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Centros de recuperação de fauna: Nunca no Rias entraram tantos ouriços como agora

15.05.2023
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Foto: Rias

A quantidade destes pequenos mamíferos foi tão grande no início do ano que obrigou à criação de uma “Vila Ouriço” na sala de crias, explicou Vera Marques, membro da equipa deste centro algarvio, em entrevista à Wilder.

Entre os tratadores que trabalham no único local dedicado à recuperação de animais selvagens em todo o Algarve, tem sido grande a azáfama em torno dos pequenos ouriços-cacheiros que ali chegam a precisar de ajuda. Desde o início deste ano, 80 destes mamíferos “picudos”, incluindo 11 sem vida, deram entrada no Rias – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens.

Janeiro e Fevereiro foram meses especialmente agitados, com a entrada de 29 ouriços no primeiro mês e outros 28 no mês seguinte, lembra Vera Marques, da área de Educação Ambiental e Divulgação do Rias. “Muitos deles eram bastante pequenos, exigindo que fizéssemos aquilo que fazemos melhor, que é improvisar. Na nossa sala de crias criámos uma ‘Vila Ouriço’ para manter todos os ouriços no mesmo espaço, assim como todo o material necessário para a sua recuperação.”

“Foi necessário dar ainda leite a alguns, e administrar antibióticos, ou fluídos sub-cutâneos a outros”, descreve a mesma responsável. “Cada ouriço-cacheiro tinha as suas necessidades clínicas, o que exigiu muita dedicação da nossa equipa.”

Foto: Rias

Mas o que terá acontecido para uma afluência tão grande de crias nos primeiros meses deste ano? Os ouriços podem ter duas ninhadas por ano, sendo a última geralmente no Outono, “numa altura em que o alimento acaba por ser menos abundante”. E por isso, é provável que estes pacientes fossem “órfãos de Outono”, animais ainda jovens que ficam habitualmente “muito debilitados”.

Além das crias órfãs – encontradas fora das tocas, debilitadas e sem progenitores por perto – as outras causas principais de ingresso de ouriços no Rias têm sido os atropelamentos e a debilidade de animais já adultos adultos, afectados pela destruição dos espaços naturais onde vivem e pela falta de comida – caracóis, lesmas e vários insectos, como as borboletas.

A maior parte dos ouriços chegam ao Rias transportados por quem os encontrou. Por vezes, quando as pessoas não conseguem ali chegar, entregam os animais no posto da GNR mais próximo, e são depois entregues no centro pelas equipas SEPNA (Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente), que pertencem à GNR, ou pela equipa de recolha do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Dos 80 que entraram este ano, alguns não sobreviveram e muitos já foram devolvidos à natureza. Neste momento está tudo mais calmo, com 12 aos cuidados da equipa.

De uma dezena para 126 ouriços

Mas se este ano está a ser grande o número de entradas, em 2022 a quantidade de ingressos já era também elevada: um total de 126 ouriços-cacheiros de Janeiro a Dezembro, sem comparação possível com uma dezena que ali chegaram em 2009, no primeiro ano de actividade. É claro que uma parte dessa diferença explica-se porque “cada vez mais pessoas conhecem o Rias” e ali trazem os animais, admite Vera Marques, mas outra causa será provavelmente o facto de haver “cada vez mais uma elevada proximidade entre estes mamíferos e as pessoas”.

Foto: Rias

Apesar de serem considerados abundantes em território português e estarem classificados com um estatuto Pouco Preocupante, os ouriços são pouco estudados a nível nacional, indica o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental.

No Reino Unido, por exemplo, onde há mais estudos científicos sobre a espécie, “é referida a predação excessiva de ouriços por raposas e texugos, a perda de habitat, a expansão urbana, e a simplificação da paisagem agrícola (intensificação e diminuição de sebes) como factores de ameaça às populações”, acrescenta o mesmo documento, publicado em Abril.

Certo é que estes animais têm mais actividade tanto na Primavera como no Verão. Por estes dias, descreve Vera Marques, “refugiam-se em vegetação durante o dia e andam activos em busca de alimento durante a noite”, enquanto que nos meses mais frios chegam a hibernar, pelo menos numa parte do país. “Aqui no Algarve, não parece haver propriamente hibernação desta espécie dadas as temperaturas mais amenas”.

Aliás, é sobretudo nestes meses mais quentes, indica o Livro Vermelho dos Mamíferos, que por se movimentarem mais os ouriços correm maior risco de serem atropelados.

Principais cuidados a ter

De facto, questionada sobre as principais medidas a tomar para a conservação da espécie, a responsável do Rias aponta, em primeiro lugar, a atenção que devemos ter na estrada: “É muito provável que todos já tenhamos visto ouriços atropelados no meio ou na berma da estrada. Por vezes, é impossível evitar o pior, mas se houver a hipótese de desvio em segurança, podemos fazê-lo.” 

Outra questão importante é que estes animais são silvestres, pelo que não devem depender dos humanos para conseguirem alimentos. “Deixar-lhes comida é aumentar a probabilidade de habituação. Para além disto, poderão ainda transmitir agentes patogénicos a animais domésticos, ou vice-versa”, sublinha.

Em terceiro lugar, caso alguém corte ou queime vegetação, “assegurar-se de que não há ouriços nas proximidades também é uma forma de minimizar possíveis problemas”. E finalmente, caso encontre um ouriço que precise de auxílio, a pessoa deve encaminhá-lo “o mais depressa possível até ao centro de recuperação de fauna selvagem mais próximo, e não mantê-lo em casa”, avisa. 

Desta forma, se mais cuidados destes começarem a ser adoptados, pode ser que os números de ouriços no Rias diminuam nos próximos tempos, e que já não seja necessária uma nova “Vila Ouriço” para tomar conta de tantas crias debilitadas.


Saiba mais.

Caso deseje, pode apadrinhar um dos ouriços-cacheiros acolhidos pelo Rias. “Os apadrinhamentos são uma das formas de apoiar o nosso trabalho e de contribuir para a recuperação do animal apadrinhado”, explica Vera Marques. “Poderão fazer o apadrinhamento para si mesmos, ou oferecer. É sempre uma prenda original e que permite o envolvimento na conservação da biodiversidade. E claro, serão convidados a participar na libertação do picudo afilhado, um momento incrível de testemunhar. Caso não possam estar presente, existe sempre a possibilidade enviar fotos e vídeos desse momento.”

Mas não é só no Algarve que o número de ouriços em centros de recuperação de fauna selvagem está a aumentar. O mesmo acontece no Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa, como pode recordar nesta notícia da Wilder.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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