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Nova espécie Leopardus tilcayo é o primeiro felino descrito para a Ciência em mais de 100 anos

18.09.2026
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Leopardus tilcayo. Foto: Alessandro Verniani/WikiCommons

Nas florestas montanhosas húmidas da Bolívia vive um felino, mais pequeno do que um gato doméstico, que ainda não tinha sido descrito para a Ciência. O Leopardus tilcayo é a primeira espécie de felino a ser descoberta em mais de 100 anos.

“Muita da biodiversidade da Terra continua por conhecer”. Quem o diz é a equipa de investigadores da Bolívia, Brasil e Bélgica que estudou atentamente o género Leopardus sp., chamados gatos-do-mato, por se saber pouco sobre ele.

Usando os ossos e o pêlo de oito espécimes guardados em museus de História Natural e 30 amostras de sangue e tecido dos músculos de animais dos nossos dias, de vários países da América do Sul, a equipa usou análises genéticas para tentar conhecer melhor aquele género de felino.

Depois de analisar 38 genomas completos de felinos do género Leopardus sp., a equipa demonstrou que o complexo de espécies anteriormente conhecido como Leopardus tigrinus é composto por cinco espécies crípticas. Ou seja, apesar de serem muito parecidas morfologicamente, tratam-se de linhagens muito diferentes geneticamente.

Uma delas, o Leopardus tilcayo, é uma nova espécie para a Ciência. Até então acreditava-se que este felino era da espécie Leopardus tigrinus. Mas esta investigação descobriu que o tilcayo divergiu desta espécie há 1.4 milhões de anos.

A espécie recebeu o nome “tilcayo” que é o nome usado pelas comunidades locais para designar este felino bem conhecido na zona das Yungas bolivianas.

O holotipo na base este estudo é um macho adulto, capturado vivo perto da localidade de Arapata, Bolívia, a 1570 metros acima do nível do mar e mantido em cativeiro.

Paola Nogales-Ascarrunz, bióloga e co-autora do artigo, explicou ao site Live Science que o tilcayo que vive em cativeiro no refúgio Senda Verde, dedicado a animais vítimas de tráfico, entrou naquele centro há 10 anos. Deram-lhe o nome de Tigrino. “Não se parecia aos outros felinos mas nunca pensámos que fosse uma espécie nova”, contou.

Segundo o artigo científico, publicado na revista Current Biology a 17 de setembro, o tilcayo é um pequeno felino que pode pesar até dois quilos; tem um comprimento entre os 425 e os 505 milímetros e uma cauda com um comprimento entre 250 e 265 milímetros. Tem o dorso de um castanho claro, mais escuro ao longo da linha médio-dorsal. A sua pelagem tem manchas relativamente grandes, irregulares castanho-escuras ou pretas. 

Vive nas florestas montanhosas húmidas das Yungas bolivianas, que descem pelas vertentes orientais da Cordilheira Oriental do país. Esta é uma paisagem muito acidentada, com vales profundos, encostas íngremes, rios, muita chuva e nevoeiro, e uma enorme diversidade de habitats. 

De acordo com os investigadores, esse facto ajuda a explicar por que motivo as Yungas bolivianas sejam uma das áreas menos estudadas nos Neotrópicos.

Isto só por si é um desafio para a conservação, num mundo natural cada vez mais ameaçado pelo Homem. Os investigadores defendem que as medidas de conservação a definir devem ser avaliadas para cada espécie em separado, de forma a garantir a sua conservação a longo prazo.

“A informação que temos neste momento está limitada a dois indivíduos que estudámos e a um pequeno número de registos de foto-armadilhagem”, explicou à agência Reuters Jonas Lescroart, biólogo da Universidade de Antuérpia, Bélgica, e co-autor do estudo.

Ainda no mesmo estudo, a equipa descreveu o Leopardus tigrinus antisuyo, nativa das Yungas do Peru, como uma nova sub-espécie. Assim, hoje a espécie Leopardus tigrinus passa a ser composta por duas subespécies (L. tigrinus antisuyo e L. tigrinus tigrinus).

Antes do tilcayo, a última espécie de felino a ser descrita para a Ciência foi o Leopardus fasciatus, descrita em 1923.

“Mostrar ao público em geral que mesmo num grupo tão icónico como os felinos ainda há espécies novas por descobrir pode transmitir uma mensagem importante”, disse à agência Reuters Eduardo Eizirik, biólogo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, e um dos autores do artigo. “Há muitas espécies desconhecidas algures no mundo que estão em risco de desaparecer mesmo antes de alguém as descobrir.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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