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Poluentes detetados em botos na costa portuguesa ameaçam cetáceo Criticamente em Perigo

14.05.2026
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Botos (Phocoena phocoena) acompanhados por uma cria. Foto: © John D Reynolds/iNaturalist Canada

Investigadores liderados pela Universidade de Aveiro encontraram níveis elevados de poluentes orgânicos persistentes em botos arrojados ao longo de vários anos, incluindo PCB e DDT. Estes produtos tóxicos podem afetar a resistência a doenças e a capacidade de reprodução.

Num estudo agora publicado pela revista científica Marine Pollution Bulletin, a equipa de nove investigadores detetou níveis elevados de poluentes orgânicos persistentes (POPs) em botos arrojados em Portugal, anunciou a Universidade de Aveiro (UA), numa nota de imprensa.

Os botos (Phocoena phocoena) são cetáceos aparentados com os golfinhos. Desde 2023 que estão classificados como Criticamente em Perigo pelo Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, com o grau mais elevado de ameaça antes da extinção, principalmente afetados por problemas como a captura acidental nas pescas e a perda de diversidade genética. Os números estimados desta espécie em águas portuguesas, aliás, são atualmente muito reduzidos.

Esta nova investigação realizou-se no âmbito de um doutoramento realizado no Departamento de Biologia e no CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA, por Ana Sofia Tavares. No total, foram analisadas amostras biológicas de 43 botos arrojados em Portugal entre 2005 e 2013, entre Peniche e Caminha.

A bióloga Ana Sofia Tavares. Foto: UA

A grande maioria dos 21 contaminantes procurados, incluindo policlorobifenilos (PCB) e dicloro-difenil-tricloroetanos (DDT), eram muito utilizados na indústria e agricultura antes de serem banidos há várias décadas, mas degradam-se muito lentamente e continuam hoje a estar presentes no ambiente, incluindo no oceano. São altamente tóxicos e ao longo do tempo podem acumular-se nos tecidos de espécies marinhas que vivem mais anos, como acontece com os botos, cujo risco aumenta por estarem no topo da cadeia alimentar.

Os PCBs foram os poluentes encontrados em mais quantidade, nalguns casos acima dos níveis de toxicidade definidos para os mamíferos marinhos, explica o estudo publicado. Estes produtos químicos eram muito utilizados na indústria, devido ao poder isolante e à estabilidade química que permitem, até serem banidos da Europa na década de 1980.

Já o DDT foi um inseticida de uso muito comum para combater epidemias de malária, em especial durante a II Guerra Mundial, e também pragas agrícolas. Hoje, de acordo com a Convenção de Estocolmo, o seu uso é permitido apenas no controlo de vetores de doenças.

Passagem de mães para crias

Tanto esses como outros POPs podem interferir com os sistemas imunitário e reprodutor dos botos e de outros mamíferos marinhos, tornando-os mais suscetíveis a infeções e doenças e reduzindo a sua capacidade reprodutiva, avisa a equipa de investigadores, que concluiu ainda que os machos adultos tinham concentrações superiores destes poluentes, quando comparados com as fêmeas adultas.

Segundo Ana Sofia Tavares, que faz parte da equipa responsável por este trabalho, juntamente com as biólogas Sílvia Monteiro e Catarina Eira, essa diferença pode ser explicada pela transferência destes compostos das progenitoras para as crias durante a gestação e posteriormente durante a amamentação. Ora, essa questão é especialmente preocupante, uma vez que “as crias e os animais mais jovens recebem elevadas cargas de poluentes numa fase em que o seu sistema imunitário e metabólico ainda se encontra pouco desenvolvido, tornando-os mais vulneráveis aos efeitos nocivos destas substâncias”, avisa a investigadora, citada na nota de imprensa. 

Uma fêmea de boto acompanhada pela cria, observada no mar da Escócia. Foto: Nic Davies / SplashdownDirect

Os níveis de POPs agora detetados encontram-se em linha e por vezes abaixo dos resultados de investigações realizadas com outros cetáceos ou noutras áreas geográficas, mostram também os dados do estudo.

No entanto, “assumem especial relevância tendo em conta o tamanho reduzido da população de boto na costa portuguesa, que enfrenta ainda outros desafios significativos, como a captura acidental em redes de pesca”, notam os investigadores, que acrescentam que “a perda de diversidade genética detetada nas últimas décadas pode também limitar a capacidade desta população para responder a novas ameaças, como a poluição por contaminantes emergentes”.

A equipa alerta também para “a importância de uma monitorização contínua dos níveis de poluentes orgânicos persistentes, de modo a avaliar os seus impactos a longo prazo e apoiar estratégias eficazes de conservação desta população”.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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