Um abutre-preto juvenil nascido este ano foi encontrado debilitado em Montemor-o-Novo a 12 de agosto. Após a sua recuperação no CARAS, em Évora, a cria foi libertada na Herdade da Contenda, em Moura. As equipas LIFE Aegypius Return monitorizam agora os seus movimentos graças a emissor GPS/GSM.
“Foi no parque de uma oficina automóvel de Montemor-o-Novo que um abutre-preto (Aegypius monachus) debilitado procurou descansar. Os trabalhadores da oficina, surpreendidos com a presença da enorme ave, alertaram a Guarda Nacional Republicana (GNR) que, por sua vez, acionou a equipa do CARAS – o Centro de Acolhimento e Recuperação de Animais Silvestres, gerido pela LPN (Liga para a Protecção da Natureza), em Évora”, informou esta organização de conservação, em comunicado.
Tratava-se de uma cria bastante jovem, nascida em 2025, e estava bastante debilitada, com apenas 5 kg de peso. Os exames médico-veterinários mostraram que não tinha lesões, nem aparentava ter nenhum problema de maior.
O diagnóstico era simples: precisava de alimento, hidratação e descanso.
“Após a primeira refeição, o abutre-preto ganhou vitalidade e… alguma rebeldia. Bicadas impacientes e pontapés nos objetos passaram a fazer parte da rotina sempre que alguém se aproximava para depositar alimento ou avaliar progressos.”
O agitado momento de colocação de um emissor GPS/GSM valeu-lhe o nome de Brava, dado ser uma fêmea. Em menos de uma semana, a Brava ganhou 3 kg e estava pronta para ser devolvida à natureza.
De volta à liberdade
No âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, os abutres-pretos juvenis de origem desconhecida que dão entrada em Centros de Recuperação são geralmente encaminhadas para o programa de aclimatação, com o objetivo de reforçar a frágil colónia do Douro Internacional. No entanto, devido ao grave incêndio que devastou a região, e pelo facto de as condições logísticas do programa não estarem ainda repostas (o que acontecerá brevemente), desta vez a Brava foi devolvida à natureza.
A libertação aconteceu na Herdade da Contenda, em Moura, a 2 de setembro, poucos dias antes do Dia Internacional dos Abutres que se celebra a 6 de setembro.
Na Herdade da Contenda, “a Brava pode explorar uma vasta extensão de habitat favorável, junto de muitos indivíduos da mesma espécie. Tem também alimento disponível no campo de alimentação da Herdade, e ainda, conforme ocorra mortalidade de gado ovino ou caprino, nas áreas de alimentação privadas recentemente aprovadas”.
Os registos do emissor GPS/GSM mostram que, após a devolução à natureza, a Brava voou para a zona sul da Herdade da Contenda, onde passou a noite. No dia seguinte, explorou amplamente a região fronteiriça, visitando inclusive as áreas de nidificação de abutres-pretos tanto na Contenda portuguesa como na Contienda espanhola.
A Brava – o 51.º abutre-preto marcado no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return – passará a ser monitorizada de forma contínua pelas equipas do projeto, que estarão prontas a intervir caso volte a enfrentar alguma dificuldade.
Estar atento a abutres debilitados
“Nesta época do ano, é relativamente comum encontrarem-se abutres-pretos (ou grifos) debilitados, longe do seu habitat habitual”, explicou a LPN. “Após saírem do ninho, alguns juvenis fazem voos de dispersão muito longos, durante os quais podem não encontrar alimento ou habitat adequado para descansar. São, assim, muitas vezes encontrados em zonas atípicas, como áreas urbanas ou costeiras.”
Se avistar algum abutre-preto em dificuldades, por favor alerte de imediato a GNR, através da linha SOS Ambiente e Território (808 200 520), disponível 24 horas por dia.
Em Portugal existem cinco colónias de abutre-preto com 108 casais registados em 2024 e um total de, pelo menos, 48 crias voadoras, segundo dados da Fundação para a Conservação dos Abutres (Vulture Conservation Foundation).
O abutre-preto é o maior abutre da Europa, com uma envergadura de asas de quase três metros. Foi classificado em 2005 como Criticamente em Perigo em Portugal. Após a sua extinção como espécie reprodutora no país, na década de 1970, o primeiro ninho em território nacional foi observado em 2010, no Parque Natural do Tejo Internacional. Desde então, e graças a esforços conservacionistas, tem vindo a regressar ao país. Hoje, e desde 2022, está classificado como Em Perigo de extinção.