PUB

Obras na muralha de Trancoso ameaçam aquela que pode ser a maior colónia de andorinhões-pretos em Portugal

30.04.2026
leitura de 5 minutos
Andorinhão-preto (Apus apus). Foto: pau.artigas/Wiki Commons

Equipa do ICNF visitou o local esta quinta-feira. Ambientalistas pedem suspensão imediata das obras durante a época de reprodução, para que lei seja cumprida, e apelam a soluções que salvaguardam a continuação da colónia.

Todos os anos, em meados de abril, os andorinhões-pretos (Apus apus) fazem uma longa viagem desde África até Portugal para nidificar, fiéis aos sítios de sempre. Mas desta vez, as aves que regressaram a Trancoso, no distrito da Guarda, tiveram uma má surpresa: parte da muralha histórica desta cidade está tapada por tapumes e andaimes, em obras de restauro promovidas pelo município e pela empresa Monumenta.

Estas obras estão a afetar a época de reprodução de uma colónia com centenas de casais de andorinhões-pretos, “provavelmente a maior em Portugal”, afirma um comunicado conjunto de nove organizações ambientalistas. A intervenção “está a provocar perturbação direta nestas aves e a destruição irreversível dos seus locais de nidificação, nomeadamente os orifícios e fendas entre as pedras da muralha”, referem. Além do mais, acrescentam, este caso configura uma violação do Decreto-Lei n.º 140/99, que proibe a destruição de ninhos de aves selvagens, mesmo que vazios, e ações que as perturbem durante a época de reprodução. 

Obras na muralha de Trancoso. Foto: D.R.

“Perante a gravidade da situação, foi criado um grupo de trabalho que reúne várias organizações não-governamentais de ambiente com dois objetivos prioritários: minimizar imediatamente os impactos já existentes desta intervenção e evitar que situações semelhantes se repitam no futuro”, afirma o comunicado conjunto, subscrito pelo CERVAS / Associação Aldeia, Rewilding Portugal, Laboratório Rural, Quercus / Núcleo Regional da Guarda, andorin, Palombar, Hereditas, Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA) e A Geradora – Cooperativa Integral CRL.

Andorinhão-preto a tentar aceder à muralha, junto ao local em obras. Foto: D.R.

A muralha de Trancoso, que ladeia o antigo núcleo urbano, está dividida em vários troços. Os trabalhos de restauro iniciaram-se em setembro e têm estado a decorrer numa parte que fica junto à Porta do Carvalho e à Porta da Traição, mas esta semana iniciou-se uma nova frente de obra mais acima, junto à torre, “num local ainda mais importante para a reprodução dos andorinhões por ficar numa zona mais alta e com mais ninhos”, explica Ricardo Brandão, veterinário e coordenador do CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigiância de Animais Selvagens, centro de recuperação de fauna selvagem situado em Gouveia.

Mas pode ser que em breve haja novidades. Esta quinta-feira, uma equipa do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) visitou as obras. “Estamos na expetativa de ver qual será o resultado”, comenta o coordenador do CERVAS, que a 21 de abril foi apanhado de surpresa quando deparou com estas obras, durante uma visita de educação ambiental com alunos do Agrupamento de Escolas de Trancoso, realizada com a colaboração do município. Nesse dia, recorda o comunicado, “foram de imediato estabelecidos contactos com as entidades competentes, incluindo o SEPNA/GNR e o ICNF, solicitando a suspensão urgente dos trabalhos”.

No entanto, esses alertas terão tido o efeito contrário, uma vez que “desde essa data os trabalhos na muralha parece que aceleraram”, acrescenta Ricardo Brandão. “O que nós pretendemos é que se comece a respeitar e a dar mais importância à conciliação entre a preservação da biodiversidade e a reabilitação de edifícios históricos”, sublinha.

Apesar de estar atualmente classificado como Pouco Preocupante em Portugal, a nível europeu o andorinhão-preto está classificado como Quase Ameaçado, com descidas populacionais registadas em vários países. Em Espanha, por exemplo, tem o estatuto Vulnerável, sendo considerado uma espécie ameaçada.

Andorinhão-preto (Apus apus). Foto: pau.artigas/Wiki Commons

Existem soluções possíveis?

Apesar de uma parte da muralha estar já estar rebocada com cimento, impedindo o acesso das aves aos espaços onde cuidavam de ovos e crias, “ainda é possível repor a situação anterior”, afiança por sua vez Vasco Flores Cruz, coordenador do projeto Andorin, que tem como objetivo conhecer melhor os andorinhões e andorinhas de Portugal e contribuir para a conservação dessas aves.

“Analisando bem as pedras, é possível ver onde estariam os espaços maiores e voltar a abrir orifícios nesses locais, garantindo um pequeno espaço onde caiba um andorinhão”, refere este ornitólogo.

Quanto à parte da muralha que não foi ainda intervencionada, “é possivel fazer as obras fora do período de reprodução”, até porque os andorinhões-pretos estão entre as aves migradoras que passam menos tempo em Portugal. “Só fazem uma postura. Chegam e a meio de abril e vão embora no início de agosto.”

Já durante a intervenção, “pode usar-se um pequeno molde com o tamanho certo para os andorinhões entrarem e saírem dos buracos entre as pedras, colocando-se o cimento em volta” – acrescenta Vasco Flores Cruz – assegurando dessa forma um bom resultado tanto para o município como para as aves.

“Existem exemplos claros, em Portugal e no estrangeiro, de boas práticas que conciliam a conservação do património com a proteção da biodiversidade”, sublinham as organizações ambientalistas, no comunicado. Um dos mais recentes sucedeu em julho passado, no Porto, com uma colónia de andorinhões-da-serra, mas existem outros casos. “Municípios como Guimarães interrompem trabalhos de limpeza das muralhas durante a época de nidificação, enquanto na Lourinhã a presença de ninhos nas fachadas dos edifícios condiciona a instalação de andaimes”, acrescentam.

Mas não só. “A nível internacional são muitos os exemplos de restauro de edifícios históricos que contemplam a presença de colónias de andorinhões e demonstram que é possível, com custos muito reduzidos, agir de forma responsável.”

Cerca de 500 ninhos em Trancoso

De acordo com as estimativas do projeto Andorin, que todos os anos realiza uma campanha de ciência cidadã para contabilizar ninhos de andorinhas e andorinhões em Portugal, entre as 350 colónias de andorinhões-pretos registadas na última campanha a nível nacional, a de Trancoso é de facto a mais numerosa.

“No final de um dia de julho, estimamos que ali estivessem presentes cerca de 2000 andorinhões. Tendo em conta o número de crias nascidas recentemente e de juvenis, estamos a falar de cerca de 500 ninhos, tanto nos vários troços da muralha como no castelo”, explica Vasco Flores Cruz, que lembra que estas aves são “muito fiéis” aos locais onde nascem e se reproduzem, todas as primaveras. “Para uma colónia chegar a esta dimensão, provavelmente estará presente em Trancoso há vários séculos, desde pouco depois da construção destes monumentos”, acredita o coordenador do Andorin.


Saiba mais.

Fique a saber 10 coisas sobre esta espécie de ave incrível, que passa praticamente toda a vida a voar – mesmo enquanto dorme.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca