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Crónicas naturais: colapsos de mamíferos marinhos

04.08.2025
leitura de 5 minutos
Lontras marinhas. Foto: Paulo Catry

O investigador Paulo Catry integrou recentemente uma expedição científica, a bordo do navio Tiglax do USFWS para estudar garajaus nas ilhas Aleútas. Trouxe de lá esta história.

Aleútas, junho 2025

Era uma vez… duas placas tectónicas que se encontraram e nenhuma quis ceder passagem. Batalharam até derreterem rochas. Abriram-se fissuras e dali jorraram torrentes de lava, cresceram vulcões. Formou-se uma cadeia de ilhas dispostas em arco na confluência entre o Mar de Bering e as águas profundas do Pacífico: o arquipélago das Aleútas. 

O vulcão de Segula, visto desde o Tiglax. Foto: Paulo Catry

Um bom bocado de tempo depois de passarem da Ásia para a América, os humanos antigos infiltraram-se desde a península do Alasca e, saltando de ilha em ilha, espalharam-se pelas Aleútas. Este processo de colonização insular, que começou já há 9000 anos, durou nada menos de 65 séculos até o arquipélago ser todo colonizado*.

Durante milhares de anos, os unangax̂ viveram nesta imensa cadeia de ilhas frias, rodeados de mar cinzento, grandes rochedos e colinas desarborizadas. Sem agricultura, subsistiram da pesca e da caça de aves e de mamíferos marinhos, usando instrumentos artesanais de uma inacreditável engenhosidade. Casacos impermeáveis de intestino de foca cosidos com fibras vegetais, parkas de penas de aves marinhas, caiaques** de pele de leão marinho cosidos sobre uma armação de ossos de baleia e de troncos de árvores encontrados nas praias. 

Agattu. Foto: Paulo Catry

Em 1741, os russos descobriram estas ilhas (e o Alasca) e deram-se conta de que estavam repletas de lontras marinhas Enhydra lutris, cujas peles (as mais macias e de pelo mais denso conhecidas) valiam fortunas incalculáveis. Primeiro exploraram as Ilhas Comandante, que eram desabitadas; de passagem, em 27 anos caçaram até à extinção os dugongos-de-steller Hydrodamalis gigas, um mamífero marinho que podia atingir as 10 toneladas.

Os russos rapidamente se expandiram pelas Aleútas, trouxeram doenças mortíferas, escravizaram os unangax̂. As lontras tornaram-se tão escassas que, em 1867, a Rússia resolveu vender o Alasca e todas as suas ilhas aos EUA por uma bagatela (ainda hoje é fácil encontrar igrejas ortodoxas e nomes russos por estas terras, em memória desses tempos há tão pouco tempo idos). Os americanos continuaram a matança.

Mais tarde as lontras marinhas foram efetivamente protegidas, mas acreditou-se que estavam já praticamente extintas. Só que sobravam algumas escondidas…

Attu. Foto: Paulo Catry

Em 1942, pouco depois de bombardearem Pearl Harbour, os japoneses invadiram duas das ilhas mais remotas das Aleútas: Attu e Kiska. Levaram para cativeiro os unangax̂ que encontraram; os americanos acharam por bem evacuar os restantes autóctones do arquipélago. O desfecho da guerra é bem conhecido, mas menos esta história: num tempo sem satélites nem omnisciência bélica, os aliados lançaram uma campanha sobre Kiska sem se aperceberem que esta já tinha sido completamente abandonada pelos seus opositores; perderam nada menos do que 300 homens (jovens rapazes, na maioria) na operação: um épico pináculo do absurdo da guerra, neste caso por umas ilhas esquecidas do mundo.

Restos inúteis de um submarino japonês em Kiska. Paulo Catry

A partir do final da grande guerra, no que restou dos anos 1940 e ainda nas duas a três décadas seguintes, caçaram-se baleias intensamente nesta região, enquanto as lontras marinhas foram deixadas sossegadas e recuperaram até constituírem uma enorme população.

