Foto: Katja Schluz

Guardiões das flores: Todos contam para a ciência e para os polinizadores! 

Início

A ciência cidadã é uma excelente forma de todos nós praticarmos ciência e ficarmos mais próximos do mundo natural. A nova crónica da série “Guardiões das Flores”, uma parceria entre a Wilder e o projeto PolinizAÇÃO, explica-nos como.

Seja através de uma fotografia de uma mosca pousada numa flor, da participação na contagem de borboletas ou em serões à volta de uma armadilha luminosa, todos podemos contribuir para a recolha de dados sobre polinizadores.

A ciência também pode ser um hobby! 

Admitimos que um carteiro se dedique à fotografia ou que treine para uma maratona ao fim de semana, mesmo que não seja artista ou desportista profissional. Mas talvez nos espantemos se ele nos disser que faz ciência nos tempos livres. É que os cientistas são pessoas sérias de bata branca, fechados em laboratórios a escrever artigos que resolvem as grandes questões do mundo! Por isso, como pode um carteiro ter o hobby da ciência? Pode, se for um cidadão-cientista!  

Um cidadão-cientista é qualquer pessoa que, não sendo um cientista profissional (aqueles da bata branca ou da rede entomológica na mão), participa num processo científico. O seu envolvimento pode ser maior ou menor, podendo ir da formulação das hipóteses e recolha de dados à experimentação, análise e publicação dos resultados.  

Esta abordagem participativa e inclusiva à construção do conhecimento científico é chamada de Ciência Cidadã. Ao envolver os cidadãos é possível não só aumentar exponencialmente os dados recolhidos, alcançando volumes que a comunidade científica nunca poderia reunir sozinha, mas também tornar a ciência mais aberta, acessível e democrática. E este é um passo essencial na transição para uma sociedade mais informada, capaz de atuar na resolução de problemas complexos, como, por exemplo, aqueles que ameaçam a biodiversidade.  

Contagem de borboletas no âmbito do projeto Censos de Borboletas. Foto: Rui Félix

Mistérios da história natural e da ciência cidadã 

Apesar de o termo ser recente, a colaboração entre cientistas e não cientistas na recolha de dados de história natural é antiga. Pelo menos desde o século XVII que naturalistas amadores desempenham um papel importante no estudo da natureza. Darwin não teria conseguido reunir tantas evidências a favor da sua teoria da evolução por seleção natural sem a ajuda de inúmeros outros naturalistas em todo o mundo, com quem colaborava e trocava correspondência e espécimes. 

Um dos mistérios da história natural envolvendo um polinizador, resolvido com a ajuda da ciência cidadã, foi a migração da borboleta-monarca. Durante várias décadas, estas borboletas foram marcadas e seguidas por milhares de voluntários, ao longo da sua rota de migração, no Canadá, EUA e México. Com a ajuda dos cidadãos, foi possível perceber padrões, aprender rotas e acompanhar esta incrível viagem. Encontrar, na Sierra Madre no México, uma borboleta marcada por voluntários do estado do Minnesota nos Estados Unidos da América, permitiu também compreender a extensão desta espetacular migração que atravessa vários países. 

Borboleta-monarca marcada no âmbito do programa de ciência cidadã Monarch Watch. Foto: Katja Schluz

Mais recentemente, as novas plataformas e aplicações de registo da biodiversidade têm contribuído para a popularização da ciência cidadã. Uma das mais conhecidas e usadas a nível mundial é o iNaturalist; em Portugal, o nó desta rede internacional é o BioDiversity4All. Esta plataforma, que permite o mapeamento colaborativo da biodiversidade usando fotografias de cidadãos-cientistas, muito tem contribuído para o aumento do conhecimento sobre a distribuição e biologia dos mais variados grupos de organismos. Várias espécies novas para ciência foram descobertas com a sua ajuda, comprovando o valor da colaboração entre cientistas e não cientistas.  

Como pode a ciência cidadã ajudar os polinizadores? 

