Astrid Vargas, veterinária que revolucionou a conservação ao conseguir reproduzir linces-ibéricos em cativeiro pela primeira vez, lembra que o Centro português de reprodução da espécie está inserido num programa ibérico que assenta na confiança e na cooperação entre dois países.
De 2003 a 2010, Astrid Vargas foi a coordenadora espanhola do Programa de Reprodução do lince-ibérico em cativeiro. Foi com ela que nasceram, a 28 de março de 2005, Brezo, Brecina e Brisa, os primeiros linces-ibéricos a serem reproduzidos em cativeiro, no centro de El Acebuche, em Doñana (Andaluzia).

Ainda hoje é considerada uma das mais importantes especialistas em lince-ibérico e figura chave na recuperação de espécies tão ameaçadas como a doninha-de-patas-pretas (Mustela nigripes), nos Estados Unidos, e o lémur-de-coroa-dourada (Propithecus tattersalli), em Madagáscar.
Foi com “choque” que recebeu a notícia da internalização, até ao final deste mês, do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI), que faz parte da rede de quatro centros na Península Ibérica dedicados à reprodução deste felino classificado como “Vulnerável”.
“Não faz nenhum sentido. Fiquei em choque. Isto é algo que deve acontecer fruto de um processo de sucessão cuidado, feito com tempo, construído paulatinamente, não numa semana”, contou em entrevista telefónica à Wilder.
“Devia ser uma transferência gradual de equipas, com um plano tornado público de como isso aconteceria”.
E lembrou a sua experiência. “Saí do programa espanhol em 2010 mas logo em 2008 comecei a anunciar que queria sair para trabalhar em outras áreas mais ligadas ao meio natural, que é a minha paixão”. Contou que teve o cuidado de preparar quem a iria suceder. “Depois de um anúncio destes, há uma série de decisões a tomar, de preparação, para que o programa não sofra.”

“Criar linces não é fácil”, lembrou Astrid Vargas, fundadora e coordenadora do Inspiration4Action, organismo que desenvolve abordagens criativas para ajudar as pessoas a revitalizar as suas comunidades e ecossistemas. Especialmente nesta altura do ano. “Estamos numa fase de luta entre crias. É uma situação muito tensa que exige muito conhecimento de gestão e de maneio diário. Isto não tem pés nem cabeça”.
Segundo a especialista, os tratadores “têm de saber como actuar se for caso disso. É perigoso para os animais mas também para os próprios tratadores porque, se não forem experientes em manusear linces, os animais podem causar-lhes danos”.
Este é apenas um exemplo da importância da experiência. “É muito importante ter equipas bem preparadas e um coordenador que já tenha passado por várias experiências com estes animais para conseguir resolver problemas quando eles surgirem.”
Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a nova equipa tem as mesmas competências do que a anterior para gerir o CNRLI. Astrid Vargas aproveitou para perguntar: “Se sim, onde se prepararam as pessoas? Em que centro de reprodução? É preciso passar lá vários meses, a aprender.”
Se a transição for feita apressadamente, “sem nenhuma planificação”, pode causar “muito dano”. “É uma época complicadíssima, é complicadíssimo gerir crias pequenas que podem mesmo morrer. Tenho pavor só de pensar no que pode acontecer.”
Astrid Vargas lembrou o que aconteceu no Centro Nacional para a Conservação da Doninha-de-patas-pretas em Fort Collins, no Colorado, nos Estados Unidos, que faz a reprodução em cativeiro desta espécie, que chegou a estar reduzida a 18 indivíduos e em risco de se extinguir. Assim o ditou uma doença que devastou populações, a perda de habitat e a predação por cães da pradaria.
Hoje, já existem mais de 500 doninhas-de-patas-pretas na natureza, graças a quase 30 anos de trabalho de Tina Jackson nesse centro. No início de 2025, uma ordem executiva do Presidente norte-americano Donald Trump, para reduzir custos, ditou o despedimento de Jackson e de dois tratadores. Talvez fosse o fim trágico para uma história de conservação de sucesso. “Mas, estes afastamentos geraram tanto alvoroço e barulho que, um mês e meio depois, estas três pessoas voltaram a ser integradas e retomaram o seu trabalho”, lembrou Astrid Vargas.
A especialista espera que este caso seja tido como um exemplo. “O programa dirigido ao lince-ibérico tem sido um êxito, um programa modelo de reprodução e de reintrodução de uma espécie, graças ao trabalho técnico e ao compromisso brutal de uma equipa. Além disso, considero uma barbaridade tratar desta maneira pessoas super comprometidas.”
A nova coordenadora será Alexandra Maria Silveira Pinto Pereira, médica veterinária especializada em bem-estar de animais de companhia e atual técnica superior do Departamento de Conservação da Natureza e Biodiversidade do ICNF.
“Pobre da veterinária que vai coordenar o programa ex-situ. Se fosse eu tinha recusado logo esta responsabilidade. O lince não é um cão ou um gato, é um animal selvagem. É ridículo.”
Um trabalho coordenado por dois países
Astrid Vargas sublinhou também que todo o trabalho que acontece no CNRLI é coordenado com o resto da rede de centros de cria, em Espanha. “Tem sido uma relação harmoniosa. Uma disrupção deste tipo pode afectar todo o programa ibérico.”
E exemplificou. “Este é um projeto binacional, articulado desde sempre com o Comité de Cria, que junta os dois países. As decisões são tomadas sempre em conjunto. Que parelhas formar a cada ano, que animais serão reintroduzidos na natureza, tudo é decidido em conjunto.”
Por isso, na sua opinião “este tipo de decisões deveria ter sido articulado com Espanha”, até porque “vai afetar toda a planificação a nível ibérico”.
A conservação desta espécie “é um esforço colaborativo. Graças a isso teve sucesso. Têm de se consultar uns aos outros”.

E lembrou o acordo de cedência de linces de Espanha a Portugal, celebrado em 2008. “Espanha apoiou muito Portugal quando se levaram os primeiros linces para Portugal. Tudo isso aconteceu porque havia uma relação de confiança entre os dois países, Espanha cedeu linces a Portugal porque confiou. Isto não é jogar limpo.”
“Sei que o ICNF tem o mandato legal para fazer a internalização. Mas não devia estar a ser feita desta maneira.”
Até porque as consequências podem ser surpreendentemente vastas. “Portugal arrisca-se a perder a credibilidade que conseguiu na área da conservação perante a Europa, que apostou milhões de euros no lince-ibérico”, notou.
O lince-ibérico já beneficiou de quatro programas LIFE para o conseguir fazer sair da categoria de Criticamente Em Perigo. Juntos rondam cerca de 80 milhões de euros.
Mas o trabalho de conservação ainda está longe do fim e a reprodução em cativeiro continua, na opinião de Astrid Vargas, a ser crucial.
“A reprodução em cativeiro é a base de recuperação da espécie na natureza. Neste momento, até podem existir mais de 2000 linces em estado selvagem mas ainda falta muito para garantir a sua conservação. Uma doença pode extingui-lo de um momento para o outro. Daqui a algum tempo deixará de ser preciso soltar mais linces para reforçar as populações naturais, mas ainda não chegámos lá.”
E este é um esforço que vale a pena continuar. “O lince-ibérico vai além da conservação de uma espécie. Ele é uma espécie bandeira para a conservação de todo um ecossistema que, se estiver saudável e em equilíbrio, nos permite a todos viver melhor. Pelo lince está-se a conservar o ecossistema mediterrâneo do qual dependemos para uma vida saudável.”