerente entre diferentes administrações e um envolvimento ativo das comunidades rurais.”
Por isso, a organização exige, em comunicado, “uma atuação a nível nacional e integrada”. Lembra que o Pacto de Estado pela Natureza e pelo Clima, atualmente em negociação em Espanha, “representa uma oportunidade histórica para garantir um futuro resiliente para a biodiversidade espanhola”.
“As aves, termómetro da qualidade de vida da natureza — e da nossa própria — estão a lançar um alerta”, diz Asunción Ruiz, diretora executiva da SEO/BirdLife. “Precisamos de áreas protegidas que sejam verdadeiramente seguras. Já não há tempo. A dimensão dos incêndios ultrapassa a nossa capacidade de resposta se continuarmos a atuar de forma fragmentada. É imprescindível um compromisso real e coordenado entre a sociedade, as administrações públicas e os decisores políticos.”