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Lince: Coordenador técnico do CNRLI alerta para “risco de colapso” após mudança decidida pelo ICNF

12.05.2026
leitura de 8 minutos
Cria de lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

Equipa do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI) diz que nunca recebeu informação formal sobre a transição. Rodrigo Serra teme impactos no programa ibérico de conservação da espécie e garante que a atual equipa técnica está “totalmente disponível para negociar uma solução legal, responsável e tecnicamente segura”.

A equipa técnica do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves, afirma ter recebido “com total surpresa” a decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de internalizar o centro.

CNRLI em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder (arquivo)

Em entrevista à Wilder, o actual coordenador técnico e diretor científico do centro, Rodrigo Serra, diz que a equipa nunca recebeu qualquer comunicação formal sobre o processo, nem detalhes sobre a eventual transição.

“Nunca fomos informados formalmente”, afirma. Segundo Rodrigo Serra, houve apenas “uma reunião informal no ICNF no fim de fevereiro”, onde foi apresentada “uma intenção de fazer uma internalização”. “Desde aí nunca recebemos qualquer contacto formal do ICNF para tratar dessa transição”, acrescenta.

Segundo o coordenador, numa visita posterior ao centro, um vogal do conselho diretivo do ICNF terá explicado à equipa, também informalmente, que os trabalhadores poderiam passar “da situação atual em que estavam, que é nos quadros da empresa, para uma situação de contratos a prazo para depois eventualmente abrirem concursos”. “Sem qualquer tipo de detalhe”, sublinha. “Nunca chegou qualquer tipo de documentação formal ou propostas formais, quer aos trabalhadores, quer à empresa, para esse tipo de transição.”

O responsável diz que o ICNF nunca explicou formalmente as razões para a mudança. “O ICNF não nos comunicou formalmente nenhuma razão, nem nenhum modelo, nem as condições em que a equipa poderia eventualmente ser absorvida ou não”, afirma.

Questionado sobre alegadas insuficiências do atual modelo de gestão, Rodrigo Serra responde que nunca lhe foi apontada qualquer falha técnica. “Seria estranho que as insuficiências do modelo de gestão estivessem do nosso lado, tendo em conta os resultados que temos obtido.”

Fêmea e crias no CNRLI. Foto: Joana Bourgard/Wilder (arquivo)

Além disso, acrescenta, o ICNF estava a par de praticamente todo o trabalho diário no CNRLI, através de relatórios mensais e do contacto com João Alves, coordenador do programa de reintrodução do lince-ibérico no ICNF. “O contacto com o dr. João Alves era diário e ele conhecia os padrões do centro e reportava-os diretamente ao ICNF”.

“O problema não é a mudança de modelo de gestão”, defende. “Reconhecemos que o Estado tem todo o direito de definir o modelo de gestão. O problema é que não há uma transição técnica nem legal nem segura.”

Além das questões técnicas, Rodrigo Serra critica a forma como o processo está a decorrer do ponto de vista laboral. “Há regras de transição de equipas que não estão a ser cumpridas pelo ICNF”, acusa.

O responsável afirma que existem trabalhadores no centro há 15 e 16 anos e considera que a atual situação “viola a lei” e é “altamente desumana”. “Tenho pessoas aqui que estão a trabalhar connosco há 15 anos”, afirma. “Uma delas adiou ser mãe e neste momento está em licença de maternidade.”

“Estes trabalhadores deram a sua vida por estes bichos. No fundo, este centro cresceu porque estas pessoas deram tudo de si (…). Sem este envolvimento, sem esta experiência acumulada, sem esta dedicação profunda, não teríamos os resultados que tivemos até aqui.”

Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ do Lince-Ibérico

Segundo Rodrigo Serra, a opção que foi apresentada aos trabalhadores passaria por rescindirem dos seus direitos para assinar contratos a prazo “sem qualquer tipo de função, sem prazos, sem valores”.

