A transumância continua viva naquela que é a serra mais alta de Portugal continental, onde milhares de ovelhas (e algumas cabras) ajudam a moldar a paisagem, contribuindo para a sobrevivência de inúmeras aves e insetos. José Conde, ligado ao Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), falou à Wilder sobre a importância desta tradição.
Ainda antes de o calor apertar, no início do verão, os rebanhos começam a subir a montanha acompanhados pelos pastores e pelo som dos chocalhos, num ritual que se repete há muitas gerações. Lá em cima, nos prados de altitude, ovelhas e cabras vão encontrar alimento fresco e temperaturas mais amenas. Graças ao pastoreio, moldam a paisagem e ajudam a que se mantenha este habitat vital para diversas espécies de insetos e de aves.
Hoje reduzida quase exclusivamente à Serra da Estrela em Portugal, a transumância mantém-se sobretudo nos concelhos de Seia, Gouveia e Covilhã, no sopé da serra, descreve José Conde, técnico superior do Centro de Interpretação da Serra de Estrela (CISE), gerido pelo município de Seia. Todos os anos, cerca de 4000 a 5000 herbívoros, em especial ovelhas mas também cabras, sobem à montanha quando as temperaturas começam a aquecer, acompanhados por cerca de duas dezenas de pastores.

Nesta transumância de curta distância, o percurso percorrido é de algumas dezenas de quilómetros. O gado costuma permanecer entre 10 a 40 dias nos prados de altitude, mas a duração máxima pode chegar aos quatro meses.
“A transumância é uma atividade que modela a paisagem na Serra da Estrela”, afirma José Conde, que explica à Wilder que “os grandes herbívoros selvagens praticamente desapareceram das zonas de maior altitude e os rebanhos acabam por cumprir uma função ecológica importante.” Ao alimentarem-se das ervas e de outra vegetação rasteira, ovinos e caprinos impedem que estes prados silvestres evoluam para ambientes mais fechados, como matos e eventualmente áreas florestais.
Por sua vez, essa influência faz-se sentir também na biodiversidade da região – um tema que José Conde vai abordar esta sexta-feira, dia 22 de maio, muma palestra realizada durante o festival Naturcôa – Aves e Património, no Sabugal.
Entre as aves que beneficiam diretamente desta prática tradicional estão as grandes necrófagas, como por exemplo o grifo (Gyps fulvus) e o abutre-preto (Aegypius monachus), atraídas pelas carcaças de animais mortos e restos de partos, deixados em locais remotos e de difícil acesso desta paisagem montanhosa. Estas aves têm um importante papel sanitário, ajudando a evitar a propagação de doenças.

Mas não são apenas as aves de rapina que dependem do mosaico pastoral desta paisagem. Vários passeriformes que costumam estar associados aos prados de altitude – como a laverca (Alauda arvensis) ou a petinha-dos-prados (Anthus pratensis), exemplifica José Conde – encontram boas condições de vida nestas áreas abertas. Muitas dessas espécies são insetívoras, alimentando-se nos prados desta serra que são “particularmente ricos em invertebrados”, adianta o responsável do CISE.

Alguns insetos aí presentes, aliás, são espécies raras e endémicas da Serra da Estrela, único local do mundo onde existem, e estão incluídas no Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental (2023). Entre estas, contam-se o longicórnio-da-estrela (Iberodorcadion brunneum) e o pequeno escaravelho Monotropus lusitanicus.
Mas apesar disso, os benefícios ecológicos da transumância continuam a ser pouco reconhecidos pelo público em geral, lamenta o especialista. “A generalidade da população desconhece que a transumância tem um papel importante no ciclo de nutrientes do solo, na fertilidade e também na redução do risco de incêndio”, sublinha.

Além da componente ambiental, esta tradição tem também relevância económica, pois significa que nos meses mais quentes os rebanhos conseguem encontrar alimento fresco e temperaturas mais agradáveis, numa altura em que os efeitos e a preocupação com as alterações climáticas são crescentes nesta região do país, acrescenta o mesmo responsável.
Por outro lado, uma grande parte destas ovelhas transumantes pertencem a raças autóctones ligadas a esta área do país, como a ovelha Serra da Estrela e a Churra Mondegueira, que estão associadas à produção do queijo Serra da Estrela e do requeijão Serra da Estrela, ambos com denominação de origem protegida.
Em maio de 2025, tendo em conta a sua relevância história, social e cultural, e o papel que tem para o desenvolvimento do território, a transumância da Serra da Estrela passou a estar inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Festa da Transumância e dos Pastores, em julho
Ao mesmo tempo, esta prática anual tem sido também cada vez mais procurada por turistas, destaca José Conde. Em Seia, a Festa da Transumância e dos Pastores, que se realiza a 4 de julho, permite acompanhar uma parte da subida dos rebanhos rumo a maiores altitudes. O evento a devolução à natureza de uma ave selvagem recuperada no CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, em Gouveia, com o objetivo de sensibilizar quem assiste para a importância de proteger a biodiversidade local.
Os grandes incêndios continuam, porém, a ser uma ameaça séria para este equilíbrio. “O impacto não é apenas na vegetação. Há consequências na erosão do solo, na retenção de água e na própria atividade pastoril”, alerta o mesmo responsável. Ainda assim, esta prática mantém-se, contribuindo para sustentar a paisagem, a biodiversidade e também a economia local e uma das identidades culturais mais antigas da região.

Artigo apoiado pelo Naturcôa – Aves & Património.
Esta sexta à tarde, dia 22 de maio, José Conde apresenta uma palestra sobre a transumância e as aves de montanha, neste festival que se realiza no Sabugal, distrito da Guarda, até domingo dia 24. Pode consultar o programa completo das palestras e das restantes atividades aqui.