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Eólicas no golfo de Leão podem ameaçar a ave marinha mais ameaçada da Europa

10.03.2026
leitura de 3 minutos

A instalação de parques eólicos marinhos no golfo de Leão, no Mediterrâneo, pode representar novos riscos para a pardela-balear, considerada a ave marinha mais ameaçada da Europa, alertou hoje a SEO/BirdLife.

O alerta foi lançado pela organização de conservação Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) no âmbito de uma consulta ambiental transfronteiriça sobre dois projetos eólicos previstos para a costa sul de França.

Os projetos, conhecidos como Narbonnaise Sud Hérault, prevêem a instalação de aerogeradores flutuantes no Mediterrâneo francês. No entanto, devido à proximidade com águas utilizadas por espécies que se reproduzem em Espanha, as autoridades espanholas foram chamadas a avaliar os possíveis impactos ecológicos.

Segundo a SEO/BirdLife, o problema está na importância do golfo de Leão para a pardela-balear (Puffinus mauretanicus). Esta espécie endémica das Baleares utiliza regularmente a parte ocidental deste golfo como uma das principais áreas de alimentação durante a época de reprodução.

“Qualquer deterioração nesta zona pode repercutir-se diretamente nas colónias espanholas”, alerta, em comunicado, Paul Wawrzynkowski, técnico da organização.

A presença de turbinas eólicas flutuantes, infraestruturas elétricas associadas, maior tráfego marítimo e iluminação noturna pode reduzir a qualidade do habitat, obrigando as aves a fazer desvios energeticamente exigentes para encontrar alimento.

Além da pardela-balear, também a pardela-mediterrânica — classificada como Vulnerável — utiliza regularmente esta região do Mediterrâneo.

Uma zona ecológica sensível

A organização sublinha ainda que os projetos estão planeados para uma área particularmente sensível do ponto de vista ambiental. As zonas previstas para os parques eólicos situam-se dentro da rede europeia de áreas protegidas Rede Natura 2000, numa área designada para proteger espécies como o golfinho-roaz e a tartaruga-comum.

Parte de um dos projetos invade também o perímetro do Parque Natural Marinho do Golfo de Leão, uma área protegida criada para conservar habitats sensíveis e compatibilizar atividades humanas com a proteção da biodiversidade.

Segundo a SEO/BirdLife, a instalação de aerogeradores, cabos e sistemas de ancoragem poderá aumentar a pressão sobre ecossistemas já sensíveis e comprometer a coerência da rede de áreas protegidas no Mediterrâneo noroeste.

Um corredor migratório crucial

O golfo de Leão é também um dos principais corredores migratórios do Mediterrâneo. Estudos científicos identificaram a faixa marítima até 50 quilómetros da costa como a principal rota migratória da região, utilizada por dezenas de milhões de aves todos os anos.

A sobreposição entre este corredor e as áreas previstas para os parques eólicos aumenta o risco de colisões com turbinas, perturbações causadas pela iluminação e alterações nas rotas migratórias.

Para a organização, esta situação levanta dúvidas sobre a compatibilidade dos projetos com as obrigações de proteção previstas na legislação europeia para aves migratórias.

A SEO/BirdLife sublinha que apoia o desenvolvimento das energias renováveis como parte da resposta à crise climática. No entanto, defende que a expansão da energia eólica no mar deve ser planeada com base em conhecimento científico sólido e evitando áreas ecologicamente sensíveis.

“Uma transição energética responsável não pode agravar a situação crítica da pardela-balear”, conclui a organização.

Saiba mais sobre a pardela-balear:

A pardela-balear (Puffinus mauretanicus) é uma espécie Criticamente em perigo, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), e prioritária no contexto da Diretiva Aves.

É uma das 14 espécies de aves colocadas na Categoria Criticamente Em Perigo na Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental, apresentada em dezembro de 2023.

Actualmente, o número de indivíduos reprodutores é reduzido.

As principais ameaças identificadas são a predação dos adultos por mamíferos introduzidos (como gatos e roedores) e a captura acidental em artes de pesca.

A pardela-balear nidifica apenas nas ilhas Baleares, Espanha. As primeiras aves chegam às colónias de reprodução em setembro, efetuando as posturas entre fevereiro e março, e os juvenis abandonam os ninhos em junho, segundo o Atlas das Aves Marinhas de Portugal.

Durante o período não reprodutor, a espécie distribui-se pelas costas atlânticas, desde a Noruega até à costa noroeste africana, com destaque para as águas portuguesas, e no Mediterrâneo Ocidental.

Ocorre ao longo de todo o ano na plataforma continental portuguesa, geralmente junto à costa.

Parte significativa da população mundial utiliza a costa portuguesa como zona de passagem e zona de invernada. 

Na verdade, segundo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), costa portuguesa é a zona de passagem migratória mais importante do mundo para a pardela-balear. “Na maior parte da costa portuguesa, as pardelas-baleares tendem a concentrar-se nas milhas mais próximas da costa, havendo também áreas de concentração importantes já identificadas, como a ZPE de Aveiro-Nazaré ou a ZPE do Cabo Raso”, segundo Joana Andrade, coordenadora do Departamento de Conservação Marinha da SPEA. 

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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