O Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) já está a par das mudanças anunciadas para o Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) e defende a “transferência cuidadosa de conhecimento”. Urs Breitenmoser, um dos mais reconhecidos especialistas mundiais em felinos selvagens e em lince-ibérico, diz nunca ter visto a substituição simultânea de toda uma equipa técnica.
O Grupo de Especialistas de Felinos da Comissão de Sobrevivência das Espécies da UICN (IUCN SSC Cat Specialist Group), principal rede científica internacional dedicada à conservação de felinos selvagens, manifestou preocupação com a transição de gestão anunciada para o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves.

Em declarações à Wilder, Sugoto Roy, co-chair do Grupo de Especialistas de Felinos, afirma que o grupo está a acompanhar a situação e sublinha a importância da continuidade técnica.
O responsável da UICN sublinha que o grupo, enquanto rede de trabalho científica internacional, “reconhece e respeita plenamente a autoridade soberana dos Governos nacionais e instituições competentes para definirem os modelos de gestão e governância dos seus programas de conservação”.
Mas, ao mesmo tempo, sublinha que “programas como este dependem, não apenas do apoio institucional e de infraestruturas mas também da continuidade de experiência técnica altamente especializada, de experiência operacional, memória institucional e relações de colaboração de longo prazo desenvolvidas durante muitos anos.”
Assim, “o Grupo de Especialistas de Felinos considera a continuidade e a transferência cuidadosa de conhecimento particularmente importantes durante qualquer transição que envolva reprodução ex situ, gestão genética, cuidados neonatais, preparação para reintrodução e coordenação mais ampla do programa.”
Sugoto Roy alerta ainda que uma “perda abrupta de experiência acumulada” pode criar riscos para a continuidade operacional e para a eficácia do programa a longo prazo “caso as transições não sejam cuidadosamente geridas”.
“A nossa preocupação não é o direito soberano de Portugal de determinar os arranjos institucionais”, acrescenta, “mas sim garantir que as capacidades científicas, técnicas e operacionais construídas ao longo de muitos anos no programa do lince-ibérico sejam mantidas e eficazmente transferidas”.
Segundo Sugoto Roy, “em programas de conservação altamente especializados, a continuidade de equipas experientes e uma transição estruturada são considerados elementos importantes para a continuação da estabilidade dos programas e do bem-estar dos animais”.
“O programa de recuperação do lince-ibérico representa uma das mais importantes e bem-sucedidas iniciativas de conservação de um felino ameaçado a nível global”, considera.
“Nunca vi a substituição de uma equipa inteira”
Também Urs Breitenmoser, uma das figuras históricas da conservação de felinos na Europa e antigo co-chair do Grupo de Especialistas de Felinos da UICN que acompanhou de perto o desenvolvimento do programa ibérico de conservação do lince-ibérico, diz estar preocupado.

Em entrevista à Wilder, o especialista suíço afirma que já viu “mudanças em cargos importantes dentro de equipas que causaram turbulência temporária. Mas nunca vi a substituição de uma equipa inteira de uma só vez”, afirma à Wilder.
“Sinceramente, não consigo imaginar que uma mudança tão súbita funcione sem impacto considerável no sucesso do programa e no bem-estar dos animais.”
Urs Breitenmoser considera que mudanças como as anunciadas para o CNRLI podem mesmo afectar o sucesso reprodutivo. “Ficaria surpreendido se não fosse esse o caso”. “Como investigador e conservacionista de linces há muitos anos, acredito que tudo depende de uma combinação entre compreensão científica, bom senso e experiência.”
O especialista sublinha que formar equipas capazes de gerir centros de reprodução de felinos ameaçados é um processo longo e altamente especializado. “A reprodução de felinos destinados a serem libertados na natureza é, em muitos aspectos, muito diferente da reprodução em zoológicos”, explica.
Enquanto os animais criados para viver em zoos devem adaptar-se à presença humana e ao ambiente de cativeiro, os animais destinados à reintrodução “devem, obviamente, sentir-se bem enquanto estão em cativeiro mas não podem ser socializados de forma alguma com humanos e devem ser mantidos e geridos de forma a favorecer, o melhor possível, o seu comportamento natural”.
Além disso, têm de desenvolver comportamentos sociais e capacidades de caça.
“Não consigo prever quanto tempo demorará uma nova equipa a aprender”, afirma. “Mas gostaria de sublinhar que levar o programa de reprodução para conservação do lince-ibérico ao actual nível de sucesso demorou muitos anos.”
Segundo Breitenmoser, esse trabalho foi construído através de “uma cooperação internacional muito vasta”, envolvendo especialistas muito para além de Portugal e Espanha.
“Um trabalho quase global”
O conservacionista descreve o programa de reprodução do lince-ibérico como um esforço internacional de grande escala, que juntou veterinários, etólogos, ecólogos e biólogos populacionais de vários países.
“Qualquer desafio observado num centro de reprodução — quer relacionado com problemas de saúde, quer com questões comportamentais — era discutido cientificamente e resolvido com a ajuda dos melhores especialistas mundiais”, conta.

As soluções eram depois aplicadas nos centros, envolvendo toda a estrutura das equipas técnicas.
“Desde o director científico ao veterinário, tratadores e até ao jardineiro, que também tinha de aprender a desempenhar o seu trabalho sem causar stress aos linces.”
Questionado sobre as competências necessárias para coordenar um centro deste tipo, Breitenmoser defende que é necessária uma “visão muito abrangente de todo o tema em todas as suas vertentes”. “O coordenador é a interface entre todo o trabalho científico e prático e precisa de conseguir compreender todos esses aspectos.”
Embora considere muito importantes as competências veterinárias, sublinha que o conhecimento da ecologia e do comportamento da espécie é “crucial”. “Recorde-se: estes animais são criados para conseguirem viver na natureza e desempenhar o papel ecológico que nunca chegaram a experienciar.”

O especialista acrescenta que, em conservação de espécies ameaçadas, a experiência prática acumulada continua a ser determinante. “Em situações invulgares ou perante novos desafios, a experiência permite muitas vezes encontrar soluções muito mais rapidamente.”
Na entrevista à Wilder, Urs Breitenmoser destaca ainda o papel internacional do centro português. Actualmente existem seis centros especializados no programa de conservação do lince-ibérico — cinco em Espanha e um em Portugal.
“O CNRLI está entre os centros mais conhecidos e bem-sucedidos e desempenha um papel importante dentro do programa”, afirma.
O especialista lembra também que Rodrigo Serra, actual coordenador técnico do centro, desempenha funções para além da estrutura portuguesa.“Rodrigo Serra é coordenador de todo o programa, desempenhando, portanto, um papel que vai além do centro português.”
Breitenmoser destaca ainda que Rodrigo Serra é membro de longa data, desde 2009, do Grupo de Especialistas de Felinos da UICN, algo que, considera, “demonstra que a sua experiência e competências eram valorizadas na conservação de felinos muito para além do lince-ibérico”.
O perito sublinha também que o CNRLI é importante não só para o programa internacional mas também para Portugal. “Sendo o único centro existente no país, é a instituição portuguesa mais importante no programa de recuperação do lince-ibérico”.
O ICNF anunciou recentemente a internalização da gestão do centro de Silves, até agora assegurada através de uma empresa externa. A actual equipa técnica já alertou para riscos legais, operacionais e de bem-estar animal associados ao processo de transição.
Os deputados do Partido Livre já questionaram a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, sobre o motivo para o afastamento da equipa actual do CNRLI e como é que o Ministério vai garantir que a mudança “não compromete o sucesso do programa de reintrodução do lince-ibérico”.