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Entre Espanha, África e o sul de Portugal, este projeto está a seguir 13 britangos por GPS

12.12.2025
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Cria de britango (Neophron percnopterus), na altura de ser marcada com um emissor GPS. Foto: AMUS

Objetivo é conhecer melhor o abutre mais pequeno da Península Ibérica. Duas das aves seguidas dispensaram migração para África e passaram várias semanas deste outono a explorar território português.

O britango (Neophron percnopterus), também conhecido como abutre-do-egipto, é o objeto de estudo de um novo projeto espanhol liderado pela AMUS – Acción por el Mundo Salvaje. Esta ONG quer conhecer melhor o comportamento e as ameaças que afetam este que é o abutre mais ameaçado da Europa.

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Um britango (Neophron percnopterus) adulto. Foto: Ricardo Brandão/CERVAS

Ao longo de 2025, a equipa do projeto já marcou 13 britangos com emissores GPS: dez crias, dois adultos e um juvenil proveniente de um centro de recuperação, nas regiões espanholas de Aragão, Castela e Leão, Extremadura e Navarra, descreve Alfonso Godino, que está ligado à AMUS.

Os abutres desta espécie nascidos na na Península Ibérica migram no outono para o sul do deserto do Saara, permanecendo vários meses numa faixa de território conhecida como Sahel, principalmente na Mauritânia e Mali. A partir de finais de fevereiro já estão de regresso, para se reproduzirem.

Duas crias de britango, prestes a serem marcadas com pequenos aparelhos de GPS que vão permitir o seu seguimento à distância. A cabeça tapada ajuda a que permaneçam calmas. Foto: AMUS

Sabe-se também que muitos juvenis optam por passar vários anos em África antes de atingirem a idade adulta, e então voltam ao continente europeu. “No entanto, nos últimos anos têm-se registado cada vez mais aves, tanto jovens como adultas, que optam por permanecer em Espanha durante o inverno”, explica Alfonso Godino, que trabalha como técnico de conservação da natureza.

De Espanha para o Alentejo e Algarve. E de regresso

De facto, dois dos 13 britangos marcados com emissores, ainda juvenis, surpreenderam a equipa quando não migraram este ano para África, passando várias semanas a explorar regiões portuguesas onde a espécie é hoje pouco comum. Segundo Alfonso, “um deles nasceu num ninho da província de León, no noroeste de Espanha, e o outro é uma cria resgatada de um ninho em Cáceres, recuperada num centro de recuperação e depois libertada”.

Britango com um emissor GPS preso ao dorso como se fosse uma pequena mochila, antes de ser libertado. Foto: AMUS

No caso da jovem ave nascida em León, que deixou o ninho em setembro passado, dois dias depois voou até ao norte da província de Cáceres, muito perto da fronteira portuguesa e do Parque Natural do Tejo Internacional. “Passou ali todo o mês de outubro, fazendo pequenas incursões a Portugal, chegando a locais como Foros de Arrão e Estremoz. Já em novembro iniciou uma longa viagem para sul, atravessando novamente a fronteira pela ZPE de Moura-Mourão-Barrancos, passando pelo Parque Natural do Guadiana e pela serra de Monchique, antes de seguir para leste e alcançar a província de Huelva, onde se encontra agora”, detalha o responsável da AMUS.

Além de serem marcados com emissores e anilhados, os britangos foram também medidos e analisados. Foto: AMUS

Já o juvenil libertado em Cáceres começou a voar para sul passados poucos dias e acabou por entrar em Portugal pelo Parque Natural do Guadiana, depois de atravessar a província de Badajoz e o norte de Huelva. “Durante grande parte de outubro e até meados de novembro, permaneceu entre o sul do Alentejo e o norte do Algarve, até regressar a Espanha próximo de Mourão, já no distrito de Évora.”

Muitos britangos nidificam em arribas. Aqui, técnicos preparam-se para recolher uma cria do ninho. Foto: AMUS

Em Portugal, é no Nordeste Transmontano, Douro Internacional e Tejo Internacional que melhor se pode observar esta espécie, aí presente de finais de fevereiro a setembro para se reproduzir. Todavia, o III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal estima que a população portuguesa de britangos diminuiu 10% entre 2000 e 2018, “com o desaparecimento como nidificante do sul do país e de grande parte de Trás-os-Montes e Alto Douro”.

O que será melhor?

Duas das perguntas a que o novo projeto quer responder é se os britangos que passam o inverno na Península Ibérica podem ter mais vantagens, sobrevivendo mais do que aqueles que migram para África, e quais são os maiores perigos que afetam estes abutres de face amarela e penas brancas. A AMUS tem como parceiros o Hawk Mountain Sanctuary (EUA), “uma entidade muito focada em aves de rapina migratórias”, e também a Fundação Iberdrola.

Assim que tiverem todos os dados, a equipa vai analisar o grupo de britangos que está a seguir e colaborar com outros estudos sobre esta espécie. “Além do uso do espaço e das ameaças que possamos detetar através dos dispositivos GPS, o estudo toxicológico que faremos com as amostras de todas as aves incluídas neste estudo será também uma contribuição importante”, acrescentou Alfonso.

No próximo ano, em 2026, prevê-se que sejam marcadas mais duas crias no ninho, no sul de Espanha, e outros três adultos no sul e oeste daquele país. E pelo menos até 2030, o objetivo é continuar a acompanhar os movimentos destas aves.


Saiba mais.

Fique a conhecer melhor o britango ou abutre-do-egipto, aqui.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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