“Há risco de colapso do trabalho do centro”

Uma das maiores preocupações da equipa prende-se com o impacto da mudança no funcionamento do centro e no próprio programa ibérico de conservação do lince-ibérico.

“Há riscos no maneio, há riscos clínicos, há riscos de sobrevivência” dos animais que estão em Silves, alerta Rodrigo Serra. “É impossível treinar uma equipa para um trabalho especializado numa semana.”

O responsável afirma mesmo existir “risco de colapso do trabalho do centro” e considera que isso poderá afetar também os centros espanhóis e o programa ibérico de reintroduções. “Se os animais tiverem de ir para Espanha por algum problema técnico ou de maneio, obviamente que os centros de Espanha não vão poder treinar animais para reintrodução e vamos fazer colapsar um programa altamente bem-sucedido a nível ibérico e até europeu.”

Solta de Nara no Vale do Guadiana, em Maio de 2017. Foto: Helena Geraldes

Segundo Rodrigo Serra, o trabalho desenvolvido no centro acompanha o ciclo reprodutivo anual do lince-ibérico e exige formação longa e altamente especializada.

O coordenador técnico do CNRLI lembra que “todos os meses há tarefas diferentes, não há um mês igual ao outro”. “Para qualquer técnico conseguir ter o primeiro contacto com o trabalho de reprodução em cativeiro e de preparação de linces para a reintrodução, num centro deste tipo, são necessários no mínimo 12 meses”, explica. “E, normalmente, passarão mais 12 meses até os técnicos começarem, finalmente, a poder agir por iniciativa própria e com total liberdade; até lá têm de ser orientados por técnicos mais experientes.”

O actual coordenador recorda que a própria preparação da equipa atual do CNRLI demorou anos e começou muito antes de maio de 2009, quando o Centro foi inaugurado.

“Eu estava em treino e formação nos centros de reprodução espanhóis desde 2004”, conta. “Assisti ao primeiro parto em cativeiro a 28 de Março de 2005, em El Acebuche.” Brezo, Brisa e Brecina foram os primeiros linces-ibéricos nascidos em cativeiro e ficaram para a história da conservação da espécie. “Estive cinco anos em treino de casa antes de vir para o terreno.”

O protocolo de cedência de 20 exemplares de linces-ibéricos a Portugal foi assinado a 28 de julho de 2009 em Penamacor, junto à Reserva Natural da Malcata, entre os governos de Portugal e de Espanha. Os linces – 14 machos e seis fêmeas – viriam dos centros de El Acebuche, La Olivilla e Jerez de la Frontera.

“Logo entre janeiro e fevereiro de 2009 comecei a entrevistar pessoas. Durante o verão de 2009 já estavam selecionadas. Essas pessoas, particularmente os tratadores e veterinários, foram enviados para os centros de Espanha, para estarem um mês ou mais em contacto direto com os animais.”

O primeiro lince, Azahar, então com cinco anos de idade, chegou ao CNRLI a 26 de outubro de 2009, vindo do Zoobotânico de Jerez de la Fronteira, em Espanha. Até novembro desse ano chegaram mais 15 linces, o primeiro grupo a estrear o CNRLI.

“E ainda assim a empresa garantiu a contratação de uma técnica espanhola com experiência para fazer a entrada dos primeiros seis meses, para garantir que tudo era feito em conformidade.”

“Nessa altura sabia-se alguma coisa sobre o lince mas existiam menos de 150 animais em todo mundo. Ainda havia pouco conhecimento. Fartámo-nos de aprender depois disso, chegando até, no caso de Portugal, a liderar os esforços de inseminação artificial, por exemplo. Até porque somos nós, aqui neste centro, que lideramos esse processo, o que naturalmente se vai perder.”

O coordenador faz um balanço “obviamente positivo” dos quase 17 anos de actividade do CNRLI. “Penso que os resultados estão à vista de todos. Até hoje, nasceram mais de 180 linces-ibéricos só no centro de Silves e mais de uma centena de animais foram preparados para reintrodução na natureza”, afirma.

