A instalação de parques eólicos marinhos no golfo de Leão, no Mediterrâneo, pode representar novos riscos para a pardela-balear, considerada a ave marinha mais ameaçada da Europa, alertou hoje a SEO/BirdLife.
O alerta foi lançado pela organização de conservação Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) no âmbito de uma consulta ambiental transfronteiriça sobre dois projetos eólicos previstos para a costa sul de França.
Os projetos, conhecidos como Narbonnaise Sud Hérault, prevêem a instalação de aerogeradores flutuantes no Mediterrâneo francês. No entanto, devido à proximidade com águas utilizadas por espécies que se reproduzem em Espanha, as autoridades espanholas foram chamadas a avaliar os possíveis impactos ecológicos.
Segundo a SEO/BirdLife, o problema está na importância do golfo de Leão para a pardela-balear (Puffinus mauretanicus). Esta espécie endémica das Baleares utiliza regularmente a parte ocidental deste golfo como uma das principais áreas de alimentação durante a época de reprodução.
“Qualquer deterioração nesta zona pode repercutir-se diretamente nas colónias espanholas”, alerta, em comunicado, Paul Wawrzynkowski, técnico da organização.
A presença de turbinas eólicas flutuantes, infraestruturas elétricas associadas, maior tráfego marítimo e iluminação noturna pode reduzir a qualidade do habitat, obrigando as aves a fazer desvios energeticamente exigentes para encontrar alimento.
Além da pardela-balear, também a pardela-mediterrânica — classificada como Vulnerável — utiliza regularmente esta região do Mediterrâneo.
Uma zona ecológica sensível
A organização sublinha ainda que os projetos estão planeados para uma área particularmente sensível do ponto de vista ambiental. As zonas previstas para os parques eólicos situam-se dentro da rede europeia de áreas protegidas Rede Natura 2000, numa área designada para proteger espécies como o golfinho-roaz e a tartaruga-comum.
Parte de um dos projetos invade também o perímetro do Parque Natural Marinho do Golfo de Leão, uma área protegida criada para conservar habitats sensíveis e compatibilizar atividades humanas com a proteção da biodiversidade.
Segundo a SEO/BirdLife, a instalação de aerogeradores, cabos e sistemas de ancoragem poderá aumentar a pressão sobre ecossistemas já sensíveis e comprometer a coerência da rede de áreas protegidas no Mediterrâneo noroeste.
Um corredor migratório crucial
O golfo de Leão é também um dos principais corredores migratórios do Mediterrâneo. Estudos científicos identificaram a faixa marítima até 50 quilómetros da costa como a principal rota migratória da região, utilizada por dezenas de milhões de aves todos os anos.
A sobreposição entre este corredor e as áreas previstas para os parques eólicos aumenta o risco de colisões com turbinas, perturbações causadas pela iluminação e alterações nas rotas migratórias.
Para a organização, esta situação levanta dúvidas sobre a compatibilidade dos projetos com as obrigações de proteção previstas na legislação europeia para aves migratórias.
A SEO/BirdLife sublinha que apoia o desenvolvimento das energias renováveis como parte da resposta à crise climática. No entanto, defende que a expansão da energia eólica no mar deve ser planeada com base em conhecimento científico sólido e evitando áreas ecologicamente sensíveis.
“Uma transição energética responsável não pode agravar a situação crítica da pardela-balear”, conclui a organização.
Saiba mais sobre a pardela-balear:
A pardela-balear (Puffinus mauretanicus) é uma espécie Criticamente em perigo, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), e prioritária no contexto da Diretiva Aves.
É uma das 14 espécies de aves colocadas na Categoria Criticamente Em Perigo na Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental, apresentada em dezembro de 2023.
Actualmente, o número de indivíduos reprodutores é reduzido.
As principais ameaças identificadas são a predação dos adultos por mamíferos introduzidos (como gatos e roedores) e a captura acidental em artes de pesca.
A pardela-balear nidifica apenas nas ilhas Baleares, Espanha. As primeiras aves chegam às colónias de reprodução em setembro, efetuando as posturas entre fevereiro e março, e os juvenis abandonam os ninhos em junho, segundo o Atlas das Aves Marinhas de Portugal.
Durante o período não reprodutor, a espécie distribui-se pelas costas atlânticas, desde a Noruega até à costa noroeste africana, com destaque para as águas portuguesas, e no Mediterrâneo Ocidental.
Ocorre ao longo de todo o ano na plataforma continental portuguesa, geralmente junto à costa.
Parte significativa da população mundial utiliza a costa portuguesa como zona de passagem e zona de invernada.
Na verdade, segundo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), costa portuguesa é a zona de passagem migratória mais importante do mundo para a pardela-balear. “Na maior parte da costa portuguesa, as pardelas-baleares tendem a concentrar-se nas milhas mais próximas da costa, havendo também áreas de concentração importantes já identificadas, como a ZPE de Aveiro-Nazaré ou a ZPE do Cabo Raso”, segundo Joana Andrade, coordenadora do Departamento de Conservação Marinha da SPEA.