Foto: Paulo Catry

Crónicas naturais: Patagónia, bela e deserdada

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Durante uma escala em Punta Arenas, na Patagónia chilena, Paulo Catry viu pumas, guanacos, aves diversas, mas apercebeu-se de uma ausência nesta paisagem única e fascinante.

Outubro 2026

Há 25 anos que sobrevoo anualmente a Patagónia, a caminho das Falkland/Malvinas. Durante horas, desde Santiago do Chile a caminho de Punta Arenas, os Andes desfilam lá em baixo. Vulcões (ocasionalmente com uma echarpe branca a esfumar-se da cratera), glaciares imensos, vales remotos, florestas extensas. Se me sento do lado direito do avião e o céu está limpo, vejo fiordes, canais, ilhas desabitadas, mais floresta. Depois da escala em Punta Arenas, são as estepes, salpicadas de lagos, numa extensão também ela de aparência interminável.

Deliciado, meio adormecido pelo sol que entra pela janela, cismo sobre as almas vivas que darão sentido a toda esta paisagem. Ainda que eu seja um naturalista de banda larga, facilmente encantado por libélulas, grilos ou gladíolos, não posso deixar de sentir uma atração única pela chamada megafauna. Grandes animais que, para muitos de nós, simbolizam regiões inteiras. Talvez seja uma afinidade um pouco simplória, diga-se, mas na verdade é cada vez mais claro, da investigação científica por esse mundo fora, que os grandes herbívoros ou os predadores de topo moldam, pela sua ação, toda a composição e funcionamento dos ecossistemas que habitam. 

Cismo da janela do avião sem conhecer em detalhe o território, procuro lembrar-me das leituras feitas, mas não encontro nenhuma águia verdadeiramente grande e possante, os ursos-de-lunetas-dos-andes ficaram junto ao equador, não há cabras-montesas nem camurças, de grandes herbívoros temos os guanacos e um veado raríssimo (huemul), habitante das florestas do Sul. Há o condor, claro, o maior de todos os abutres do mundo. E o puma. 

Em miúdo, de todas as fotos de montanha que vi (as fotos viam-se nos livros, só nos livros; um bem escasso), as dos Andes pareceram-me as mais fascinantes, pelo vigor dos relevos, pela rocha bruta. Hesito agora sobre se o puma será suficiente para insuflar espírito à mais extensa cordilheira do mundo.

Este ano fiz escala em Punta Arenas. Não foi a primeira vez, mas desta feita o objetivo era ir completar a minha Patagónia interior; o fito era mesmo ver o puma.

Durante milhões de anos, humanos de diversas espécies foram evoluindo em África e, mais tarde, também na Ásia. Aos poucos aprenderam a arte da caça, certamente começando pelas presas mais indefesas e progressivamente almejando troféus mais imponentes e compensadores. À medida que, muito lentamente, aperfeiçoaram a técnica e se foram tornando caçadores perigosos (e mais numerosos), os animais que os rodeavam foram-nos conhecendo, ganharam-lhes respeito e desenvolveram estratégias de fuga. 

Quando o Homo sapiens saiu de África e se expandiu geograficamente (há cerca de 60 a 70 mil anos), era já um caçador tremendo em inteligência, estratégia, organização e no uso de algumas armas (como o fogo, que chegava a alterar paisagens). Os grandes animais do mundo não souberam, na maioria dos casos, ter-lhe o temor devido. Na Eurásia, as coisas ainda tiveram algo de progressivo, visto que antes do Homo sapiens lá andaram outros, como os Homo erectus, os neandertais ou os denisovanos. Noutras geografias, quem chegou primeiro foi já o formidável Homo sapiens; a surgir de rompante, devastador.

Na Austrália, há cerca de 45-65 mil anos, no continente americano, 12-15 mil anos atrás, muito mais recentemente em Madagáscar ou na Nova Zelândia, por toda a parte, à chegada dos humanos modernos sucederam-se extinções em grande escala*. Extinções sobretudo de megafauna. Uma lista imensa de animais corpulentos, gigantescos, cujos nomes nos são largamente desconhecidos. Só em África não se deram grandes extinções por estas épocas. 

