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Detectados microplásticos em larvas de peixes acabadas de eclodir

29.04.2026
leitura de 2 minutos
Foto: Pexels/Pixabay

As larvas de peixes em ambiente natural já contêm microplásticos imediatamente após a eclosão, antes mesmo de se começarem a alimentar, revela um novo estudo liderado por investigadores do CIIMAR.

Cada vez são mais as evidências de que os microplásticos (partículas com menos de 5 milímetros) estão disseminados por todo o planeta, até mesmo nos pinguins da Antárctida.

Agora, um artigo científico publicado na revista Frontiers in Marine Science descobriu que não são só os peixes adultos com microplásticos no seu organismo.

A maioria dos estudos até à data tem-se focado em peixes adultos. Mas onde, no ciclo de vida destes animais, começa esta contaminação?

A investigadora Sabrina Rodrigues, do grupo Ecologia de Peixes e Sustentabilidade do CIIMAR, foi tentar descobrir. Para isso recolheu larvas de peixes selvagens diretamente no meio natural e analisou a presença de microplásticos em todas as fases iniciais de desenvolvimento, incluindo o seu estádio mais precoce, logo após a eclosão.

Os resultados agora publicados mostram que estes microplásticos já estão presentes em larvas com saco vitelino, uma fase em que os organismos ainda não abriram a boca nem iniciaram a alimentação.

“Os estudos anteriores sobre microplásticos em peixes limitavam-se, em grande parte, a organismos de laboratório ou centravam-se apenas em adultos que já se alimentavam ativamente”, explicou Sabrina Rodrigues, em comunicado enviado à Wilder. “Este estudo foi diferente porque procurou perceber o que se passa durante todas as fases do desenvolvimento”, acrescentou a primeira autora do estudo.

Os resultados indicam que a contaminação por microplásticos nesta fase não ocorre por ingestão mas, provavelmente, por transferência da mãe para a descendência, ou através do ovo ou do vitelo, a substância nutritiva no ovo, composta sobretudo por proteínas e gorduras, para alimentar o embrião durante o seu desenvolvimento.

Esta via de exposição nunca tinha sido, até agora, documentada em peixes selvagens.

“Enquanto investigadora, encontrar microplásticos em larvas que nunca tinham aberto a boca foi simultaneamente fascinante e preocupante. Percebemos que a poluição por plástico atinge os peixes desde o início da sua vida”, acrescentou a investigadora.

Mas os resultados não ficam por aqui. O estudo liderado pelas investigadoras do CIIMAR Sandra Ramos e Marisa Almeida verificou ainda que a quantidade de microplásticos nas larvas reflete diretamente os níveis deste poluente no ambiente envolvente. Ou seja, quanto maior a concentração de microplásticos na água, maior a contaminação nas larvas, independentemente da espécie, tamanho ou estádio de desenvolvimento.

“Os nossos resultados abrem uma nova linha de investigação, nomeadamente sobre a forma como os microplásticos podem ser transmitidos dos adultos para a sua descendência, como a saúde dos peixes pode ser afetada desde essas fases iniciais e o que isso significa para os ecossistemas marinhos e a segurança dos produtos do mar”, comentou Sandra Ramos.

Ao demonstrar que a exposição a microplásticos começa mais cedo do que se pensava, o estudo amplia a compreensão sobre a vulnerabilidade dos organismos marinhos e “reforça a necessidade de reduzir a poluição plástica nos oceanos, numa altura que que o público já se parece ter tornado insensível às notícias sobre a poluição por plástico”, disse ainda Marisa Almeida.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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