Seja através de uma fotografia a uma mosca pousada numa flor, da participação na contagem de borboletas ou em serões à volta de uma armadilha luminosa, todos podemos contribuir para o aumento do conhecimento sobre polinizadores! Na era da informação e da tecnologia, a participação dos cidadãos na ciência está ainda mais facilitada e são inúmeros os projetos e aplicações de ciência cidadã que têm os polinizadores como protagonistas. Aqui ficam algumas sugestões de projetos a decorrer em Portugal, com diferentes graus de envolvimento e conhecimento: 

Projeto PolinizAÇÃO – interações planta-polinizador  

O projeto PolinizAÇÃO permite registar e reunir observações da ocorrência de polinização na plataforma de ciência cidadã BioDiversity4All, através de fotografias que mostrem polinizadores em interação direta com as partes reprodutivas das flores. Os registos podem ser efetuados na plataforma ou através da aplicação iNaturalist, que permite identificar o polinizador ou a planta. Esta identificação será posteriormente confirmada e validada por outros utilizadores naturalistas ou especialistas.  

Registo de interação entre uma mosca-das-flores (Eristalinus taeniops) e uma inflorescência de ineixa (Hirschfeldia incana). Foto: Albano Soares

Ao agrupar num mesmo projeto todas as fotografias em que há evidências de polinização, este projeto permite aos investigadores identificarem os principais polinizadores do nosso país, as plantas que lhes fornecem néctar e pólen, e as interações entre eles. Além disso, a informação recolhida pode também ser usada no apoio à decisão sobre que plantas usar na construção de espaços verdes amigos dos polinizadores. 

Aplicação FitCount 

A aplicação FITCount – do inglês Flower-Insect Timed Count – permite aos cidadãos participarem na recolha de novos dados sobre o número e diversidade de insetos polinizadores que visitam as flores. Neste caso, é preciso aplicar uma metodologia padronizada que é descrita em detalhe na própria aplicação. Em resumo, é necessário escolher uma planta em floração e contar os insetos que se alimentam nela durante 10 minutos. Não é preciso saber identificar as diferentes espécies de insetos, mas sim os grandes grupos a que pertencem, por exemplo, abelhas, borboletas, moscas-das-flores ou escaravelhos. Ainda que não fiquemos a conhecer a diversidade específica dos polinizadores que visitam as flores, podemos saber a sua abundância e as preferências dos diferentes grupos.  

Censos de Borboletas e Rede de Estações de Borboletas Noturnas 

Com um grau de compromisso mais elevado que os exemplos anteriores, a monitorização de borboletas é uma das atividades de ciência cidadã dirigida aos polinizadores mais populares na Europa e no mundo. Portugal não é exceção, com os projetos Censos de Borboletas e Rede de Estações de Borboletas Noturnas a reunirem mais de uma centena de voluntários que registam regularmente a diversidade e abundância destes insetos.  

No caso dos censos de borboletas, os voluntários devem ter experiência na identificação das borboletas da sua região e treino na metodologia de amostragem. Não é tão difícil como parece! Depois, devem escolher o percurso que querem monitorizar, o qual será visitado, idealmente, de março a setembro durante vários anos. O objetivo é contar o número de indivíduos das diferentes espécies que observam ao longo do percurso.  

Na Rede de Estações de Borboletas Noturnas a monitorização também é realizada mensalmente em locais fixos e seguindo uma metodologia padronizada. A amostragem é realizada através da instalação de armadilhas luminosas que atraem as borboletas noturnas e que ficam acesas do anoitecer ao amanhecer.  

Em ambos os projetos, os registos são feitos usando a aplicação ButterflyCount. Os dados recolhidos permitem construir indicadores de tendências populacionais que nos informam se as espécies estão em declínio ou em expansão. Como as borboletas são bioindicadores da diversidade de outros insetos, a saúde das suas populações também nos permite inferir sobre o estado de conservação de outros grupos mais difíceis de monitorizar.  

Sessão de armadilhagem de borboletas noturnas no âmbito do projeto Rede de Estações de Borboletas Noturnas. Foto: Maria Matos

Ser um cientista cidadão não exige laboratório, bata branca ou títulos académicos: exige curiosidade, interesse pela natureza e vontade de participar. No fundo, todos podemos ter a ciência como hobby, contribuir para a investigação e ajudar a proteger a biodiversidade.  


Eva Monteiro pertence à equipa da Universidade de Coimbra responsável pelo projeto PolinizAÇÃO – Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores. É também Presidente do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e coordenadora do projeto de ciência cidadã Censos de Borboletas de Portugal. Nesta crónica colaboraram ainda, como autores, Cândida Ramos, Carolina Caetano, Cristina Luís, Hélder Cardoso e João Loureiro.

Não perca