Espécies de plantas endémicas em risco foram destruídas no Alentejo, na área de influência do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, denunciou hoje a associação ZERO. A organização critica a “incapacidade de resposta crónica das entidades responsáveis”.
Recentemente foram destruídos dois núcleos de espécies protegidas, incluindo a linária-dos-olivais (Linaria ricardoi) e a Bellevalia trifoliata – a primeira Em Perigo e a segunda Criticamente Em Perigo -, no bloco Beringel-Beja, alertou hoje a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.
“Intervenções num olival tradicional destruíram um núcleo conhecido de linária-dos-olivais, à semelhança da situação identificada pela ZERO em 2021”, apesar da proteção comunitária e do programa de monitorização da espécie a cargo da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva (EDIA). Uma outra espécie que foi afetada, a Bellevalia trifoliata, apenas ocorre no nosso país, praticamente, a estas áreas entre Beringel e Beja.
No início de Abril, a ZERO comunicou à EDIA e à Direção Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo (DRCNF Alentejo / ICNF) da possível destruição de espécies protegidas. Pediu a verificação dos trabalhos que se iniciavam e uma atuação na defesa dos valores em causa, assim como informações sobre as diligências tomadas e respetivos efeitos.
“Apesar da resposta célere da EDIA, apenas no final de maio a ZERO recebeu informação de que o ICNF teria dado ordem para parar os trabalhos – altura em que soube que os trabalhos continuavam, voltando a contactar a entidade”, explicou a associação.
“Apenas a 23 de julho, a ZERO recebeu resposta da DRCNF Alentejo, confirmando o estatuto de proteção das espécies e a ilegalidade de quaisquer alterações no uso do solo sem parecer prévio. Mencionam então que ‘o caso relatado e identificado em assunto está a ser acompanhado por estes Serviços, decorrendo diligências no sentido da salvaguarda destas espécies da flora de elevado valor conservacionista’. Infelizmente o dano pode ser, agora, irreversível.”
A associação lamenta ainda que, “mesmo havendo denúncias, a atuação das entidades responsáveis não tem garantido a proteção dos valores naturais em causa”.
Segundo a ZERO, “a falta de monitorização e a morosidade na proteção de espécies e habitats deixa em sério risco o equilíbrio ecológico do território perante um modelo de intensificação agrícola desligado da biodiversidade”.
A ZERO apela a uma protecção urgente dos locais de ocorrência identificada de espécies e habitats de alto valor e a reconfiguração dos sistemas de incentivo para que a proteção da biodiversidade por parte de agricultores e gestores de terras seja devidamente compensada.
Além disso, defende que se inicie uma pós-avaliação independente dos impactes do EFMA, incluindo na biodiversidade, e que se as organizações de desenvolvimento local e de defesa de direitos sociais e ambientais estejam representadas no Conselho para o Acompanhamento do Regadio (CAR) de Alqueva.
Este caso “reforça a urgência de medidas eficazes para travar a perda de valores naturais e garantir uma atuação célere na proteção dos ecossistemas ameaçados”.