O futuro do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) em Portugal está a fazer soar alarmes fora do país. Alexander Sliwa, curador do Jardim Zoológico de Colónia e conselheiro do programa ibérico desde 2004, alerta para o risco de retrocesso num projeto de conservação até aqui “brilhante” e para os impactos nos linces de Silves.
Alexander Sliwa é zoólogo alemão, curador do Jardim Zoológico de Colónia e conselheiro do Programa Ibérico Ex Situ do Lince-Ibérico desde 2004. Ao longo dos últimos 27 anos tem sido responsável por gerir a reprodução em cativeiro de várias espécies de felinos selvagens.
O anúncio da mudança de equipa no CNRLI foi para si uma “surpresa pessoalmente chocante” e sublinhou que, a acontecer, a substituição total da equipa do Centro pode comprometer décadas de conhecimento acumulado e afectar gravemente o bem-estar dos animais. Receia mesmo que este seja um “duro golpe” num projecto que descreve como “um exemplo brilhante” de conservação.
“Esta decisão surge como uma surpresa chocante, depois de duas décadas de um programa e de uma equipa extremamente bem-sucedidos”, afirma o especialista, em entrevista à Wilder. “Estou profundamente impressionado com o trabalho da equipa liderada por Rodrigo Serra, um exemplo de como reintroduções e reforços populacionais de uma espécie ameaçada devem ser feitos.”
Sliwa acompanha há mais de 20 anos o programa ibérico de conservação do lince. E deixa um aviso claro: substituir integralmente a equipa de um centro deste tipo não é comparável a uma mudança administrativa comum.
“Não estamos a falar de trabalho mecânico simples”, afirma. “Estamos a falar de observar os linces e reagir adequadamente depois de analisar o seu comportamento. É um trabalho baseado em evidência, experiência e dinâmica de equipa.”
“Leva anos a atingir este nível de excelência”
Segundo o especialista alemão, a gestão de um centro de reprodução de felinos selvagens ameaçados é “altamente especializada em todos os aspectos” e exige competências raras, mesmo à escala internacional.
É preciso saber lidar com animais selvagens muito sensíveis, nomeadamente gerir as suas necessidades específicas espaciais (nos cercados), sociais (em grupo), nutricionais e outros aspectos, incluindo os veterinários.
“O lince-ibérico enfrentou, e ainda enfrenta, os efeitos do inbreeding a longo prazo, por isso, gerir cuidadosamente estas questões exige uma gestão adaptativa que só pode ser conseguida através do contacto com outros especialistas espalhados pelo mundo, envolvendo-os, debatendo com eles e aplicando os seus conhecimentos.”
“Os felinos têm características muito específicas, tanto ao nível comportamental como veterinário. É preciso experiência de anos com animais selvagens socialmente complexos — idealmente carnívoros e, melhor ainda, felinos selvagens”, explica.
A substituição pontual de membros de equipas é habitual em programas deste género. Mas uma mudança total da equipa levanta outro tipo de problemas.
“Leva muitos anos a atingir o actual nível de excelência, se é que alguma vez será possível recuperá-lo”, diz. “A transmissão de conhecimento faz-se normalmente entre trabalhadores experientes e novos elementos. Neste caso, isso não acontecerá.”
“Não estamos a lidar com um simples trabalho físico mas sim com a observação dos linces e a reação adequada, depois de ter analisado os seus comportamentos.”
Assim, parte do conhecimento crítico, sublinhou, não está apenas em protocolos escritos ou documentação técnica, mas na observação diária dos animais e na interpretação correcta dos seus comportamentos.
“Quando intervir perante uma ligeira alteração comportamental? Quando juntar dois linces para reprodução? Quando separá-los? Uma interpretação errada pode levar à morte de alguns animais”, alertou.
Na opinião de Alexander Sliwa, “há muito pouca semelhança na gestão de felinos selvagens e gatos domésticos, à excepção das necessidades básicas de espaço e alimento que se podem aplicar a qualquer mamífero. No caso específico da reprodução do lince-ibérico, é necessário preparar os animais para uma vida em estado selvagem, uma onde não estão habituados a humanos. É crucial prepará-los mentalmente, socialmente e fisicamente.”
“O gato doméstico procura frequentemente a companhia humana. O lince-ibérico é um predador de topo que evita os humanos”, referiu ainda.
“Os linces vão reagir de forma muito sensível”
Na sua opinião, os linces-ibéricos são particularmente sensíveis a mudanças bruscas no ambiente humano que os rodeia.
“O lince-ibérico é um predador inteligente e estratégico, adaptado ao longo de milhões de anos a sinais subtis do ambiente. Vai reagir de forma muito sensível a novas pessoas e aos seus comportamentos”, afirmou. “Esta mudança abrupta e total de equipa afectará gravemente o bem-estar dos linces.”
Questionado sobre o impacto de mudanças de liderança em programas de conservação bem-sucedidos, o especialista é directo: “Terá certamente um efeito desestabilizador.”
“A posição de liderança é crucial para formar, integrar e estabilizar toda a equipa. Perde-se uma enorme quantidade de informação específica sobre o que funcionou e o que não funcionou num projecto tão complexo e sensível”, afirmou.
E concluiu: “Isto fará recuar um programa de conservação que tem sido um sucesso brilhante.”
A decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de internalizar o centro foi avançada recentemente à Wilder.
A equipa técnica do CNRLI diz que nunca recebeu informação formal sobre a transição e o seu atual coordenador, Rodrigo Serra, teme impactos no programa ibérico de conservação da espécie e garante que a atual equipa técnica está “totalmente disponível para negociar uma solução legal, responsável e tecnicamente segura”.