PUB

Águia-imperial em alimentador da Faia Brava surpreende conservacionistas

30.04.2026
leitura de 3 minutos
Águia-imperial. Foto: Reserva Natural da Faia Brava

Uma águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) foi recentemente registada num campo de alimentação gerido pela Associação Faia Brava, em Figueira de Castelo Rodrigo. É o primeiro registo nesta região para esta espécie Criticamente Em Perigo em Portugal e que surpreendeu os conservacionistas.

Hoje existirão apenas 25 casais de águias-imperiais em Portugal, a maioria no Baixo Alentejo. Esta é uma das espécies de aves mais raras e ameaçadas do nosso país.

Durante a década de 1980, a águia-imperial-ibérica deixou de nidificar em Portugal, tendo sido considerada extinta enquanto espécie reprodutora. Só voltou a confirmar-se a presença de um casal com ninho, no Parque Natural do Tejo Internacional, em 2003, e no Alentejo, em 2006.

Desde então, as águias que ocorrem em território português têm vindo lentamente a aumentar, graças à melhoria das populações espanholas e a esforços de conservação, em especial ao programa LIFE Imperial que decorreu de 2013 a 2020.

Esta semana, a Wilder falou com João Carvalho, investigador da Universidade de Aveiro e coordenador de Biodiversidade da Reserva Natural da Faia Brava, a propósito da identificação de uma águia-imperial próximo daquela que foi a primeira Área Protegida Privada de Portugal.

Em março passado, durante os trabalhos de monitorização de fauna, foi registada a presença de um exemplar de ave imatura de águia-imperial-ibérica. O registo foi obtido através de foto-armadilhagem por Luís Pereira, com apoio na identificação de Carlos Pacheco.

Águia-imperial. Foto: Reserva Natural da Faia Brava

“Trata-se de uma ave imatura com cerca de três anos que foi observada no nosso Campo de Alimentação de Aves Necrófagas” de Escalhão, criado em 2017 e gerido pela associação Faia Brava, explicou João Carvalho.

Não há certezas quanto ao sexo desta águia mas tanto João Carvalho como Carlos Pacheco acreditam que talvez se trate de um macho em dispersão vindo, provavelmente das colónias mais próximas em Espanha ou no Tejo Internacional.

Que se saiba, é rara a presença de indivíduos desta espécie tão a Norte. “Este registo, ainda que seja um registo isolado, é para nós um motivo de satisfação e uma motivação para continuarmos o trabalho para criar espaços para a natureza e para restaurar os processos funcionais destes ecossistemas”, comentou ainda.

O esforço de monitorização feito pelas cerca de 60 câmaras de foto-armadilhagem espalhadas pelos quase 1000 hectares da Reserva Natural de habitat tipicamente mediterrânico já permitiu outras descobertas. Entre elas, o especialista destaca o gato-bravo (Felis silvestris). “Esta espécie tem sido observada, de forma consistente, na Faia Brava desde 2021”, referiu.

Campo de Alimentação de Aves Necrófagas. Foto: Reserva Natural da Faia Brava

Condições para a águia-imperial na Faia Brava

Segundo João Carvalho, a águia-imperial observada na região é um indivíduo imaturo e que estará a fazer as suas incursões noutros territórios. “O facto de ter aparecido ali não significa necessariamente que vá nidificar.”

Apesar de ali esta espécie contar com tranquilidade, só isso não chega para conseguir uma nidificação. Ainda há trabalho a fazer para melhorar aqueles habitats para receber esta rapina.

Um dos maiores desafios prende-se com a sua presa natural por excelência, o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), espécie classificada como Em Perigo de extinção a nível mundial e Vulnerável em Portugal. Por enquanto, ainda não existe em densidade e abundância suficientes.

Coelho-bravo. Foto: Liz Poon, CSIRO/Wiki Commons

“Na Faia Brava estamos a fazer esforços para reforçar o coelho-bravo, uma espécie chave essencial para que os grandes predadores como o gato-bravo ou a águia-imperial comecem a surgir aqui com cada vez com mais frequência.”

“Ter populações saudáveis de coelho-bravo é meio caminho andado para termos aqui esta espécie.”

Entre as medidas no terreno estão o controlo dos matos para garantir zonas de prados e a construção de abrigos artificiais, os marouços. Ainda está a ser considerada a hipótese de reforços populacionais de coelho-bravo.

“Estamos a trabalhar muito afincadamente para garantir que a Faia Brava reúna estas bases que são o refúgio, o alimento e o habitat de qualidade”, acrescentou.

Outras medidas que beneficiam a águia-imperial passam por manter as árvores maduras e robustas onde estas aves constroem os seus ninhos, nomeadamente nos montados de sobro e de azinho, e os mosaicos de paisagem, com zonas de pastagens.

Abutres-do-Egipto na Reserva Natural da Faia Brava. Foto: Reserva Natural da Faia Brava

A Reserva Natural da Faia Brava foi criada há cerca de 25 anos e desde cedo apostou na compra de terrenos para a natureza e conservação de espécies e de ecossistemas. Hoje, os seus cerca de mil hectares funcionam também como um laboratório vivo de investigação de inúmeras questões, entre elas o restauro da natureza, a regeneração natural e o papel de determinadas espécies como engenheiras de ecossistemas, e de parcerias com agentes locais.

“Numa região como esta, onde Homem e Natureza coexistem há tanto tempo, não tenho dúvidas de que o caminho é mesmo esse. Temos de conseguir conciliar a presença humana e a conservação, até porque são totalmente compatíveis.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca