O peixe falso-voador (Dactylopterus volitans) emite sons e faz movimentos (em simultâneo) para comunicar – uma descoberta que eleva a sinfonia dos oceanos. O estudo que o comprova acaba de ser publicado na revista Journal of Zoology.
Desde os anos 70 que se suspeitava que esta espécie produzia sons, mas só agora, pela primeira vez, chegou a confirmação derradeira.
Os resultados do estudo – realizado por investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e do e ce3c – Centro de Ecologia, evolução e Alterações Climáticas, ambos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa) – mostram que o peixe falso-voador emite dois tipos distintos de sons curtos e repetidos, semelhantes a “grunhidos”, que diferem na duração, frequência e ritmo.
Estes sons surgem frequentemente acompanhados pela abertura das grandes barbatanas peitorais, marcadas por padrões de manchas azuis.
O estudo revela ainda que indivíduos juvenis, com menos de 10 centímetros, já produzem sons – o que indica que esta capacidade está presente desde cedo.
Utilizando action cams, a equipa conseguiu registar indivíduos a produzir sons enquanto exibiam um comportamento visual muito característico.
Os registos foram obtidos em situações em que os peixes eram seguidos por mergulhadores e as gravações foram realizadas em Pasjača, na região de Konavle (Croácia; mar Adriático) no contexto de um programa de monitorização de espécies não nativas nas águas croatas.
As conclusões deste estudo vão além desta espécie em concreto. Para o investigador do MARE Manuel Vieira, são essenciais para perceber como os ecossistemas funcionam. “Muitas espécies possuem uma ‘assinatura sonora’ própria, que pode revelar padrões de atividade e interações ecológicas”, explicou em comunicado. “O som permite detetar, por exemplo, espécies invasoras, acompanhar períodos reprodutivos, mapear biodiversidade e identificar alterações ambientais que, de outra forma, passariam despercebidas.”
Os especialistas lembram a importância das ferramentas para realizarem este tipo de observações: a tecnologia – como as action cams – está a ser utilizada em conjunto com a inteligência artificial para analisar a evolução da diversidade e abundância dos sons ao longo do tempo. Uma abordagem que já permite, aliás, acompanhar espécies invasoras no rio Tejo.
Há um mundo sonoro para descobrir debaixo de água, garantem os investigadores, uma autêntica sinfonia. Apesar dos cetáceos e das baleias serem os animais aquáticos com sons mais reconhecidos, em muitos locais são peixes e invertebrados que predominam na paisagem acústica subaquática, apontam. “Estudar e analisar o seu comportamento é ter um vislumbre sobre um mundo que ainda está repleto de segredos.”
“Durante muito tempo, a perceção generalizada foi a de que o debaixo de água é um espaço silencioso, quase vazio de sons. Esta ideia, profundamente enraizada na cultura popular, está longe da realidade”, acrescentou Manuel Vieira. “Em muitos locais, o ambiente subaquático é vibrante, complexo e ruidoso — uma verdadeira sinfonia natural. Divulgar esta diversidade ajuda a aproximar as pessoas do oceano, a despertar curiosidade e a promover uma relação mais consciente com o ambiente marinho.”
O estudo foi realizado por especialistas do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente em colaboração com ARNET – Rede de Investigação Aquática e do ce3c – Centro de Ecologia, evolução e Alterações Climáticas, em colaboração com o Change – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade. Um trabalho conjunto que envolveu também as universidades de Zagreb e de Veneza.