Na Patagónia, quando chegaram os humanos (pensa-se que há 13.000 – 14.500 anos; muito recentemente, portanto), existia uma panóplia de grandes animais que habitavam as estepes e as florestas das encostas das montanhas: o milodon, uma preguiça terrestre gigante (200-400kg), com ar de urso, mas herbívora; um cavalo Hippidion saldiasi (250-325kg); a Macrauchenia, um ungulado enorme (c. 1000 kg) que vivia em manadas na estepe; Gliptodontes (tatus) com centenas de quilos; talvez mais uma ou duas espécies de lamas ou guanacos de médio porte, para além dos guanacos Lama guanicoe (90-140 kg) que sobreviveram até aos nossos dias; e ainda o huemul Hippocamelus bisulcus (80-90 kg). Para todos estes herbívoros, existia um conjunto de predadores à altura, encabeçados pelo extraordinário smilodon Smilodon populator, um felino de dentes-de-sabre muito maior do que um tigre ou um leão dos nossos dias. Havia também um jaguar gigante Panthera onca mesembrina (c. 230 kg); um urso Arctotherium tarijense de tamanho médio (100-300 kg); e, claro, o puma. Quase nenhum dos colossos chegou aos nossos dias.

Um puma é um predador formidável, as filmagens que todos podemos ver de pumas agarrados ao pescoço dos possantes guanacos são de arrepiar. Sim, os pumas são a alma destas montanhas. Mas quando vejo uma fêmea adulta de muito perto, não posso deixar de sentir que as mangas da montanha ficam largas ao predador que a deveria preencher. Um puma fêmea pesa uns 40kg (cerca de um terço do tamanho de uma leoa). Um smilodon pesava uns 220-470 kg e estes animais andavam em grupo. Não terão sido diretamente perseguidos pelos nossos antepassados, imagino, porventura sucumbiram por falta de alimento, perderam na competição. 

Smilodon, dentes-de-sabre: estes sim estariam à medida da imponência andina e da vastidão patagónica.  

Os escassos animais médios a grandes que restam na região de Torres del Paine (no sul da Patagónia) habituaram-se à presença humana agora relativamente inofensiva. É extraordinário como guanacos, nandus e pumas se aproximam de quem vem de visita. Proporcionam observações e fotografias fáceis. Por vezes são tão confiantes que se tornam desconcertantes. Será o puma que me passa mesmo ao lado um representante convincente da natureza selvagem? Claro que sim, é só uma questão de hábito. Porque haveríamos de querer que os animais nos fugissem?

Ainda que largamente deserdada, a Patagónia permanece magnífica e viva, de pumas, de guanacos, de pássaros maravilhosos. Que privilégio ver e apreciar. 

Feita a escala, vou a caminho das Falkland. Aqui a história é outra, a megafauna resistiu, está ainda praticamente toda presente e é abundante: 

no mar.

* As causas das extinções em massa de megafauna por todo o mundo são muito estudadas e debatidas. Há sempre quem defenda que alterações climáticas poderão ter sido a causa primeira da desaparição de tantos destes animais. Não cabe aqui essa análise e discussão, embora me pareça que só mesmo por convicção ideológica e sentimento fraterno se poderiam inocentar os humanos, quando as coincidências temporais entre a chegada dos humanos modernos e o desaparecimento dos animais (só os grandes, note-se) é tão incrivelmente sugestiva, e repetiu-se, desfasadamente, em vários contextos geográficos (ao passo que em África, onde o Homo sapiens não chegou de forma súbita, a percentagem da megafauna que se extinguiu foi muito pequena). 

Nota: a missão às ilhas Falkland contou com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia – Portugal.


Leia aqui outros textos já publicados por Paulo Catry, professor e investigador do Mare – Marine and Environmental Sciences Centre, Ispa – Instituto Universitário, na série Crónicas Naturais.

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