Objetivo é conhecer melhor o abutre mais pequeno da Península Ibérica. Duas das aves seguidas dispensaram migração para África e passaram várias semanas deste outono a explorar território português.
O britango (Neophron percnopterus), também conhecido como abutre-do-egipto, é o objeto de estudo de um novo projeto espanhol liderado pela AMUS – Acción por el Mundo Salvaje. Esta ONG quer conhecer melhor o comportamento e as ameaças que afetam este que é o abutre mais ameaçado da Europa.

Ao longo de 2025, a equipa do projeto já marcou 13 britangos com emissores GPS: dez crias, dois adultos e um juvenil proveniente de um centro de recuperação, nas regiões espanholas de Aragão, Castela e Leão, Extremadura e Navarra, descreve Alfonso Godino, que está ligado à AMUS.
Os abutres desta espécie nascidos na na Península Ibérica migram no outono para o sul do deserto do Saara, permanecendo vários meses numa faixa de território conhecida como Sahel, principalmente na Mauritânia e Mali. A partir de finais de fevereiro já estão de regresso, para se reproduzirem.

Sabe-se também que muitos juvenis optam por passar vários anos em África antes de atingirem a idade adulta, e então voltam ao continente europeu. “No entanto, nos últimos anos têm-se registado cada vez mais aves, tanto jovens como adultas, que optam por permanecer em Espanha durante o inverno”, explica Alfonso Godino, que trabalha como técnico de conservação da natureza.
De Espanha para o Alentejo e Algarve. E de regresso
De facto, dois dos 13 britangos marcados com emissores, ainda juvenis, surpreenderam a equipa quando não migraram este ano para África, passando várias semanas a explorar regiões portuguesas onde a espécie é hoje pouco comum. Segundo Alfonso, “um deles nasceu num ninho da província de León, no noroeste de Espanha, e o outro é uma cria resgatada de um ninho em Cáceres, recuperada num centro de recuperação e depois libertada”.

No caso da jovem ave nascida em León, que deixou o ninho em setembro passado, dois dias depois voou até ao norte da província de Cáceres, muito perto da fronteira portuguesa e do Parque Natural do Tejo Internacional. “Passou ali todo o mês de outubro, fazendo pequenas incursões a Portugal, chegando a locais como Foros de Arrão e Estremoz. Já em novembro iniciou uma longa viagem para sul, atravessando novamente a fronteira pela ZPE de Moura-Mourão-Barrancos, passando pelo Parque Natural do Guadiana e pela serra de Monchique, antes de seguir para leste e alcançar a província de Huelva, onde se encontra agora”, detalha o responsável da AMUS.

Já o juvenil libertado em Cáceres começou a voar para sul passados poucos dias e acabou por entrar em Portugal pelo Parque Natural do Guadiana, depois de atravessar a província de Badajoz e o norte de Huelva. “Durante grande parte de outubro e até meados de novembro, permaneceu entre o sul do Alentejo e o norte do Algarve, até regressar a Espanha próximo de Mourão, já no distrito de Évora.”

Em Portugal, é no Nordeste Transmontano, Douro Internacional e Tejo Internacional que melhor se pode observar esta espécie, aí presente de finais de fevereiro a setembro para se reproduzir. Todavia, o III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal estima que a população portuguesa de britangos diminuiu 10% entre 2000 e 2018, “com o desaparecimento como nidificante do sul do país e de grande parte de Trás-os-Montes e Alto Douro”.
O que será melhor?
Duas das perguntas a que o novo projeto quer responder é se os britangos que passam o inverno na Península Ibérica podem ter mais vantagens, sobrevivendo mais do que aqueles que migram para África, e quais são os maiores perigos que afetam estes abutres de face amarela e penas brancas. A AMUS tem como parceiros o Hawk Mountain Sanctuary (EUA), “uma entidade muito focada em aves de rapina migratórias”, e também a Fundação Iberdrola.
Assim que tiverem todos os dados, a equipa vai analisar o grupo de britangos que está a seguir e colaborar com outros estudos sobre esta espécie. “Além do uso do espaço e das ameaças que possamos detetar através dos dispositivos GPS, o estudo toxicológico que faremos com as amostras de todas as aves incluídas neste estudo será também uma contribuição importante”, acrescentou Alfonso.
No próximo ano, em 2026, prevê-se que sejam marcadas mais duas crias no ninho, no sul de Espanha, e outros três adultos no sul e oeste daquele país. E pelo menos até 2030, o objetivo é continuar a acompanhar os movimentos destas aves.
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