Por volta de 1970, a cadeia das Aleútas contava com uma colossal abundância de aves marinhas, de lontras, de leões-marinhos Eumetopias jubatus, de focas-comuns Phoca vitulina. Mas ao longo das costas e mais ao largo, as orcas Orcinus orca, bastante numerosas, estavam a passar por um mau bocado, pois já quase não encontravam grandes baleias para caçar.

Orca macho junto à ilha de Tanaga. Foto: Paulo Catry

Tal como acontece com muitos outros cetáceos, acredita-se que as orcas são animais de inteligência fina e capacidade inventiva. A dado momento estas orcas resolveram inovar e matar a fome usando recursos que até então pouco utilizavam. Primeiro começaram por comer focas-comuns, até a população colapsar; logo de seguida começaram a predar otárias Callorhinus ursinus e leões-marinhos, até sobrar apenas um resquício das abundantes colónias até aí existentes; finalmente, viraram-se para as pequenas lontras, cujas populações em grande parte das ilhas minguaram até estarem reduzidas a fragmentos esparsos.

Leões marinhos de Steller em Amchitka. Foto: Paulo Catry

Na década de 1970 colapsaram as focas, nos anos 1980 os leões marinhos e finalmente na década de 1990 foram as lontras***. Os colapsos estão bem documentados, são inquestionáveis. O papel das orcas, por seu lado, é intensamente (às vezes violentamente, pode até dizer-se) debatido. Há alguns indícios fortes para a teoria das orcas, como o facto de as lontras se terem mantido numerosas numa lagoa costeira onde as orcas não podem penetrar, enquanto as populações em redor se afundavam sem evidências de fome ou de epidemias. Não existem explicações sólidas e alternativas para o declínio dos leões-marinhos, declínio que foi exaustivamente estudado e ponderado. Contudo, a teoria das orcas é impopular junto de muitos especialistas em mamíferos marinhos e de numerosos fãs. Talvez nunca venhamos a ter certezas (e muito menos consensos) sobre o que se passou.  

À exceção dos dugongos, nenhum destes animais desapareceu. Ainda hoje, não é difícil encontrar focas, leões-marinhos e lontras ao longo das Aleútas, ainda que sem o esplendor das multidões de outrora.

Nalgumas zonas as lontras mantêm-se numerosas (Unalaska). Foto: Paulo Catry

As populações de baleias estão em franca recuperação e as orcas debatem-se antes com novos problemas (como a contaminação por poluentes diversos que se acumulam na cadeia trófica). Os unangax̂, que com toda a propriedade também poderiam ser classificados como mamíferos marinhos (já que do mar retiravam todo o sustento), estão hoje confinados a não mais de 3 ou 4 povoações na metade oriental do arquipélago e dedicam-se à pesca em embarcações modernas; a caça é apenas uma recordação. A sua língua corre o risco de desaparecer ainda antes da maioria das outras espécies ameaçadas.

O mar das Aleútas permanece frígido, mas diz quem conhece que nunca como neste ano se viu a neve derreter tão cedo e o negro da lava escalar cones vulcânicos à medida que o manto branco regride. As espécies do Norte sofrem, chegam outras vindas do Sul. 

Apesar de declínios ligados às alterações climáticas, aves como as tordas-de-penacho Aethia cristatella, ainda são abundantes nas Aleútas. Foto: Paulo Catry

Prometem-se novos ciclos, novas guerras (e, como habitualmente, conflitos com menos vencedores do que vencidos), mas o futuro a Deus pertence. As placas tectónicas, essas continuam no seu inexorável rastejar, vão-se infiltrando, latejam: volta e meia, acende-se um vulcão.

* Attu e Agattu terão sido as últimas a ser colonizadas na pré-história, há cerca de 2500 anos. As Ilhas Comandante (Komandórskie ostrova), no extremo ocidental da cadeia, só foram visitadas por humanos a partir da expedição de Vitus Bering, no século XVIII.

** A palavra kayak ou caiaque tem origem nos inuit (vulgarmente conhecidos por esquimós), um povo de parentes muito próximos dos unangax̂.

*** Estes JA et al 1998. Science; Springer AM et al 2003. PNAS; Estes JA 2016 Serendipity: An Ecologist’s Quest to Understand Nature. University of California Press. 


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