Segundo o responsável, 17 dos linces libertados em Portugal nasceram no centro de Silves. “A primeira fêmea que foi solta em Portugal nasceu cá, foi a Jacarandá.” Esta fêmea, juntamente com o macho Katmandú, foi reintroduzida no Vale do Guadiana a 16 de dezembro de 2014, marcando o arranque das reintroduções de lince-ibérico no nosso país.

Jacarandá tem ainda a relevância de ter sido a mãe da primeira cria de lince-ibérico a nascer na natureza em Portugal, mais concretamente no Vale do Guadiana, em cerca de 40 anos. Esta fêmea nascida no CNRLI deu à luz uma cria e deu início a uma nova fase da história da conservação da espécie no nosso país.

Actualmente, estima Rodrigo Serra, existirão mais de 350 linces-ibéricos em Portugal.

Foto: Programa de Conservação Ex-situ do Lince Ibérico

“O primeiro passo foi trazer a espécie de volta para a reproduzir, treinar para reintrodução e finalmente reintroduzir em Portugal.”

Os nascimentos em Portugal, em cativeiro, começaram em 2010. Seis meses depois da inauguração do CNRLI nasceram duas crias, a 4 de Abril de 2010. Era a primeira reprodução comprovada em Portugal nos últimos 30 anos. Mas as crias acabaram por morrer dias depois por causa de problemas congénitos. No ano seguinte, nasceram cinco crias em Silves mas nenhuma sobreviveu.

Finalmente em 2012, nasceram e sobreviveram as primeiras ninhadas em Portugal, em cativeiro. E Jacarandá foi uma dessas primeiras crias, filha de Flora e Foco.

Equipa disponível para negociar

Apesar das críticas, o coordenador técnico garante que a equipa continua totalmente disponível para colaborar numa solução negociada. “A equipa técnica mantém total disponibilidade para colaborar numa solução legal, responsável e tecnicamente segura”, afirma.

“O que queremos é assegurar a continuidade deste programa, que é um dos programas de conservação mais importantes a nível europeu.”

“Acredito que o ICNF tenha planos para mudar de modelo de gestão. Mas tem que garantir que o faz de forma legal, regular e assegurando essa continuidade. Sem isso, o projeto está, obviamente, em risco de colapsar.”

Rodrigo Serra sublinha que o centro atravessa atualmente uma fase particularmente sensível no ciclo anual de tarefas, com oito crias nascidas este ano, monitorização clínica intensiva e trabalhos de reprodução genética, incluindo a recolha e o congelamento de sémen de linces geneticamente importantes.

“Há um trabalho intenso a decorrer nesta altura, imprevisível e de 24 horas por dia.”

“Reconhecemos ao Estado, obviamente, a autoridade para mudar de gestão. Tem é que respeitar o direito dos trabalhadores, não violar a lei, e eventalmente também não pôr em risco o bem-estar, a saúde e até mesmo a vida dos linces-ibéricos que temos em Portugal. São um património genético europeu, ibérico, e isso é uma responsabilidade muito grande que Portugal assume há bastante tempo.”

Neste momento, o lince-ibérico continua numa das três categorias de ameaça definidas pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), ainda que esteja na mais baixa, Vulnerável.

Mas durante mais de 50 anos, as populações de lince-ibérico (Lynx pardinus) não conheceram outra coisa se não o declínio. A perseguição humana e a escassez de coelho-bravo ditaram esta descida, que levou a espécie à beira da extinção.

Nos últimos 20 anos, Portugal e Espanha uniram-se e avançaram em várias frentes no derradeiro esforço de salvar este felino. Em 23 anos, a população passou de menos de 100 exemplares, contabilizados em 2002, para 2401 em 2024, segundo os dados do mais recente censo à espécie.


Recorde aqui a série “Como Nasce um Lince-ibérico” que a Wilder publicou em 2016 sobre a equipa de pessoas que cuidava então do CNRLI, desde tratadores, veterinários e etólogos a voluntários e ao segurança.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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